O desafio de se adaptar e fazer do incontrolável uma oportunidade

A palavra-chave a bordo é adaptabilidade. Nada adianta ter o plano perfeito se ele não pode ser adaptado para a realidade vivida

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Reprodução/Facebook/@voiceoftheoceans

Quando nasci, meu destino já estava traçado. Eu viveria, faria parte… seria uma pessoa dos oceanos! O primeiro passo foi dado pelos meus pais e ainda muito jovem assumi essa condição com muita naturalidade. Nasci numa família que já planejava trocar a terra firme por uma vida a bordo e, aos 7 anos, o veleiro tornou-se meu lar. Ou seja, os mares do planeta passaram a ser minha moradia, escola, lazer e início de uma carreira bem-sucedida no esporte.

Cresci com a sensação de liberdade do balanço das águas e do vento na face, mas com bastante disciplina e, acima de tudo, serenidade e adaptabilidade aos desafios que a vida a bordo exige. Se águas calmas não fazem bons marinheiros, acredito que as “tempestades” enfrentadas em 37 anos de navegações nos prepararam muito bem para sonhar e realizar tão audaciosa missão: a Voz dos Oceanos.

Em dezembro de 2016, quando retornamos ao Brasil concluindo nossa terceira volta ao mundo, a Expedição Oriente, já tínhamos definido que a nossa próxima aventura deveria deixar um legado para o nosso planeta, uma iniciativa do Brasil para o mundo. Eu, um ser dos oceanos, naturalmente vi coerência no propósito de tentar salvar nosso Planeta Água.

Testemunhamos a degradação das nossas águas e víamos com preocupação o grande pulmão do mundo sendo sufocado pela invasão de resíduos, principalmente, de plásticos de uso único. Então, para nós, essa era – e é – uma causa pessoal e familiar. Decidida a missão, partimos para o planejamento e preparação da Voz dos Oceanos. Mas essa expedição veio com desafios até então inimagináveis…

Nosso plano original era zarpar no segundo semestre de 2020. Mas o ano começou com a Mãe Natureza nos alertando que o surpreendente estava reservado. Como sempre, nos organizamos e nos preparamos. Em janeiro, partimos com uma breve e tranquila expedição no extremo sul, na região da Georgia do Sul e Falkland Islands / Ilhas Malvinas, para então retornar ao Brasil, preparar o veleiro Kat e, no segundo semestre, partir com a Voz dos Oceanos. Mas quem disse que podemos controlar tudo acontece? Para começar, a navegação até Falkland foi a mais tensa e desafiadora de todas que tive em quase quatro décadas a bordo.

Fomos castigados com tempestades com mais de 86 nós (cerca de 159 km/h) e ondas violentas de mais de 8 metros que danificaram o veleiro. Salvos, fizemos os ajustes necessários e conseguimos realizar nossa aventura nos extremos sul do Atlântico. Agora o foco era no retorno ao Brasil para os preparativos e início da nossa Voz dos Oceanos. Porém, o incontrolável nos surpreendeu – como aconteceu em todo o mundo. O coronavírus chegou!

Tempestades, furacões, vulcões em erupção, tsunamis… a Natureza sempre mostrou sua força e soberania, apresentando desafios em diferentes intensidades, enfrentados e superados com união, serenidade e agilidade. Porém uma pandemia como a do coronavírus era algo inédito, inimaginável. Isolados a bordo, em Falkland/Malvinas, eu, minha companheira Erika e meu pai Vilfredo nos adaptamos àquela realidade e, mesmo distantes da minha mãe Heloisa e do meu irmão David, começamos a nos reorganizar.

Cientes do momento, adiamos por, pelo menos, um ano, o início da nossa expedição Voz dos Oceanos. Assim ganhamos tempo para regressar ao Brasil com segurança, encontrar e ampliar os primeiros parceiros para a nossa missão (Natura Kaiak, Corona, Faber-Castell e Sabesp), formar nossa tripulação etc. Protocolos de saúde e segurança passaram a fazer parte da nossa rotina e planejamento. Com a virada do ano 2020 – 2021, veio a grande reforma do veleiro Kat, que eu tinha participado ativamente de sua construção seis anos antes.

Nossa embarcação já tinha sido concebida com inovações e soluções sustentáveis. Agora, passava por melhorias que a deixaria ainda melhor e mais forte. O primeiro semestre foi de intensos trabalhos, possibilitando que a Voz dos Oceanos finalmente começasse em 29 de agosto, quando içamos as velas do veleiro Kat e zarpamos de Balneário Camboriú, em Santa Catarina. Mais uma vez, a Mãe Natureza dava sinais de que nada aconteceria do 100% como planejado. Nosso Brasil tropical, ensolarado, se apresentava cinza e chuvoso. Até aí, tudo bem. Apenas um ajuste de tom. Porém, esse clima parecia anunciar mais desafios.

Apesar de toda revisão e melhorias implantadas nos primeiros sete meses do ano, imprevistos entraram na rota do veleiro Kat. Passamos por um grande susto navegando de Abrolhos para Salvador. O fuzil do mastro, uma peça que segura o estaiamento de proa, ou seja, segura literalmente todo o mastro de 30 metros para cima, foi danificado. Com muita habilidade, experiência e sorte, chegamos em Salvador sem que o nosso mastro se perdesse no mar.

Nosso cuidado com a redundância de ter construído nossa embarcação com dois desses fuzis de proa não evitou a avaria, mas impediu que o problema se tornasse muito maior. Diante daquele desafio, improvisamos e fizemos um reparo temporário, capaz de segurar o mastro e possibilitar nossa chegada segura a Salvador, onde permanecemos por mais tempo que o planejado originalmente. A missão de reparar os danos também não foi simples. Uma embarcação do porte do veleiro Kat (80 pés), usa peças que não são encontradas em qualquer loja ou cidade. Muitas são produzidas especialmente para ele, como as catracas, feitas na Austrália. Por isso, as coisas são mais complexas em termos de materiais e manutenções.

Em Salvador, fizemos uma série de reparos, trouxemos uma equipe de Porto Alegre para consertar o mastro até partirmos para Recife. Pegamos um contravento, navegando com ondulação de proa a um ângulo de 45 graus com o veleiro batendo muito e… novas avarias. Até nossos pilotos automáticos “bugaram” somando-se a outros reparos necessários. Mas esses desafios fazem parte de toda expedição. A manutenção de uma embarcação é mil vezes mais complexa que uma casa, demanda atenção e tranquilidade para que tudo esteja ou fique em ordem para seguir adiante com segurança. Mas, paralelamente aos danos e consequentes reparos, a pandemia segue sendo uma preocupação e, diante da variante Ômicron, a gente volta a ajustar nossas velas.

Estamos em Fernando de Noronha, que deveria ser nossa última parada em território nacional. Mas, às vezes, mudanças são necessárias até mesmo para preservarmos a integridade de todos a bordo, assim como de nossos parceiros. Diante de um novo desafio do coronavírus, decidimos minimizar ainda mais os riscos e transformar esse momento em uma oportunidade de ampliar nossa rota nacional, valorizando ainda mais o Nordeste e incluindo o Norte do País em nossa jornada. Ou seja, o desafio motivou uma adaptação que nos leva a contemplar toda a costa litorânea do Brasil.

Essa é a lição que aprendi com meus pais e em 37 anos de navegações. Os oceanos nos ensinam a ter persistência, planejamento e, acima de tudo, serenidade e jogo de cintura diante de imprevistos e desafios. A palavra-chave a bordo é adaptabilidade. Nada adianta ter o plano perfeito se ele não pode ser adaptado para a realidade vivida. Está na hora de montar a lista de Resoluções de Ano Novo e embarcar em 2022 prontos para eventuais adaptações e, principalmente, uma navegação feliz e com ótimos ventos!

Wilhelm Schurmann

Skipper da Voz dos Oceanos

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