Lições do futebol

Seja em momentos bons ou ruins, a seleção de futebol pode ser fruto do que plantamos como sociedade.

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Você se sentiu humilhado porque os alemães foram monstruosamente superiores a nós brasileiros na Copa de 2014? Podemos tirar algumas lições disso se olharmos o problema por um ângulo que estamos acostumados: trabalho e dinheiro.

A primeira delas é que quem deposita esperanças demais em algo tão fora do controle como uma partida de futebol tem grandes chances de se decepcionar. A vida do torcedor que coloca um time acima do espetáculo é repleta de decepções, pois o espetáculo está sempre lá, mas a vitória não.

A segunda lição é que uma seleção nacional é em certa medida reflexo de seu povo. Quando a seleção brasileira vai bem e quando vai mal temos nossa dose de responsabilidade.

Nossa responsabilidade vem do fato de que o futebol é mais do que uma arte que vemos na televisão. É também um serviço prestado por jogadores e profissionais da área, que passam décadas se desenvolvendo para se apresentarem em altíssimo nível em eventos que duram 90 minutos. Crianças aprendem a jogar desde os 4, 5 anos, pais e avós até alimentam sonhos nessas crianças. Técnicos, preparadores e educadores físicos, médicos estudam uma vida inteira para preparar jogadores para que brilhem numa partida de futebol.

Esses profissionais se aventuram no futebol porque possuem um dom e porque o mercado da bola recompensa com altos ganhos financeiros. E somos nós, como sociedade, que pagamos os salários milionários dos profissionais do futebol. Pagamos esses salários de várias maneiras:

1)      assistindo às partidas pela televisão, pois as emissoras de televisão ganham com as publicidades e propagandas veiculadas durante os jogos, e pagam aos times grandes valores para que tenham o direito de transmitir os jogos.

2)      indo ao estádio e pagando ingressos, que os clubes utilizam para pagar jogadores.

3)      exigindo que nossos clubes contratem bons jogadores para ganhar os campeonatos.

4)      consumindo produtos, como tênis esportivos, de marcas famosas que pagam para ter jogadores de futebol como garotos propaganda.

Se não fizéssemos nada disso, não haveria mercado da bola, não haveria salários milionários, não haveria fiasco tão pouco espetáculo.

Não há dúvida que a sociedade brasileira como um todo deseja ver o espetáculo do futebol no Brasil. Somos apaixonados por isso. Mas resta uma questão: como sociedade, contribuímos para o espetáculo ao invés do fiasco?

O grupo de jogadores e comissão técnica que perdeu para a Alemanha não é vilão, assim como as seleções que ganharam anteriormente não são deuses. São todos reflexos do nosso país. Um país com muito talento, capaz de feitos incríveis como a geração Pelé e 5 títulos mundiais, mas que muitas vezes, por falta de planejamento e preparação, protagoniza esses eventos vulgarmente chamados de “fiascos”.

Se forçarmos a memória, veremos que decepções como a que ocorreu contra a Alemanha na verdade são mais frequentes do que gostaríamos.

Em 1998 perdemos de 3 a 0 para a França na final da Copa. Em 2006 perdemos nas quartas com um time de muito talento mas pouco treino. Agora, em 2014 perdemos por 7 a 1 para a Alemanha, um time sem jogadores candidatos a melhor do mundo, mas um grupo de trabalhadores dedicados. Em todas essas situações ficou a impressão de que podíamos mais, que ficamos muito aquém de nosso potencial. Mesmo que a atual safra de jogadores não seja a melhor dos últimos tempos, podíamos no mínimo ter levado o jogo até o fim, como fizeram Argélia, Gana, França, contra a mesma Alemanha.

Se por um lado sobra talento, por outro muitas vezes falta planejamento e profissionalismo. Por que não treinamos como os alemães? Por que alguns jogadores sucumbiram em momento decisivo? Por que o time alemão parecia uma rocha sólida e unida, enquanto nosso time parecia feito de peças isoladas e egocêntricas? Por que ao longo de todos os jogos da copa não foi raro ver craques do Brasil se olhando no telão dos estádios enquanto jogavam, tentando resolver sozinhos, com cabelos espetaculares e brincos enormes de diamante, que não ajudam em nada o objetivo de jogar bem? Por que isso é algo tão frequente na seleção brasileira?

Os jogadores não são vilões. Eles estão sendo apenas aquilo que nós, como consumidores do futebol, estimulamos.

Quem já conviveu com o ambiente futebolístico no Brasil sabe muito bem: a vida de um jogador de futebol brasileiro desde a adolescência é preenchida com coisas que não beneficiam a sua profissão e dificultam que ele apresente um alto desempenho naqueles 90 minutos, que atinja o máximo que pode atingir. Nossos jogadores estão acima da lei, são reis do camarote, desfilam com cabelos ousados, brincos de diamante e outras coisas que não tem relação alguma com suas profissões. Não apenas permitimos esses comportamentos, como muitas vezes queremos ser iguais.

Nossos jogadores tem prazo de validade curto, duram até os 28 anos de idade, mais ou menos. Foi o que aconteceu, infelizmente, com Ronaldinho Gaúcho e Adriano, dois jogadores inigualáveis para seu tempo. Sem contar os milhares de potenciais craques que mal surgem e já desaparecem. Abandono dos estudos, álcool, drogas, envolvimento frequente com prostituição, infrações da lei, são todos fatos comuns da vida de um boleiro, não de todos, mas da imensa maioria.

Não somos nós mesmos que permitimos isso dando tanto poder para quem apresenta algum talento, sem exigir que antes seja um profissional?

E se tanto quanto valorizar o talento valorizássemos o trabalho do profissional do futebol? Se exigíssemos que os jogadores dos nossos clubes tivessem ficha limpa, que estudassem, que não se envolvessem em escândalos, que não tentassem enganar a arbitragem a todo instante? Se exigíssemos que fossem como nós tentamos ser no dia a dia? Não seria melhor para eles e para todos nós?

O técnico Dunga tentou fazer essas exigências em 2010. Trabalhador aguerrido como é, tentou implantar na seleção a cultura de preparação e trabalho. Cometeu até exageros de severidade, que poderiam ser corrigidos com leves ajustes como maior contato com a imprensa, maior leveza em entrevistas. Mas a seleção de Dunga empilhou títulos durante a preparação para a copa, e performances incríveis, como a goleada de 3 a 0 na Argentina na final da Copa América de 2007. Tudo isso não bastou. Após uma derrota ocasional, vinda de erro individual e compreensível de quem na época era o melhor goleiro do mundo, nós, como sociedade, invalidamos todo o trabalho de Dunga.

Talvez se tivéssemos maior compreensão, veríamos que naquela copa de 2010 sequer havia razão para a tristeza, pois o dever havia sido cumprido. A seleção jogou com muito profissionalismo e fez o melhor que podia, perdendo para outra grande seleção, a da Holanda. Quando internamente sabemos que demos nosso máximo, o que acontece lá fora não deveria importar tanto.

A copa de 2014 também não é motivo para tristeza, mas sim para aprendizado: o futebol é uma excelente oportunidade para evoluirmos como sociedade. Se exigimos de nós no dia a dia uma atitude responsável, dedicada, trabalhadora, podemos estimular a mesma atitude em nossos jogadores. Com uma atitude correta o resultado vem ao natural. Os alemães sabem muito bem disso, eles são os maiores finalistas da história das copas. Esse feito pode parecer surpresa dado que não é um país berço de “melhores do mundo” ou grande como o Brasil,  mas deixa de ser surpresa quando reconhecemos a atitude profissional dos alemães, como ficou mais uma vez provado nessa copa de 2014.

Wilson Marchionatti