Investimentos responsáveis: agir hoje para não se remoer amanhã

Ainda que muitas práticas devastadoras para o planeta ainda sejam legais e firam a moral de apenas uma parcela da população, cabe perguntar: até quando?

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Em 2005, William Harrison, principal executivo do banco JP Morgan, enviou uma carta a todos os seus funcionários: “Devemos desculpas à comunidade afro-americana, especialmente àqueles que são descendentes de escravos, extensiva a todos os americanos, pelas atitudes do Citizen´s Bank e do Canal Bank. O período da escravidão é trágico na história americana e na história da nossa companhia”.

Harrison se referia a duas subsidiárias do JP Morgan que, no século XIX, admitiam escravos como colaterais de empréstimos feitos por fazendeiros.

Infelizmente, este não foi um caso isolado. A CSX, uma das maiores e mais renomadas empresas de transporte ferroviário dos EUA, usou trabalho escravo para construir parte de sua linha férrea.

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O envolvimento corporativo com práticas repugnantes não corresponde a fatos de um passado tão distante.

Um dos primeiros contratos relevantes da Hugo Boss foi o fornecimento de uniformes aos oficiais nazistas, movimento que contava com a simpatia do fundador da companhia.

Mesmo a Siemens, até hoje um dos maiores conglomerados industriais do mundo, lucrou pesadamente com o nazismo, empregando milhares de judeus, ciganos e outros prisioneiros de campos de concentração em suas plantas fabris.

Mais recentemente, nas zonas mais conflituosas da África Ocidental e Central, diamantes eram extraídos das zonas de guerra civil por meio de trabalho semiescravo. As pedras preciosas financiaram grupos insurgentes responsáveis por centenas de assassinatos, situação retratada no filme “Diamantes de Sangue”, com Leonardo DiCaprio.

Várias marcas globalmente famosas comercializavam esses “diamantes de sangue”. Em 2002, foi estabelecido o “Processo de Kimberly”, cujo objetivo é certificar a origem dos diamantes e conter abusos aos direitos humanos ligados à extração das pedras.

As práticas acima descritas eram aceitas por muitos como “normais”. Mas, apesar da contestação e da consternação de alguns, a grande maioria das pessoas aceitava, silenciava ou, até mesmo, adotava esses métodos no exercício regular de suas atividades.

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Até porque, em muitos casos, elas estavam amparadas pela lei vigente: a escravidão era permitida nos EUA até a promulgação da 13ª emenda, em 1865, tal qual a Lei de Nuremberg de 1935, amparava a discriminação das minorias dentro do sistema legal do nazismo.

É necessário entender que o que é legal não necessariamente é moral. E, mais importante, talvez o que seja normalmente aceito hoje seja motivo de vergonha no futuro. Muito provavelmente, o sr. Harrison do JP Morgan concorda com isso.

Curiosamente, no dia em que escrevo este artigo, sou impactado por duas notícias de temas totalmente distintos, mas que se assemelham por sua absurdez.

A primeira notícia diz que duas das maiores e mais tradicionais empresas britânicas pediram desculpas publicamente por suas relações com o comércio de escravos e se comprometeram a fazer grandes doações a instituições de caridade e ONGs que trabalham pela igualdade: uma delas é a seguradora Lloyd´s de Londres e a outra, a cadeia de pubs Greene King. A escravidão foi banida no Reino Unido em 1833.

A segunda notícia é sobre a cidade de Verkhoiansk, situada na Sibéria, bem perto do Círculo Polar Ártico. Com uma população de 1.434 pessoas, ela é uma das menores cidades da Rússia.

Verkhoiansk é conhecida por ser uma das cidades mais geladas do planeta: a temperatura média da cidade em janeiro é de 50 graus negativos – em 1892, o termômetro chegou a registrar 70 graus negativos.

Pois bem, no exato momento em que escrevo este artigo, faz 38 graus positivos em Verkhoiansk – a temperatura mais elevada da história ao norte do círculo polar ártico. Temperatura esta que deve chamar a atenção até dos menos curiosos ou familiarizados com a alteração climática.

Nos dias de hoje, é pouco provável que companhias que utilizaram trabalho escravo, simpatizaram com o nazismo ou financiaram guerras civis sejam atraentes aos investidores. Isso mesmo que, no momento em que tais companhias adotavam essas práticas, não houvesse resistência dos investidores, uma vez que as empresas estavam amparadas pela lei e moral vigentes.

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É muito provável que poucos anos após o fim da escravidão, a derrota do nazismo e a adoção do “Processo de Kimberley”, os investidores que indiretamente financiaram tais companhias tenham reconsiderado com desgosto seu portfólio de investimentos, tendo que lidar com seus respectivos remorsos.

Furto-me a adotar qualquer escala de valores, mas há de se considerar a alteração climática como assunto sério e urgente.

Ainda que desmatar, poluir, descuidar de emissões de gases de efeito estufa – práticas diretamente ligadas à mudança climática, e que são devastadoras para o planeta e a vida na Terra – sejam, em muitos casos, legais e que firam a moral de apenas uma parcela da população, cabe perguntar: até quando?

Há uma chance, não desprezível, de que gestores de empresas, no futuro próximo, precisem se desculpar por suas práticas e de que investidores tenham que lidar com seus remorsos.

Vale a reflexão hoje, para não ser tarde demais amanhã.

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Fabio Alperowitch

Co-fundador e portfolio manager da FAMA Investimentos, gestora independente que se dedica à gestão de uma carteira de empresas listadas na Bolsa brasileira. É formado em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), com cursos de extensão na Universidade da Califórnia (Berkeley) e na Harvard Kennedy School. Iniciou sua carreira na Procter & Gamble e fundou a Fama em 1993.