Tristeza é estar sozinho de si

A tristeza sempre traz consigo os sentimentos de solidão, falta, insuficiência.

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Podemos sentir falta de um familiar, de um amor, de um cargo, de um objeto, de um animal. Essa falta nos faz sentir sozinhos, e com isso vem a tristeza.

A reação natural a essa solidão é tentar substituir aquele ser, objeto ou situação por outro que preencha a nossa solidão. Mas isso não é possível, não é assim que nossa constituição física e psicológica funciona.

Imagine um filho que perdeu uma mãe, ou um casal que se separou. O filho lembra da mãe como um símbolo de cuidado, a pessoa com a qual podia contar em qualquer situação. O casal lembra um do outro como parceiros que despertavam o sorriso e atração um do outro.

Em ambos os casos, aquele filho e o casal têm todas as chances de acabar com a solidão e recuperar o que foi perdido, mas não conseguirão se o objetivo for encontrar um substituto.

Isso acontece porque quando nos sentimos sozinhos, como se algo faltasse, não sentimos falta de algo externo a nós. A falta que sentimos é de nós mesmos. O filho sente falta da mãe, porque era por meio dela que ele vivenciava seus próprios sentimentos de afeto e família, ou seja, por meio dela, o filho aprendeu e praticou algumas das maiores virtudes humanas.

O casal não sente falta um do outro, mas sim das atitudes e sentimentos que conseguiam cultivar com o convívio do casal. O homem pode sentir-se sozinho por estar temporariamente impossibilitado de praticar gestos românticos pela mulher que convivia, caso isso seja algo importante no seu caráter. A mulher igualmente pode sentir-se sozinha, porque não tem mais alguém para dar e receber carinho, se isso também for uma atitude importante em sua personalidade.

Não sentimos solidão porque falta algo externo. Sentimo-nos sozinhos de nós mesmos. Sentimos falta de praticar virtudes que alguma pessoa, ser ou coisa motivava em nosso dia-a-dia. Perceber que a falta que sentimos é de algo em nós mesmos, e não de algo externo, é uma diferença muito grande.

Podemos nos sentir sozinhos até estando acompanhados. Por exemplo, uma viagem com amigos que não despertam qualquer virtude em nosso comportamento. Podemos chamar isso de solidão a dois, a três, em grupo.

E podemos nos sentir sozinhos até por termos nos livrado de algo ruim, como um relacionamento tóxico ou um amigo que nos faz mal. Nesse caso, a presença de outra pessoa talvez despertasse em nós comportamentos ruins, verdadeiros vícios, sem os quais nos sentimos sozinhos e até tristes. Submeter-se a esse tipo de companhia significa abandonar a si próprio. É aceitar ficar longamente sozinho de você mesmo. Um caminho muito comum para milhões de pessoas que literalmente desistem da felicidade por casamentos infrutíferos, trabalhos degradantes ou más companhias.

Em todos os casos de solidão, basta perceber que na verdade você está sozinho de si. Basta ver que se algo ou alguém falta na sua vida, você não deve substituí-lo, mas sim continuar praticando as boas atitudes que praticava na companhia desse algo que falta.

Se sua solidão é a perda de um trabalho, trabalhe o dobro.

Se sua solidão é falta de dar flores para a namorada, dê flores para uma amiga, para a vizinha, ou até para uma estranha na rua.

Se sua solidão é não se sentir admirado, descubra formas de ser admirado. E admire-se.

Se sua solidão é falta de carinho, dê carinho.

A verdade é que muitas atitudes que nos fazem feliz, descobrimos por meio de outras pessoas, situações, coisas, as quais passam e não permanecem para sempre em nossas vidas. Disso vem a impressão de solidão, que na verdade surge de algo em nós que deixamos de fazer, e não de algo externo. Mas se você focar em manter as atitudes que despertam o melhor em você, independente do que continua lá fora cercando sua vida, você estará preparado para estar sempre acompanhado de si, e pronto para conectar-se com coisas novas que se reconstroem a todo instante.

Acompanhe-se não de coisas externas, mas do que você faz de melhor. E aguarde a companhia do mundo. É o único seguro contra a solidão.

Wilson Marchionatti