Destaques do mês

Ação da Via Varejo salta 35% e IRB cai 19%: as maiores altas e as maiores quedas do Ibovespa em maio

Varejistas novamente são destaque positivo, enquanto o IRB voltou a figurar entre as maiores quedas do índice

SÃO PAULO – Após o caótico março da bolsa com o início dos impactos da pandemia do novo coronavírus, o Ibovespa chegou agora ao seu segundo mês seguido de alta expressiva, fechando maio com ganhos expressivos de mais de 8% e voltando a se aproximar dos 90 mil pontos.

Neste cenário, 7 das 75 ações que fazem parte do índice registraram valorização maior que 20%, enquanto apenas 4 papéis tiveram perdas superiores a 10%.

Do lado positivo, o grande destaque ficou para as empresas varejistas com grande atuação no e-commerce, com três empresas – Via Varejo, Magazine Luiza e B2W – entre as sete maiores altas de maio.

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Com alta de 35,08%, pelo segundo mês seguido a Via Varejo (VVAR3) ficou entre os maiores ganhos do Ibovespa, depois de subir quase 74% em abril. A empresa, que vem passando por um grande processo de reestruturação, apresentou em maio um resultado de primeiro trimestre positivo, mostrando que a estratégia da dona das Casas Bahia e do Ponto Frio de implantar uma verdadeira “revolução digital” está rendendo frutos em um momento crucial por conta da pandemia.

A empresa viu o crescimento das vendas brutas online acelerar para 45,7% na comparação mensal; apesar do maior portfólio de e-commerce e queda das vendas nas mesmas lojas, a margem bruta registrou uma expansão, de 3,1 pontos percentuais.

Além disso, a companhia conseguiu registrar lucro apesar do cenário adverso, de R$ 13 milhões, ante prejuízo de R$ 50 milhões em igual período do ano passado, além de tomar iniciativas de gerenciamento que permitiram a redução da queima de caixa em R$ 850 milhões.

Segundo o Credit Suisse, como resultado dos investimentos em tecnologia, as indicações para o crescimento online em abril “foram surpreendentes”, com o segmento de venda direta (1P) crescendo 260% na base anual, enquanto o mercado registrou um crescimento de 130% no mesmo período.

A segunda melhor varejista do mês foi a “queridinha” dos analista no setor: Magazine Luiza (MGLU3), que esta semana divulgou seu balanço. Apesar do lucro abaixo do esperado, com queda de 76,7%, para R$ 30,8 milhões, na base anual e, em termos ajustados, ter sofrido um prejuízo de R$ 8 milhões, as demais linhas surpreenderam positivamente.

Para Pedro Fagundes, analista da XP Investimentos, a empresa foi a que se mostrou mais preparada para enfrentar a pandemia do coronavírus. Seu e-commerce da companhia teve um crescimento do GMV (volume bruto de mercadorias) de 73% no primeiro trimestre de 2020 na comparação anual.

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Formado pelo site, app, marketplace e as operações de Netshoes, Zattini, Época Cosméticos e Estante Virtual, as vendas digitais superaram o valor de R$ 4 bilhões e corresponderam a 53% das vendas totais da companhia. As vendas totais do Magalu atingiram R$ 7,7 bilhões, alta de 34% em relação ao mesmo período do ano passado. Nos meses seguintes, houve uma aceleração ainda maior, de 138% em abril e de expressivos 203% em maio.

Na avaliação dos analistas do Bradesco BBI, os resultados deixam o Magazine Luiza na posição de um dos vencedores da atual crise. No mês, os papéis subiram 29,48%.

Já a B2W (BTOW3), apesar de ter ficado um pouco mais para trás no desempenho do mês, com alta de 25,08%, também foi elogiada pelos analistas, que destacaram as estratégias assertivas em meio a pandemia, com a colaboração da Lojas Americanas em seus negócios.

O “ship from store” (compre online e receba da loja mais próxima), por exemplo, foi expandido de 300 para todas as 1.700 lojas físicas da Americanas – antes da Covid-19, a meta era que esse processo acontecesse até o final do ano. A empresa ainda apontou que as iniciativas como expedição da loja e click and collect (retirada em lojas de compras feitas pela internet), tiveram um crescimento de 85% e atingiram quase 12% do GMV.

Sabesp, Braskem e outros destaques

Entre as maiores altas do mês, atenção ainda para a Sabesp (SBSP3), que ficou também entre as maiores valorizações com ganhos de 35,53%, a R$ 54,32, um pouco superiores aos da Via Varejo. Somente essa semana, os papéis avançaram mais de 20%, em meio a uma série de notícias positivas.

Na quarta-feira, ela subiu forte na esteira da Copasa (CSMG3), estatal de saneamento do estado de Minas Gerais, após ser dada uma indicação no sentido de privatização da companhia mineira. Porém, o Itaú BBA destacou em relatório preferência pela companhia paulista de saneamento, uma vez que as chances de privatização são bem maiores na visão dos analistas do banco.

Vale ressaltar ainda que o Credit Suisse elevou a recomendação para a companhia de neutra para outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço-alvo de R$ 62,90, também se baseando na expectativa de uma nova legislação para o setor e possível privatização.

Também subindo forte nos últimos dias de maio e indo para os primeiros lugares de alta do Ibovespa, as ações da Usiminas (USIM5) saltaram 28,13% no período, em meio ao cenário de retomada da economia da China.

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O setor siderúrgico se beneficia com cenário para a recuperação da demanda; os contratos futuros de minério de ferro avançaram rumo a US$ 100 a tonelada em Cingapura, impulsionados por ganho mensal recorde em meio a preocupações sobre a oferta no Brasil e demanda forte e constante na China, maior produtora mundial de aço.

Outro destaque positivo do mês foi a Braskem (BRKM5), que saltou 31,22% no acumulado do mês em meio a uma série de elevações de recomendações pelos analistas, que seguem otimistas com a empresa apesar do cenário macro desafiador.

Umas das casas mais otimistas com a empresa é o UBS, que este mês fez uma dupla elevação de recomendação para os papéis, passando de venda direto para compra.

Segundo o banco, a forte desvalorização do real frente ao dólar e a queda nos preços da nafta (da ordem de 40%) poderão dar uma base para a melhora dos resultados da petroquímica.

“Nós ainda vemos alguns desafios de médio prazo, como o problema ambiental em Alagoas, o excesso na capacidade mundial e uma possível revisão no contrato de etano no México. A liquidez não é uma preocupação e mesmo num cenário de estresse a companhia deve gerar caixa”, avalia o UBS.

Em outro relatório, divulgado na última quarta, o banco suíço ainda ressaltou que mesmo no pior cenário, a petroquímica teria condições de sobreviver. “Não vemos a liquidez da companhia como uma preocupação […] Mesmo no cenário de maior estresse, cremos que a companhia ainda pode gerar caixa”, disseram os analistas.

Porém, o dia que as ações mais subiram em maio, saltando 14,97% em um pregão, foi quando o JPMorgan elevou sua recomendação, que passou para neutra.

Os analistas fizeram a revisão destacando principalmente o custo mais baixo do nafta e o valuation descontado do ativo da petroquímica. Por outro lado, um fator de preocupação é a queda na demanda por polietileno (PE) e polipropileno (PP) no Brasil, de 8,9% no ano, em função da pandemia de coronavírus.

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Confira as maiores altas de maio:

EmpresaTickerCotaçãoVariação
SabespSBSP3R$ 54,32+35,53%
Via VarejoVVAR3R$ 12,40+35,08%
BraskemBRKM5R$ 27,74+31,22%
Magazine LuizaMGLU3R$ 64,35+29,48%
UsiminasUSIM5R$ 6,15+28,13%

As maiores baixas do mês

Enquanto isso, entre as quedas, destaque para o IRB Brasil (IRBR3), que liderou a ponta negativa com queda de 18,79% em um momento ruim que teve início ainda em fevereiro, quando a gestora Squadra Investimentos questionou as práticas contábeis da empresa – o que rendeu a abertura de dois inquéritos pela CVM contra a empresa nesta semana.

No início deste mês, mais uma notícia ruim para a resseguradora: a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) instaurou uma fiscalização especial devido a insuficiência de liquidez regulatória da companhia. Isso porque as provisões técnicas estariam abaixo do mínimo que a reguladora exige.

O regulador exige ativos líquidos suficientes para fazer frente as provisões técnicas realizadas pela resseguradora (representativas de eventuais sinistros, Art. 89 do Decreto Lei nº 73/66).

O próprio IRB destacou em comunicado que a situação decorreu por conta dos efeitos da variação cambial sobre as provisões técnicas da companhia em moeda estrangeira, tendo em vista o cenário causado pelo coronavírus, bem como o aumento das provisões de sinistros a liquidar no primeiro quadrimestre de 2020.

Em meio a uma enxurrada de notícias negativas para a empresa nos últimos quatro meses, os analistas de mercado se mostram cada vez menos confortáveis em traçar teses de investimento para a companhia. Na última semana do mês, os papéis até chegaram a subir em meio às mudanças propostas de estatuto, mas de modo insuficiente para tirá-los da lanterna do Ibovespa.

Na sequência ficaram as ações da Embraer (EMBR3), que desabaram 17,34%. O movimento negativo teve mais força no início de maio, na esteira da notícia do cancelamento do acordo da americana Boeing com a companhia brasileira.

Logo na primeira semana de maio, algumas notícias impactaram a fabricante de aeronaves, como o fato de que ela não teria despertado o interesse dos chineses e que, no curto prazo, ela poderia receber aporte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), 26 anos após a sua privatização.

Além disso, virou risco para a companhia a tentativa política de reestatização, como uma proposta do senador Jacques Wagner (PT-BA). Neste caso, segundo o Bradesco BBI, o governo Federal poderia assumir o controle por meio de uma oferta pública ou aumento de capital.

Para piorar, a companhia foi a única brasileira excluída do índice Morgan Stanley Capital Internacional (MSCI) Emerging Markets, o que colocou bastante pressão nos papéis este mês, já que a mudança acontece agora em 1º de junho.

Quando a composição da carteira de um índice MSCI muda, os fundos que o seguem precisam comprar ou vender ações para se adequar. Por causa dessa mudança, fundos passivos nacionais e internacionais que têm o MSCI como referência precisaram vender ações da Embraer e como esses fundos movimentam muito dinheiro, houve uma pressão vendedora sobre os ativos.

No último pregão do mês, as ações tiveram um alívio após a notícia da Reuters de que a fabricante de aeronaves está atraindo interesse da chinesa Comac e da russa Irkut. As ações chegaram a saltar 18%, mas amenizaram durante o pregão de sexta, tornando o movimento insuficiente para fazer os ativos se recuperarem no mês.

Logo atrás ficou a Azul (AZUL4), que viu suas ações caírem 17,93%, ainda no cenário complicado para suas operações, bastante reduzidas por conta do isolamento social, e também levando em conta as indefinições sobre um pacote de socorro do governo para o setor aéreo, em um mês que ficou marcado pelo pedido de recuperação judicial da Latam Airlines nos EUA.

Neste mês, a Azul apresentou seu balanço, com um prejuízo líquido de R$ 6,135 bilhões no primeiro trimestre, revertendo um lucro de R$ 125,3 milhões do mesmo período do ano passado. Com isso, ela entrou para o grupo dos piores prejuízos da história.

Os números foram impactados principalmente pelas variações monetárias e cambiais, que afetaram o resultado financeiro da empresa em R$ 4,23 bilhões, em meio à disparada do dólar por conta do coronavírus. Os instrumentos financeiros e derivativos tiveram impacto de R$ 1,28 bilhão.

“Com a implementação de medidas de restrição de viagens e do distanciamento social a partir da segunda quinzena de março, a economia brasileira ficou paralisada, levando a uma queda brusca na demanda de passageiros. Além disso, no final do trimestre, o real desvalorizou 33% comparado ao mesmo período no ano anterior, o que pressionou ainda mais nossos resultados”, afirmou a empresa no release de resultados.

Além disso, a companhia aérea teve o rating rebaixado de B para CCC+ pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que disse ainda que revisou as premissas para a recuperação do tráfego aéreo nos próximos anos e agora espera que as companhias aéreas brasileiras enfrentem uma contração de demanda de cerca de 50% em 2020, mantendo cerca de 40% da frota da Azul aterrada até o fim do ano, o que reduzirá os fluxos de caixa e a liquidez da empresa, diz a S&P em relatório.

A agência também ressalta que a Azul possui pagamentos significativos de arrendamentos operacionais no curto prazo, o que requer discussões contínuas sobre o gerenciamento da frota para permitir o cumprimento de obrigações.

Na sequência, estiveram os papéis da Cia. Hering (HGTX3), em baixa de 10,96%, em um cenário em que as varejistas vêm sofrendo fortemente por conta da pandemia de coronavírus que mantém as suas lojas fechadas em diversas regiões do país. No caso da Hering, o cenário que se desenha é ainda mais complicado porque ela ainda passava por um movimento de reestruturação após resultados considerados pouco expressivos.

A companhia divulgou o balanço do primeiro trimestre de 2020 na reta final do mês, mostrando o impacto da pandemia em suas operações. No primeiro trimestre do ano, a varejista teve um lucro líquido de R$ 5 milhões, queda de 89,2% na comparação com igual período de 2019.

Para lidar com a queda das receitas, a empresa reduziu os salários da administração e aderiu ao programa emergencial de manutenção do emprego, reduzindo a folha de salários em 50%.

“Seguimos cautelosos com o setor de varejo de modo. No caso da Cia Hering, os impactos da pandemia pegaram a empresa em um momento já difícil, em que ela vinha sofrendo quedas nas vendas e em sua receita (mesmo quando comparada aos competidores)”, ressalta o Credit Suisse. O Itaú BBA avaliou como fraco os resultados da empresa, mas destacou o crescimento das vendas no canal online, de 43% no primeiro trimestre e 105% em abril.

Por fim, estiveram os ativos da Qualicorp (QUAL3), com desvalorização de 8,49%. A companhia divulgou seus números do primeiro trimestre em meados do mês, registrando queda de 27,1% do lucro consolidado no primeiro trimestre de 2020. Os investidores acompanham também os impactos do coronavírus no setor de saúde.

Confira as maiores baixas de maio:

EmpresaTickerCotaçãoDesempenho
IRB BrasilIRBR3R$ 8,30-18,79%
AzulAZUL4R$ 14,28-17,93%
EmbraerEMBR3R$ 7,15-17,34%
Cia. HeringHGTX3R$ 13,32-10,96%
QualicorpQUAL3R$ 23,72-8,49%

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