A beleza interior e a felicidade

Você sabia que há um modo sustentável e ilimitado de ter felicidades? E que ele ainda ajuda o bolso? Conheça e aprenda a cultivar a beleza interior.

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Recentemente o músico Mr Catra disse: “Para que serve a beleza interior, se o pinto não tem olho?”

O povo não gostou. Mas por que?

Mr Catra está apenas reagindo ao mundo em que foi criado e vive: um mundo com enormes dificuldades em valorizar a beleza e riqueza interior das pessoas.

Você se considera uma exceção? Então responda: o que é beleza interior?

a.      Uma qualidade invisível.
b.      Desejar a paz mundial.
c.       Ser defensor dos animais.
d.      Querer o mal de quem é mau.

e.      Todas alternativas acima.

Não se sinta confuso. É uma pergunta muito difícil.

O próprio nome “Beleza interior” dificulta muito sua compreensão. Seria mais fácil se, ao invés de usar os termos “beleza exterior e interior” usássemos “beleza competitiva e beleza solidária”.

As belezas que o Mr Catra defende são as belezas competitivas (belezas externas). Essas belezas só existem em comparação a outras: a mulher com o corpo mais bonito (do que a  maioria dos outros corpos); o carro mais caro; a casa mais luxuosa; o camarote mais visível; a conta bancária mais gorda. Note que esse tipo de beleza só existe na hipótese de haver outra coisa similar, mas menos bela.

A beleza que ele diz não importar é a beleza interior, que não sabemos direito o que é, mas que agora vamos definir com precisão cirúrgica, para que a próxima vez que passar na sua frente você saiba reconhecê-la.

Vamos trocar o “beleza interior” por “beleza solidária”. Esse tipo de beleza existe por si só, não tem a necessidade de comparação e embeleza os ambientes em que passa sem tirar nada de ninguém. É a beleza daquela pessoa que faz rir sem que alguém tenha que se sentir mal ou chorar, que prospera sem pisar em outros, que protege quem gosta sem atacar quem não conhece, que não julga antes de conhecer, e depois também não.

Isso é beleza interior, uma beleza que só agrega e nunca diminui.

Não existe lei alguma que nos proíba de gostar mais da beleza exterior do que da beleza interior. Na verdade, a única diferença é que quem opta pelas belezas exteriores vive como em um jogo: sua felicidade depende de ganhar, de ser mais que os outros.

Quem opta pela beleza interior tem pela frente um mundo ilimitado: quanto mais felicidade alheia e belezas (de todos os tipos) puder ver, mais feliz se sentirá. Você não conhece alguém assim? Que por onde anda apenas agrega e nunca divide? Não são pessoas fantásticas?

E se todos fôssemos assim: se só tivéssemos olhos para a beleza interior, como seria o mundo?

Não cultivaríamos amizades canibais, que se alimentam do insucesso alheio, inclusive do nosso (quando estamos ausentes).

Trabalharíamos concentrados em fazer um bom trabalho, e não em ganhar dinheiro. Por incrível que pareça, ao fazer isso nos tornaríamos excepcionais, a exemplo de grandes magnatas como Steve Jobs, Steve Wozniak, Bill Gates, Silvio Santos, entre tantos outros entusiastas dos próprios trabalhos.

Não gastaríamos tudo o que temos (e também o que não temos) tentando comprar coisas para sermos admirados e nos sentirmos importantes.

Ignoraríamos quem tenta nos impressionar somente com belezas exteriores, como carros e restaurantes luxuosos. Por que faríamos isso? Porque saberíamos que essas pessoas nos veem como mais uma beleza exterior a ser conquistada, e em questão de meses passaríamos de desafio irresistível à conquista ultrapassada.  Ao invés disso, nos apaixonaríamos por quem nos faz rir até de chinelos, e que hoje ou daqui a 50 anos será incapaz de faltar com a verdade, mesmo que para isso tenha que sair de nossas vidas.

Jamais desejaríamos que um filho servisse para cumprir nossas vontades antes das dele próprio, sejam profissionais, de orientação sexual, futebolística ou o que for.

Se só tivéssemos olhos para a beleza interior viveríamos como pessoas iluminadas, que só somam, e nunca diminuem, e que por onde passam vibram com a felicidade alheia como se fosse sua própria.

Pequenos atos diários podem despertar em nós nossa beleza interior:

1)      entrar no elevador e tentar imaginar os pensamentos que inquietam as mentes dos outros. Na maioria das vezes são os mesmos pensamentos que temos. Partilhamos muito mais semelhanças do que diferenças.

2)      compreender o mau-humor daquele familiar ranzinza, ou a má-vontade daquele colega de trabalho. É surpreendente como a má-vontade se desarma quando simplesmente não resistimos a ela.

3)      perguntar um “tudo bem” interessado a quem vemos ao longo do dia.

4)      oferecer sua ajuda, não por educação, mas para tentar sentir a felicidade e gratidão das outras pessoas;

5)      conversar com interesse no que outro tem a dizer, e não somente despejar coisas que você fez, faz e pensa sobre tudo.

Essa atitude solidária é similar a que Dale Carnegie descreve no célebre livro de vendas “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. Incrivelmente, bons vendedores são pessoas que tem empatia por outros, ou seja, que conseguem ver o mundo pelos olhos de outras pessoas e sintonizar com elas. Carnegie chega a dizer que em certo momento da vida decidiu que teria como objetivo constante motivar um sorriso ou sensação boa em cada pessoa que conversasse.

Mas tome cuidado para não transformar essa atitude em uma “beleza exterior”, ou seja, agir assim simplesmente para obter conquistas. O grande segredo, como diz Carnegie, é agir assim de maneira autêntica e verdadeira. O segredo é ter a satisfação do outro como finalidade. Isso é beleza interior, uma maneira sustentável e ilimitada de ter felicidades, e que podemos aprender a cultivar.

E o que seria de Mr Catra se só tivesse olhos para a beleza interna? Provavelmente usaria seu dom musical e artístico também para outras finalidades, que lhe fariam ainda mais feliz.

E assim lembramos de Bob Marley e John Lennon. Pessoas que devido a sua capacidade de agregar, cada vez que tocam no rádio nos levam para o paraíso por alguns minutos.

Wilson Marchionatti