Você é fiel? A quem?

A tão cobrada fidelidade pode ser um sacrifício ou um prazer. Tudo depende se você vê essa fidelidade como um objeto material, ou como um jeito autêntico de ser.

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O que é a fidelidade para você?

A palavra fidelidade nos dias de hoje remete a “trair ou não trair”. É fiel aquele que não trai seu companheiro afetivo.

É uma interpretação razoável do sentido original da palavra fiel, do latim fidelis. É fiel quem preserva suas características originais, é infiel quem trai suas características originais.

Como a característica original de uma união afetiva, seja namoro, casamento ou união estável é de reciprocidade e monogamia, quem destoa dessa característica original é um infiel.

Embora seja uma boa interpretação, ela não ajuda muito na felicidade do casal.

O problema está justamente em tornar a fidelidade um contrato frio e sem emoção. Por exemplo: ao entrar em um relacionamento o homem ou a mulher precisam controlar seus sentimentos de atração em relação a outras pessoas. A exigência mais básica é: não se relacionar afetivamente/sexualmente com outras pessoas. Essa exigência pode se expandir para níveis exagerados, como restringir que a pessoa tenha amigos do sexo oposto. “Você está proibido de pensar em outras mulheres (homens)”. É praticamente como mandar alguém não pensar em um elefante rosa. É simplesmente impossível e fica ainda mais tentador.

Mas quando a fidelidade se torna uma exigência, uma condição, ela perde seu valor, e se transforma num mero contrato de benefícios. “Eu sou fiel, desde que você seja fiel também”. Lembre do sentido original: ser fiel é preservar as características originais, entre elas a preferência afetiva e romântica por uma pessoa. Mas uma coisa é preservar essa preferência de forma livre, sem exigências ou ameaças. Outra coisa completamente diferente é manter-se monogâmico com uma arma na cabeça. Essa última forma de fidelidade é o mesmo que utilizar a garantia do carro recém comprado: o prestador de serviço faz por obrigação, sem vontade e todos sabem que mais cedo ou mais tarde o contrato vai acabar.

Ser fiel é algo muito mais livre e profundo do que um contrato.

Ser fiel a qualquer pessoa, seja um amigo, familiar ou parceiro, é aquela atitude solidária que você toma sentindo-se bem, sem nem sequer se importar se aquela pessoa vai fazer o mesmo.

Ser fiel é ficar feliz em ajudar um bom amigo, ou um amigo que falou mal de você. Isso é ser fiel à amizade.

Ser fiel é juntar um lixo do chão, mesmo sabendo que você não pode juntar todos os lixos que existem. Isso é ser fiel à Terra.

Ser fiel é correr com entusiasmo, para depois poder se presentear com um chocolate. Isso é ser fiel ao corpo.

Ser fiel é poder comprar muitos calçados, mas ficar satisfeito em comprar só os que você precisa. Isso é ser fiel ao bolso.

Ser fiel é tomar uma chuvarada com raios esperando ele sair do mar. Ser fiel é entender as manias e vícios dela, e fazê-la rir até durante a TPM. Isso é ser fiel a quem você gosta.

Ser fiel é só querer repetir aquele conhecido beijo, num mundo de bocas oferecidas. É reinventar beijos babados de chocolate, mordidas e provocações de lábios. Isso é ser fiel à comédia romântica da sua própria vida.

Ser fiel é se apaixonar e reconquistar tudo aquilo que você já tem, um dia após o outro.

Se sua fidelidade tem tudo isso, ou quase tudo, é porque a sua fidelidade vale por si só. Você é fiel a si mesmo. Apenas continue sendo feliz.

Wilson Marchionatti