Reencontrando a leveza

Um estilo de vida leve é uma questão de escolha.

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Os seguintes sentimentos acontecem com você?

Sentir que no passado, durante a faculdade, ou na adolescência, você ganhava menos, tinha menos coisas, e se sentia mais estável?

Dar-se conta que tinha menos posses e status, mas era mais livre?

Sentir que tinha menos conquistas, talvez não tivesse um diploma, ou não tivesse casado, mas tinha mais chances para errar?

Esses sentimentos são comuns no amadurecimento. Cada passo dado em vida, uma evolução de salário, de moradia, de relacionamento, gera uma adaptação na forma como vemos nossa realidade. Facilmente nos acostumamos com esses novos estímulos externos, e nos apegamos.

Talvez aqui seja o ponto para você parar de ler esse texto. Pois talvez acredite que a vida é isso mesmo: tem sorte quem consegue obter coisas e segurar elas.

Nesse texto, vamos falar sobre a razão mais compreensiva de porque o comportamento material e apegado é contrário à felicidade. É simples: no apego não há leveza. O apego é pesado, aprisionador, torturante.

Quando evoluímos na vida, comprando um carro, novas roupas, casando, estamos inevitavelmente vinculando nossa autoimagem a objetos. O problema é que passamos a ser dependentes daquele objeto externo, e a simples ideia de perde-lo é suficiente para tirar nossa paz. Se antes conquistar um estilo de vida confortável era uma aventura, agora manter esse estilo de vida tornou-se um problema.

Isso acontece sempre que, a cada passo dado, valorizamos a conquista mais do que as atitudes que são base daquela conquista. É fácil entender isso a partir do conselho dado a pais, de que ao observarem conquistas de seus filhos, digamos boas notas, ensinem-os a valorizar sua personalidade, seu esforço, suas virtudes, e não as notas em si. Por que não temos controle absoluto sobre os resultados das notas, do emprego, das relações, da própria vida. Acostumar-se com a ideia de que sua felicidade depende de manter o que foi conquistado é um passo certeiro rumo à insegurança, frustração e fracasso.

Pare de fazer isso. Você vai se surpreender ao perceber como é gratificante cultivar uma cultura de leveza. Com pequenos esforços, você pode parar de condicionar o seu bem-estar à manutenção do que foi conquistado. Para isso basta começar a reconhecer e valorizar sua própria atitude, ou resgatar uma atitude já não tão praticada. Aquela mesma atitude que conquistou e é capaz de conquistar a cada dia tudo o que você precisa para viver bem. Invista e insista em criar uma visão leve de si mesmo. Invista em leveza.

Quando comprar um carro, roupas, viagens, compre-os com consciência. Eles são resultados da sua atitude. São investimentos em você, prêmios pelo esforço. Mas eles não são você. Se um dia você não conseguir mantê-los, aquela atitude que os gerou ainda estará lá, pronta para criar tudo de novo. Isso é leveza.

Quando comprar um apartamento, faça-o um lar sustentável. Opte por uma moradia que lhe dê bem-estar e que não exija mais recursos financeiros do que o necessário. Não imobilize todo seu dinheiro guardado ou os salários das próximas décadas comprando mais do que você precisa para morar. Isso é leveza.

Separe uma parte do que ganha para construir economias. Elas vão ser necessárias mais cedo ou mais tarde. Não se adapte a um estilo de vida caro demais para ser mantido em situações de crise.

Quando casar, case com alguém que admire a sua personalidade e atitudes, e não suas posses ou títulos. A sua personalidade sempre estará lá, na pobreza, na riqueza, na saúde e na doença. As posses não. E se você não tiver um boa personalidade e atitude, mude-as, mas não compre um relacionamento.

Ande com amigos que vibram com seu jeito, com suas ideias. Conviva com pessoas que estimulem você a ser a melhor versão de si mesmo, e não uma versão medíocre.

Quando evoluir profissionalmente, evolua junto com pessoas e empresas que apostam nas suas virtudes. E sempre mapeie outras oportunidades profissionais onde você possa usar essas virtudes, pois em algum momento isso será necessário.

Não é à toa que surfistas, esportistas, músicos, muitas vezes demonstram uma personalidade tão leve. Eles são experts em valorizar alguns pontos específicos da sua personalidade: o gosto pelo mar, pelo movimento, pela música. São gostos leves, baratos, que podem parecer até banais. Mas para essas pessoas, essas coisas simples são as mais agradáveis da vida.

Cuide da leveza em sua vida o quanto antes. A cada ano que passa, a perda da leveza se torna mais cara e difícil de ser resgatada. O tempo é um recurso escasso e muitas vezes irrecuperável.

Leveza é diferente de felicidade ou infelicidade. Leveza é ser menos apegado, é confiar na própria atitude antes de confiar nas coisas. É como ter 8 anos de idade e sair de férias no verão, aprovado em todas as disciplinas. Não há nada pendente. Nada a ser mantido. Há somente um mundo leve, cheio de oportunidades para serem vividas. E esse é você, talvez falte apenas dar-se espaço e oportunidade para perceber isso.

Wilson Marchionatti