Gamecoins: entenda como funcionam os criptoativos oriundos de jogos

As criptomoedas de games em blockchain podem ser trocadas por dinheiro. Neste guia, explicamos tudo sobre esses ativos digitais

gamecoin

Se você curtia videogames na década de 90, provavelmente já deve ter sonhado em ganhar dinheiro jogando. No início dos anos 2000, o e-sport (competições de jogos virtuais) provou que era possível transformar esse desejo em realidade, e atuar profissionalmente como um gamer. Atualmente, existe uma outra maneira, por meio do mercado de criptoativos, as gamecoins.

Mais recentemente, os jogos em blockchain expandiram a ideia, e mostraram que players amadores também podem ganhar dinheiro de verdade caçando monstros ou batalhando em mundos virtuais fictícios.

Neste guia, o InfoMoney explica o que são as gamecoins, as valiosas moedas que movimentam a economia dos games do mercado cripto, e podem ser trocadas por reais e dólares.

O que são gamecoins

As gamecoins são criptomoedas de jogos criados em blockchains. O termo vem da junção das palavras em inglês game (jogo) e coin (moeda).

Assim como ocorre em games tradicionais – Zelda, Mario, Crash e outros clássicos –, as gamecoins são dadas aos players que completam tarefas ou ganham batalhas. Dentro do ambiente virtual, eles podem usá-las para comprar itens ou melhorar a performance dos personagens.

Mas a semelhança com os jogos comuns para por aí.

Ao contrário das moedas dos jogos comuns, as gamecoins ultrapassam a barreira da realidade virtual e têm função no mundo real. Elas valem dinheiro, são usadas para negociações entre os gamers fora do jogo e podem valorizar com o tempo. Em 2021, por exemplo, era comum ver o AXS, token do famoso game play-to-earn (jogue para ganhar) Axie Infinity, disparar 20% e até 40% em um único dia.

A transposição do ambiente digital para o físico só é possível por causa da blockchain. Essa tecnologia, que teve seu primeiro caso de uso com o Bitcoin (BTC), deu às empresas desenvolvedoras de games a possibilidade de transformar itens, personagens e moedas virtuais em propriedades, com registros únicos e imutáveis.

Como funcionam as gamecoins

As gamecoins normalmente são criptomoedas ou tokens não fungíveis (NFTs), tipos específicos de criptoativos (ativos virtuais protegidos por criptografia). Elas funcionam da seguinte forma:

As criptomoedas são como moedas fiduciárias – real, dólar, euro etc. Portanto, assim como dinheiro emitido por governos, elas servem como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor – tanto dentro do game como fora dele.

Já as gamecoins em formato de NFTs representam itens exclusivos, como avatares, roupas, equipamentos, terrenos e casas. Esses tokens não fungíveis, diferente das criptomoedas e das moedas fiduciárias, não podem ser trocados por semelhantes. Eles são objetos virtuais únicos, como um quadro ou uma música.

Todas as gamecoins são play-to-earn?

Os jogos em blockchain bombaram por causa do play-to-earn. Nos games com esse formato, também chamados de GameFi, os gamers completam missões e batalhas, recebem recompensas e conseguem monetizá-las no mundo real.

Normalmente, as gamecoins são play-to-earn. No entanto, existem outros formatos que também podem render criptos e dinheiro aos usuários. Confira abaixo.

Move-to-earn

Nos games “mova-se para ganhar”, os jogadores precisam se conectar e praticar algum esporte para levar criptomoedas como recompensa. Um dos jogos mais conhecidos é o STEPN, e sua gamecoin é a Green Metaverse Token (GMT). Entre março e abril de 2022, a GMT chegou a disparar 2.000%.

Learn-to-earn

A modalidade learn-to-earn (aprenda para ganhar”) não está necessariamente ligada a games em blockchain. No entanto, essa categoria envolve jogos de perguntas e respostas (quiz), e paga criptomoedas. No geral, essas iniciativas são oferecidas por corretoras, como Binance e Coinbase, em seus sites. Elas pedem para os usuários aprenderem sobre determinado ativo digital, via vídeos e questionários, e, em troca, dão recompensas em cripto.

Sex-to-earn

Em junho de 2022, a revista Vice publicou uma matéria sobre uma suposta startup chamada Sexn.finance, que promete pagar criptomoeda para quem faz sexo. No entanto, o projeto “faça sexo para ganhar”, na tradução livre, é extremamente suspeito. O white paper (manual) é vago e não há informações sobre os responsáveis pela iniciativa, o que acende o sinal vermelho. Entretanto, visto que há projetos cripto que pagam por exercício físico, não é difícil uma gamecoin nesse estilo realmente ganhar corpo nos próximos anos.

Como ganhar dinheiro com gamecoins

Cada jogo em blockchain adota um modelo próprio de economia. No geral, no entanto, os jogadores ganham gamecoins ao realizar tarefas e ganhar batalhas travadas com outros players. Para transformar o ativo em dinheiro, é só vendê-lo em uma exchange e convertê-lo em moeda convencional.

Staking

O staking é um método de renda passiva. Em resumo, o usuário bloqueia suas gamecoins na plataforma para ajudar na liquidez e na segurança. Em troca, recebe recompensas. Alguns games têm essa funcionalidade.

Empréstimo

Outra forma de ganhar dinheiro com gamecoins é via empréstimos. No game Axie Infinity, por exemplo, é preciso comprar axies – personagens parecidos com Pokémons – para jogar. Usuários com grande quantidade de axies, que na prática são NFTs, podem alugá-los para outros players, e cobrar por isso.

HODL

Uma das estratégias de investimento é comprar um ativo e mantê-lo por um longo tempo. No setor cripto, essa tática é chamada de “hodl”, uma referência a palavra hold (manter, em inglês). Também é possível seguir por esse caminho com gamecoins, visto que elas podem valorizar (ou não) ao longo de meses e anos.

Especulação

Os detentores de tokens de games também podem ganhar dinheiro ao negociar seus ativos em exchanges de criptomoedas. Se a moeda digital valorizar e for vendida por um preço superior ao da compra, pronto, aí está o lucro. Sempre bom lembrar, no entanto, que o mercado cripto é extremamente volátil, e não existe garantia de ganho.

Mercado secundário

Algumas gamecoins são NFTs e podem ser vendidas em marketplaces de tokens não fungíveis. O preço é escolhido pelo próprio vendedor. Algumas das principais plataformas são OpenSea, Rabible e Super Rare. Exchanges centralizadas, como Coinbase e Binance, também têm seus mercados próprios de NFTs.

O pagamento vem em dinheiro, criptos ou nfts?

Nos games, os jogadores geralmente recebem em criptomoedas e NFTs. Depois, para trocar os ativos digitais por dinheiro, é preciso vendê-los em corretoras de criptomoedas. No caso dos NFTs, há os marketplaces.

As gamecoins precisam ser mineradas?

A mineração é o nome dado ao processo de emissão de novas criptomoedas. No Bitcoin, por exemplo, os mineradores disputam entre si para resolver cálculos complexos para validar transações dos usuários. Aquele que tem êxito recebe novos ativos digitais como recompensa.

No caso das gamecoins, o processo de “fabricação” de tokens não é exatamente uma mineração. Em resumo, os gamers precisam cumprir missões ou vencer disputas para extrair e coletar tokens, que servem como moeda no ecossistema do game.

Vamos pegar o play-to-earn Bomb Crypto, lançado em 2021, como exemplo. No game, semelhante ao Bomberman – famoso jogo na década de 90 –, os usuários precisam explodir baús para coletar BCOIN, a criptomoeda nativa da plataforma.

Em janeiro de 2022, com uma equipe de 15 personagens era possível coletar 1,51 BCOIN por dia, segundo o “bombcryptosimulator”, simulador no qual é possível estimar os ganhos no game.

Importante lembrar que muitos games em blockchain exigem que os jogadores comprem avatares para poder jogar e coletar moedas. O time com 15 personagens citado no parágrafo acima, por exemplo, custava R$ 810 naquele mês. No auge do play-to-earn Axie Infinity, um axie custava R$ 1.500.

É possível comprar gamecoins em corretoras?

Sim, é possível comprar gamecoins em corretoras de criptomoedas. O procedimento é bem simples: basta fazer o cadastro na plataforma, aguardar aprovação, transferir reais e adquirir o ativo digital.

As exchanges normalmente não cobram por depósitos de moeda convencional. No entanto, geralmente há taxas para compras de criptomoedas, saques e transações.

As plataformas brasileiras ou com operação no Brasil disponibilizam em seus books de ofertas os principais criptoativos de games. Axie Infinity (AXS), Smooth Love Potion (SLP), The Sandbox (SAND) e Decentraland (MANA) são alguns exemplos.

A Binance negocia gamecoins?

A Binance, maior exchange do mundo em volume negociado, também tem gamecoins. Entre as corretoras, é aquela com o cardápio mais completo de ativos digitais de jogos em blockchain. Alguns dos criptoativos encontrados são MANA, AXS, SLP, GMT, GALA, SAND e outras.

Assim como em outras exchanges com operação no Brasil, na Binance é possível comprar criptomoedas com a moeda brasileira. A corretora também permite o uso de cartão de crédito para aquisição de ativos digitais.

Principais gamecoins

Em julho de 2022, havia quase 1.800 games de blockchain listados no rastreador de dados DappRadar. Confira abaixo os tokens dos principais títulos.

AXS

AXS é o token nativo do Axie Infinity, game que ajudou a popularizar o modelo play-to-earn. Baseado na rede Ethereum, é uma cripto de governança – ou seja, os detentores têm o direito de participar de decisões no ambiente virtual, além de adquirir itens ou vendê-los no mercado externo. Entre janeiro e novembro de 2021, o AXS deu um salto de 29.000%, passando de US$ 0,54 para US$ 160. Com o esfriamento do mercado em 2022, o token devolveu parte dos ganhos, mas ainda é uma das principais gamecoins do setor. O Axie Infinity foi criado em 2018 pela empresa Sky Mavis.

MANA

MANA é o token nativo do Decentraland, um game de metaverso construído na blockchain Ethereum. A organização por trás do projeto foi criada em 2015. Assim como no caso do AXS, os jogadores detentores da gamecoin podem usá-la para comprar e vender itens dentro do ambiente do jogo, como fantasias e avatares.

Quando foi lançado, o game tinha diversos terrenos virtuais, em forma de NFTs, que foram vendidos em leilões. Existe, no entanto, um mercado secundário em que é possível negociar esses espaços digitais. Em 2021, um único pedaço de terra virtual foi vendido por US$ 2,4 milhões.

SAND

Outro game metaverso de destaque é o The Sand Box, semelhante ao Decentraland. Também baseado no Ethereum, o jogo permite aos usuários construir casas e ter uma vida social online. Há terrenos, chamados de LAND, que são tokens não fungíveis e valem um bom dinheiro. Sua gamecoin nativa é a SAND, um token utilitário que pode ser usado para comprar equipamentos e personalizar avatares. Enquanto estão dentro do universo virtual, os usuários também podem ganhar criptoativos.

ILV

O Illuvium é um GameFi 3D de fantasia. Lançado no início de 2022, permite que os jogadores batalhem e coletem criaturas estranhas em formato de NFTs. São sete cenários diferentes. O ILV é o token nativo da plataforma, pago como recompensa aos players que têm êxito em suas conquistas. Ele também serve como ativo de governança, e dá aos detentores o direito de participar de votações.

GALA

GALA é a gamecoin do ecossistema Gala Games, uma plataforma que desenvolve jogos play-to-earn em blockchain. A cripto pode ser usada como meio de troca em todos os jogos criados pelo projeto – alguns dos mais conhecidos são o Town Star, uma simulação de agricultura, e o Echoes of Empire. Assim como as outros criptoativos de game, a GALA também tem função fora do ambiente virtual, e pode ser trocada por dinheiro em corretoras.

Crescimento do setor

O setor de games em blockchain está bombando. Só em 2021, segundo a empresa de investimentos Drake Star Partners, cerca de US$ 3,6 bilhões foram destinados para startups de jogos do setor cripto. Para Jhoniker Braulio, CEO da First Phoenix Studio, esses games chamam a atenção porque conseguem juntar o mundo gamer e o mundo financeiro, atraindo um público enorme:

“Com a tecnologia blockchain, os jogadores passaram a ser donos de seus próprios ativos, seja um personagem, arma etc. Acredito que esse movimento de migração dos jogos para a blockchain está apenas começando. E a perspectiva é que isso só aumente, pois o mercado de jogos de blockchain está passando por uma grande evolução, para criar bases mais fortes e escalabilidade.”

Ainda segundo Braulio, o Brasil também vem mostrando um interesse grande por esse mercado. “Somos um dos países com o maior número de jogadores do mundo. Estamos atrás apenas dos Estados Unidos, que possuem uma renda per capita maior, e da China, que ganha em população”, falou.

E aqui vai um alerta. Como no mercado há muitas opções de jogos, e alguns exigem a compra de avatares, é preciso analisar com cuidado os projetos para não cair em furada e perder dinheiro.

“É importante fazer uma análise mais aprofundada do projeto, buscar informações sobre as pessoas que estão por trás do desenvolvimento, estudar o white paper, analisar as redes sociais, verificar a quantidade de ativos, analisar o tokenomics (economia do token do jogo) e os principais parceiros”, disse Braulio.