Gestão passiva

ETF AGRI11 é boa opção para investir no agronegócio? Carteira tem Arezzo, Ambev e até supermercados

Analistas apontam que pulverização é desafio; confira ativos considerados questionáveis

Por  Katherine Rivas -

O primeiro ETF (fundo de índice) do agronegócio estreou recentemente na B3. Negociado sob o código AGRI11, ele replica a composição do também recém-criado IAGRO – índice de ações da cadeia do agronegócio que já nasceu provocando curiosidade pelos ativos que inclui.

Entre as 32 ações da carteira teórica do IAGRO estão papéis de empresas que atuam direta e indiretamente no setor. Os ativos com maior participação, na composição válida para esta terça-feira (31), são Suzano (7,93%), JBS (6,825%), Klabin (6,42%), Cosan (6,29%) e BRF (6,13%).

Porém, também constam entre os papéis alguns aparentemente desconectados do agronegócio. É o caso da Arezzo, do setor calçadista, da fabricante de bebidas Ambev, da empresa de locação de equipamentos Armac e até de um conjunto de supermercados e atacadistas, como Assaí, Pão de Açúcar, Carrefour e Grupo Mateus.

O ETF AGRI11 replica esta cesta de ativos, sob a gestão do BB DTVM, com uma taxa de administração de 0,35% ao ano, considerada acessível em comparação com outros fundos de índices listados na B3.

Se o plano for investir no agronegócio, faz sentido comprar cotas do AGRI11? O InfoMoney consultou analistas a respeito, dado o nível de diversificação da carteira. Confira a opinião dos especialistas:

Cesta diversificada ou pulverizada?

Felipe Paletta, analista e sócio-fundador da Monett, esclarece que é importante que o investidor diferencie os conceitos de agronegócio e agricultura. Embora tenha sua imagem ligada à das commodities agrícolas, o agronegócio envolve empresas de outros ramos que participam da criação de valor no segmento – entre elas as de logística e maquinaria, por exemplo.

A carteira do índice IAGRO classifica as ações em quatro subsetores: primário, insumos, agroindústria e agrosserviços. E as empresas do setor primário – que envolve agricultura, pecuária, floresta e pesca – recebem maior peso na composição da cesta, de quatro pontos.

Em contrapartida, o setor de agrosserviços – que inclui empresas de transporte, logística do agronegócio, comércio de veículos, máquinas ou armazenamento – ganham um ponto na classificação.

Por conta dessa metodologia, a carteira IAGRO – replicada pelo ETF AGRI11 – inclui empresas como Arezzo (ARZZ3) e Ambev (ABEV3) na cesta de ativos. A Arezzo é classificada como agroindústria, por conta da produção têxtil de base natural – os sapatos, afinal, são feitos de couro. A Ambev, fabricante de bebidas, também entrou como agroindústria.

Analistas consultados pelo InfoMoney consideram “desconexa” – em alguns casos, uma “forçação de barra” – a presença de certas companhias no índice, por não estarem necessariamente envolvidas no setor de agronegócio ou por terem uma representatividade baixa do segmento nas suas receitas.

Paletta cita como exemplos Arezzo, Ambev e Dexco (DXCO3) – esta última, embora tenha uma pequena participação no segmento de celulose, não possui o agronegócio como parte relevante das atividades. Para o analista, a inclusão de supermercados ou atacados – como Assai (ASAI3), Pão de Açúcar (PCAR3), Grupo Mateus (GMAT3) e Carrefour (CRFB3) – seria “forçação de barra”.

Vinicius Steniski, analista do TC Matrix, concorda que o produto final da Arezzo – sapatos e moda – está distante do agronegócio. Da mesma forma, ressalta que a Armac (ARML3), empresa de locação de equipamentos, até pode fornecer máquinas para o setor, mas essa não é uma atividade específica da companhia. Nem mesmo os supermercados, em sua visão, têm uma ligação direta com o setor, embora sejam os intermediários entre a produção agrícola e o consumidor final.

Já para Fabricio Gonçalvez, CEO da Box Asset Management, a diversificação do ETF não é problemática. “O índice acerta quando divide os 32 ativos por pesos de participação. O fato de colocarem os setores primários como mais relevantes contribui para maior credibilidade do ETF”, destaca. Na sua visão, como a cesta inclui até varejistas, poderia contar também com empresas como JSL (JSLG3), Log-In (LOGN3) e Ecorodovias (ECOR3).

Vale a pena investir no agronegócio?

Na visão dos analistas, o momento é bom para o agronegócio. Em 2021, o setor alcançou uma participação de 27,4% no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, a maior desde 2004, segundo dados da Cepea/CNA – e segue em expansão.

Segundo Gonçalvez, com a alta nos preços das commodities no mercado externo, agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia, a possibilidade de “boom” no setor em 2022 existe. A demanda consistente por alimentos favoreceria a produção e os preços.

Paletta destaca que o investimento no setor na última década foi baixo, movimento que deve se reverter conforme as economias se recuperem. “Isso beneficia o agronegócio. Com a estabilização dos juros, o setor deve ter uma recuperação generalizada”, diz. Para ele, empresas com exposição industrial e a commodities podem ser favorecidas.

Para alguns analistas, o AGRI11 pode ser uma forma de capturar os ganhos desse cenário. Paletta avalia que, embora algumas ações não estejam diretamente ligadas ao setor, o ETF têm uma diversificação “interessante”. “Temos uma exposição de até 25% em empresas que não estão envolvidas com o agronegócio, mas 70% com envolvimento direto na indústria. Para o pequeno investidor, que não consegue diversificar em todas as teses, pode ser uma alternativa”, avalia.

O analista diz que o AGRI11 proporciona exposição elevada a três áreas do agronegócio: papel e celulose, com ações como Suzano (SUZB3), Klabin (KLBN11) e Irani (RANI3); açúcar, com São Martinho (SMTO3), Cosan (CSAN3) e Jalles Machado (JALL3); e proteína animal, com JBS (JBSS3), BRF (BRFS3), Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3). Logística também tem uma participação importante no ETF, com empresas como a Rumo (RAIL3).

A vantagem é ter acesso a uma cesta de ações com uma aplicação inicial baixa, na comparação com os fundos de gestão ativa – cada cota do ETF era negociada por cerca de R$ 52 nesta terça-feira.

Mas a carteira do AGRI11 não convence todo mundo. “Acredito que a forma com que definiram os critérios de seleção das empresas foi errada”, aponta Steniski, do TC Matrix. Para ele, a cesta de ativos do índice e do ETF não é diversificada – e, sim, pulverizada. Enquanto a diversificação ajuda a diminuir o risco de um portfólio, o excesso de empresas em uma carteira gera o risco de o investidor não surfar todo o potencial de ganho de um segmento. Por isso, na visão do analista, o AGRI11 não é a melhor forma de se expor ao agronegócio.

Outra desvantagem, em sua visão, está na taxa de administração. “A taxa de 0,35% não está entre as maiores, mas é algo negativo para uma estratégia sem objetivo claro e definido”, aponta Steniski.

A carteira do índice IAGRO tem vigência de quatro meses e é rebalanceada ao fim de cada período (janeiro a abril, maio a agosto e setembro a dezembro).

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As melhores do setor, na visão dos analistas

Para quem busca uma exposição mais focada no agronegócio, os analistas recomendam ações específicas. Paletta, da Monett, acredita no potencial de empresas como Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11). Ele sugere ainda as ações de Brasil Agro (AGRO3) e SLC Agrícola (SLCE3), que atuam com commodities como soja e algodão. O analista também afirma que Vamos (VAMO3) e Armac (ARML3) são ativos no segmento industrial que hoje estão descontados.

Para Steniski, do TC Matrix, empresas como 3Tentos (TTEN3), Boa Safra (SOJA3), Kepler Weber (KEPL3) e Brasil Agro são as que efetivamente representam o agronegócio. O analista também recomenda a Vittia Fertilizantes (VITT3).

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Confira as ações incluídas na carteira do índice IAGRO e do ETF AGRI11:

TickerEmpresaPeso no índice (%)
SUZB3Suzano7,933%
JBSS3JBS6,825%
KLBN11Klabin6,418%
CSAN3Cosan6,293%
BRFS3BRF6,134%
ABEV3Ambev5,951%
RAIL3Rumo5,098%
SMTO3São Martinho4,046%
SLCE3SLC Agrícola3,787%
BEEF3Minerva3,414%
ASAI3Assaí3,32%
MRFG3Marfrig3,004%
DXCO3Dexco2,809%
RANI3Irani2,809%
RAIZ4Raizen2,775%
JALL3Jalles Machado2,753%
CAML3Camil2,737%
TTEN33TENTOS2,724%
AGRO3Brasilagro2,663%
SOJA3Boa Safra2,634%
CRFB3Carrefour2,275%
ARZZ3Arezzo2,175%
MDIA3M.DiasBranco1,77%
VAMO3Vamos1,509%
PCAR3Pão de Açúcar1,313%
HBSA3Hidrovias do Brasil1,11%
GMAT3Grupo Mateus1,074%
KEPL3Kepler Weber1,044%
ARML3Armac1,026%
TUPY3Tupy0,983%
RAPT4Randon0,968%
RCSL3Recrusul0,626%

Fonte: B3. Dados de 31/05/22.

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