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Ações de estatais superam desempenho do Ibovespa em 2022; quais os riscos de investir em ano eleitoral?

Para analistas, maiores incertezas estão na Petrobras, dadas as possibilidades de interferência na política de preços de combustíveis

Por  Katherine Rivas -

O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, amarga queda de quase 5% em 2022. Um grupo específico de empresas, entretanto, tem destoado da média e chamado a atenção em meio às incertezas do cenário eleitoral. São ações de empresas estatais – um dos investimentos mais rentáveis da Bolsa no ano.

Individualmente, algumas estatais se sobressaem, mas mesmo uma cesta de ativos agregados tem batido o Ibovespa com folga. O Índice Bolsa Estatais, calculado pela Teva Índices, acumula alta de 11,5% no ano, até o fechamento desta terça-feira (28). O principal índice de ações da B3, por sua vez, registra queda de 4,04% no mesmo período.

O índice de estatais da Teva reúne 18 ações de empresas brasileiras com controle ou influência estatal. Entram na conta desde as clássicas, como Banco do Brasil (BBAS3), Petrobras (PETR3;PETR4) ou Sabesp (SBSP3), até algumas que já passaram por processos de desestatização – como a recém-privatizada Eletrobras (ELET3;[ELET6), a Embraer (EMBR3) e até o IRB (IRBR3).

Gabriel Verea, CEO da Teva Índices, esclareceu ao InfoMoney que a presença de Embraer e IRB Brasil no índice se justifica porque as empresas têm “golden shares” em nome da União, um mecanismo que garante poder de veto sobre a transferência de controle acionário da companhia. Já a Eletrobras deve deixar o índice no próximo rebalanceamento, em julho. A nova carteira passa a vigorar no dia 4.

Embora não estejam no topo de rentabilidade entre as ações que compõem o índice Bovespa, algumas das estatais chegam perto desta posição. Segundo levantamento da Comdinheiro para o InfoMoney, a maior parte delas tinha avanços de dois dígitos acumulados no ano, com a Eletrobras liderando o ranking: suas ações preferenciais (ELET6) e ordinárias (ELET3) subiram, respectivamente, 43,90% e 38,92% em 2022.

A Eletrobras concluiu seu processo de desestatização há cerca de duas semanas, mas o governo manteve uma participação acionária na companhia de 30,41%. O objetivo do governo, segundo declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes, é de vender mais papeis e reduzir a presença da União no capital da elétrica a 10%.

Além de Eletrobras, outros papéis de estatais que estão no topo do ranking são BB Seguridade (BBSE3), com alta de 27,50%, e Petrobras (PETR3), subindo 22,39%.

Engana-se quem imagina que o retorno elevado das estatais neste ano é um ponto fora da curva. Observando o retorno total das ações, considerando a valorização dos papéis e a distribuição de dividendos, oito empresas estatais superaram o desempenho do Ibovespa nos últimos cinco anos. Veja a lista completa na tabela:

EmpresaTickerRetorno em 2022Retorno nos últimos cinco anos
EletrobrasELET643,90%245,28%
EletrobrasELET338,92%340,82%
BB SeguridadeBBSE327,50%34,13%
PetrobrasPETR322,39%267,01%
Banco do BrasilBBAS321,73%65,82%
Petrobras PETR421,40%275,71%
CopelCPLE618,64%344,23%
CopelCPLE1117,50%
CemigCMIG313,35%250,94%
CemigCMIG412,47%174,10%
SabespSBSP37,03%53,73%
BanrisulBRSR62,65%5,87%
SaneparSAPR40,01%39,19%
SaneparSAPR11-0,06%—-
CopasaCSMG3-4,25%38,69%
Caixa SeguridadeCXSE3-12,72%
IRB BrasilIRBR3-45,27%
EmbraerEMBR3-51,29%-18,71%
Ibovespa-4,04%61,62%
IPCA5,48%33,57%
 CDI5,30%32,63%

Fonte: Comdinheiro. Dados até o fechamento de 28/06/2022. O retorno em 5 anos considera o período iniciado em 29/06/2017. Algumas companhias ( —) não estavam listadas na época.

Uma simulação exemplifica melhor o retorno que investidores teriam se tivessem aplicado nas ações das estatais. Um investimento de R$ 100 em ações da Petrobras e da Eletrobras cinco anos atrás teria mais do que triplicado, considerando o retorno total das ações. No caso da Petrobras, o investimento de R$ 100 teria se transformado em R$ 346,09. Já na Eletrobras, seria de R$ 329,42. O Banco do Brasil entregou um retorno menor. Veja os detalhes abaixo:

Os números chamam a atenção de investidores. Mas dadas as altas já verificadas, a volatilidade dos mercados nos últimos meses e a proximidade das eleições, vale a pena encarar o risco de investir nas companhias pertencentes ou fortemente influenciadas por entes públicos?

Para especialistas consultados pelo InfoMoney, há tanto pontos de atenção quanto de oportunidades. Entre as empresas com participação da União, a Petrobras é vista como a que pode trazer surpresas negativas no curto e médio prazo. Já a Eletrobras é vista pelos analistas com perspectivas positivas, diante de seu status atual de empresa desestatizada. A expectativa também é otimista para o Banco do Brasil, graças aos juros elevados e aos fundamentos da instituição financeira. Longe da esfera federal, os destaques ficam com as empresas de energia elétrica e saneamento.

Na Petrobras, ataques ao PPI são um risco

Entre as três maiores empresas com participação do governo (Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobras), a que apresenta um risco considerado maior, para 2022 e o próximo ano, é a Petrobras.

O pano de fundo é a política de preços da estatal. Atualmente, a empresa segue o Preço de Paridade de Importação (PPI) para definir os reajustes da gasolina e do óleo diesel. Com o petróleo em alta no exterior, situação agravada desde o início da guerra entre Ucrânia e Rússia, o custo para encher o tanque por aqui também aumentou. Isso desagrada os dois principais candidatos à eleição presidencial deste ano:  o presidente Jair Bolsonaro (PL), que tem tido sua popularidade afetada pela inflação, e o ex-presidente Lula, que chegou a dizer que os preços elevados dos combustíveis poderiam ser resolvidos com “uma canetada” do presidente.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, afirma que a política de preços da Petrobras pode estar com os dias contados. Segundo Cruz, tanto Lula quanto Bolsonaro atacam o PPI com frequência. “Por isso, acredito que a Petrobras atingiu o topo dos resultados e, a partir de 2023, deve voltar a um patamar semelhante ao do governo Dilma Rousseff”, avalia.

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As constantes trocas de presidentes das estatais fizeram com que a Levante Investimentos as retirasse da carteira em 2021. O posicionamento foi renovado em 2022, conforme se intensificaram as possibilidades de Lula vencer o pleito, diz Flavio Conde, head de renda variável da casa.

Conde afirma que, embora a Petrobras seja uma das petrolíferas mais baratas do mundo – atualmente ela tem um preço sobre lucro (P/L) de 2,3 vezes, enquanto pares internacionais, como a Exxon Mobil, apresentam um indicador de 14 vezes –, declarações do candidato “deixaram claro um cenário desfavorável para o acionista da Petrobras”, com chances de que a companhia apresente resultados piores no futuro.

A visão de Conde se fundamenta em dois aspectos. O primeiro são declarações de Lula de que o lucro da Petrobras deveria ser destinado ao investimento em refinarias, no lugar de distribuído como dividendos. Segundo dados da Economatica, a Petrobras deve ser a maior pagadora de proventos em 2022, com um dividend yield de 40,06% (no caso das ações preferenciais) e de 39,36% (nas ordinárias), bem acima da taxa básica de juros, de 13,25% ao ano atualmente.

O segundo risco, segundo Conde, seria a tentativa de “abrasileirar” a definição dos preços dos combustíveis. “Isso não é um devaneio do mercado. Já aconteceu no governo de Dilma Rousseff [2011 a 2016], quando o preço do petróleo subia no exterior e no Brasil ficava travado, o que trouxe prejuízos para a Petrobras”, diz Conde. O presidente Bolsonaro também tem defendido uma “nova dinâmica” de preços para os combustíveis.

Aparentemente, boa parte desse risco já está embutido no preço da ação, destaca Conde. No dia 28 de junho, uma ação PETR4 era cotada a R$ 28,33. “Se não fosse o risco Lula e os reiterados discursos de Bolsonaro e Arthur Lira [presidente da Câmara], as ações da Petrobras facilmente já estariam em R$ 40”, afirma.

Na contramão, Leonardo Rufino, sócio e gestor da Mantaro Capital, que tem posição em Petrobras e Eletrobras em seus fundos de investimento, acredita que essa visão de risco é exagerada e que o desconto da Petrobras não pode ser ignorado.

“O noticiário ruim envolvendo a Petrobras está gerando ações extremamente baratas”, diz, ressaltando que seria difícil perder muito dinheiro com as ações, a não ser que o próximo governo seja “uma desgraça”. “Não vemos este cenário”, afirma. Para o gestor, mesmo que em um eventual governo Lula os acionistas da Petrobras não sejam colocados como prioridade, seria preciso uma destruição de valor muito grande para o investimento não render. “Aos preços do petróleo de hoje, a Petrobras gera quase metade do valor dela em caixa por ano”, afirma.

A companhia também reduziu dívidas, vendeu ativos não essenciais e se destacou na produção e exploração do pré-sal. “Provavelmente a Petrobras é a ação mais barata da Bolsa. Se não vier nada terrivelmente destrutivo, ela tende a valorizar”, defende o gestor da Mantaro Capital. Quanto aos dividendos, se não houver mudanças na política de remuneração, ele enxerga que a Petrobras poderia se tornar a maior pagadora de dividendos no próximo governo.

Eletrobras ainda tem preço de estatal

Na análise de risco e retorno, as empresas que apresentam um cenário mais confortável são Eletrobras e Banco do Brasil, segundo os especialistas consultados pelo InfoMoney. Para eles, após a desestatização, a Eletrobras conseguiu se livrar de boa parte do risco de interferência política.

Segundo Rufino, da Mantaro Capital, embora tenha deixado de ser uma estatal pura, a empresa ainda tem preço de estatal, o que representaria uma oportunidade para os investidores.

Com uma nova gestão privada, a expectativa é de que a companhia siga os caminhos de outras empresas elétricas privatizadas no passado. Rufino lembra, por exemplo, da Engie, antiga Gerasul, privatizada no final dos anos 1990, e da Cesp, hoje Auren. “A história vai se repetir com a Eletrobras, com espaço para ganhos enormes. Nossa estimativa é de um retorno real de 15%”, destaca.

A Eletrobras também deve voltar a participar de leilões de transmissão de forma ativa, por conta dos recursos captados na desestatização, o que seria muito favorável para o investidor, afirma Gustavo Cruz, da RB Investimentos.

Os riscos da companhia são tidos como baixos. Analistas consideram bastante improvável o cenário de reversão do processo de desestatização, já aventado na disputa eleitoral. Outra possibilidade seria uma intervenção de um próximo governo, por meio da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), nas tarifas de geração de energia elétrica, segundo Conde.

Se o parâmetro for dividendos, entretanto, as projeções para Eletrobras não são muito generosas. Cálculos da Levante estimam um dividend yield de 1,67% para as ações ELET3 em 2022 e de 3,47% para as ações ELET6. Na plataforma AGF+, a projeção de dividendo por ação para este ano está em R$ 0,69 para ELET3 e R$ 0,914 para ELET6.

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Banco do Brasil surfa bem em governos distintos

Na análise de risco e rentabilidade, o Banco do Brasil se encontra no meio do caminho. Os especialistas elogiam a gestão, fundamentos e resultados do banco e destacam que a instituição é um dos maiores pagadores de proventos do setor em 2022. A análise geral é de que o banco conseguiu surfar bem em governos de direita e de esquerda, embora pese o histórico.

Leonardo Rufino, da Mantaro Capital, lembra de períodos em que o Banco do Brasil ofereceu crédito subsidiado para alguns segmentos, o que gerou resultados ruins para a instituição financeira. “No programa apresentado pelo candidato Lula, é mencionada a utilização de bancos públicos para subsidiar ou apoiar determinados setores. Muitas vezes, isso compromete os resultados de um banco”, complementa Cruz, da RB Investimentos.

Outro ponto de atenção, segundo Rufino, é o de que em um setor altamente competitivo, como o bancário, ser estatal dificulta lidar com a concorrência e em ser ágil na criação de novas linhas de negócio. Na visão dos analistas, é possível encontrar outras opções interessantes no segmento, embora as cotações de Banco do Brasil sejam consideradas atraentes em relação aos pares e o papel deva pagar bons dividendos – em parte em decorrência da Selic elevada. A carteira de crédito da instituição, com exposição ao agronegócio, também é vista como mais resiliente em comparação com instituições focadas no crédito à pessoa física.

Para os investidores com foco em renda passiva, é interessante a recorrência da distribuição de proventos do Banco do Brasil. Segundo levantamento do InfoMoney, o banco realiza no mínimo seis pagamentos por ano aos acionistas. Em alguns casos, chegou a distribuir dividendos oito vezes em um ano.

Para 2022, a expectativa é de que o Banco do Brasil apresente o maior yield entre os bancos. A Levante projeta um retorno em dividendos de 9,42%. Na cotação de R$ 33,25, a projeção do AGF+ é de um dividend yield de 10,65% e de dividendos por ação de R$ 3,54 neste ano.

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Companhias públicas estaduais chamam atenção

Para além das empresas com participação da União, há companhias pertencentes aos estados no radar dos analistas.

A Cemig (CMIG4), companhia energética de Minas Gerais, é a preferência de Fabrício Gonçalvez, CEO da Box Asset Management, que destaca a companhia como um ativo a ser estudado. “A Cemig tem um preço sobre lucro [P/L] de 4,92 vezes, descontado frente aos pares, e vem reestruturando a sua gestão nos últimos anos”, aponta. Segundo Gonçalves, o lucro líquido da Cemig saiu de R$ 1,70 bilhão em 2018 para R$ 3,75 bilhões em 2021.

A Cemig também deve entregar dividendos elevados neste ano, com um dividend yield na ordem dos 9,46%, segundo cálculos da Levante.

Quando o assunto são dividendos e crescimento, Enrico Cozzolino, também analista da Levante, destaca a Copel (CPLE6) – empresa híbrida do estado de Paraná que atua na distribuição, geração e transmissão de energia – e deve entregar um dividend yield de 16,88% em 2022 e de 10,10% em 2023, segundo suas projeções.

“A  empresa é uma boa pagadora de dividendos e apresenta potencial de crescimento. Está descontada e se encontra em um bom momento de compra”, afirma o analista. O preço-alvo da Levante é de R$ 8,00 para os papéis CPLE6.

A Levante também vê oportunidade em BB Seguridade (BBSE3), uma seguradora que deve pagar bons proventos com a Selic elevada. A projeção da casa é de um retorno em dividendos de 5,85% para 2022. Na plataforma AGF+, a projeção é de um dividendo por ação de R$ 2,08 para este ano.

No setor de saneamento, Luiz Carlos Corrêa, sócio da Nexgen Capital, cita a Sabesp (empresa do segmento pertencente ao Estado de São Paulo) como um ativo para o investidor ficar de olho. Embora a apresente um preço sobre lucro (P/L) de 10,34 vezes – acima do P/L de 4,63 vezes verificado na Sanepar (SAPR4), que atua no mesmo segmento no Paraná –, Corrêa considera que os papéis estão descontados, dadas as chances de que a Sabesp seja privatizada – uma possibilidade já aventada (e depois desmentida) pelo governo paulista. As projeções dos analistas para o dividend yield da Sabesp em 2022 são de 2,25%.

Para Conde, da Levante, a desestatização da Eletrobras mostra que o modelo pode ser repetido com sucesso em estatais de menor porte. Na visão dele, as que teriam mais chances de repetir esta história seriam Cemig e Copasa.

Confira o dividend yield projetado para as principais empresas com controle ou influência estatal:

AçãoDividend yield projetado para 2022 
Banco do Brasil BBAS39,42%
Petrobras PETR443,81%
Petrobras PETR339,84%
Sabesp SBSP32,25%
BB Seguridade BBSE35,85%
Cemig CMIG49,46%
Eletrobras ELET31,67%
Copel CPLE1116,84%
Embraer EMBR30,00%
Eletrobras ELET63,47%
Cemig CMIG36,46%
Caixa Seguridade CXSE37,67%
IRB Brasil IRBR30,00%
Sanepar SAPR116,13%
Copasa CSMG35,66%
Banrisul BRSR612,96%
Copel CPLE616,88%
Sanepar SAPR46,27%

Fonte: Levante Investimentos

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