Análise

Troca de comando, ruído político, petróleo nas alturas: como ficam os dividendos da Petrobras (PETR4)?

Ação vinha sendo indicada para estratégias focadas em proventos; confira o que dizem os analistas sobre a manutenção dos pagamentos no futuro

Por  Katherine Rivas -

A Petrobras (PETR4; PETR3) tumultuou os mercados na terça-feira (24) com o anúncio da demissão de José Mauro Ferreira Coelho da presidência da estatal, após 40 dias no cargo. Caio Mário Paes de Andrade, que ocupava o cargo de secretário da Desburocratização, no Ministério da Economia, foi indicado para seu lugar.

Não bastasse o ruído político, também teve efeito nos papéis o ajuste das cotações à distribuição de dividendos que será realizada pela estatal. Esta segunda-feira (23) foi “Data Com” na Petrobras, data limite para ter as ações em carteira e fazer jus ao pagamento de R$ 3,72 por ação preferencial e ordinária.

Só quem tinha posição no papel na segunda receberá a remuneração, anunciada no início deste mês. Os pagamentos acontecerão em duas parcelas: a primeira em 20 de junho e a segunda, em 20 de julho.

Os papéis preferenciais (PETR4) terminaram o dia com queda de 2,92%, enquanto os ordinários (PETR3) recuaram 2,85%. A demora na atualização do ajuste pelos dividendos em algumas plataformas assustou investidores – em certos momentos do dia, elas chegaram a marcar um recuo de 14% nas ações da estatal.

Fábio Sobreira, analista da Ivest, explica que embora as ações PETR4 tenham fechado aos R$ 36,20 na segunda-feira (23), se descontado o dividendo de R$ 3,72 o valor ajustado seria, na verdade, de R$ 32,48.

O movimento não foi uma exclusividade do caso da Petrobras. O ajuste ocorre sempre que uma companhia distribui dividendos, na Data Com. No dia seguinte à Data Com – chamado de “Data Ex” – as ações são negociadas sem o direito de receber aqueles proventos.

É comum ver investidores ávidos por ações em torno de sua Data Com, especialmente quando os dividendos agendados são grandes – como neste caso da Petrobras, que, a preços de segunda-feira, pagará proventos equivalentes a 10,24% da sua cotação na Bolsa. A lógica é entrar nos papéis e abocanhar uma parte da distribuição. Outra possibilidade é adquirir as ações na Data Ex, quando eles são considerados “mais baratos”.

Segundo os especialistas, porém, há que se avaliar se existem benefícios nessa estratégia. Para Sobreira, da Ivest, não existe nenhuma vantagem em comprar ou vender uma ação na data com, exatamente porque a partir do dia seguinte a ação passará a ser negociada com os devidos ajustes.

Sobreira explica que o preço de uma ação reflete também seu caixa atual, além de sua capacidade de geração de caixa no futuro – ou seu enterprise value. “Não é somente o valor de mercado”, destaca.

No caso da Petrobras, segundo o analista, a empresa tinha um caixa de cerca de R$ 80 bilhões e optou por distribuir R$ 48,5 bilhões em dividendos. Quando fizer os pagamentos, seu caixa, naturalmente, diminuirá – consequentemente, o valor de sua ação também vai mudar, e para baixo.

Assim, mesmo que na Data Ex os preços estejam menores, não significa que a ação ficou mais barata, e, sim, apenas com preços ajustados. Por esse motivo, segundo Sobreira, a estratégia de comprar na Data Com ou na Data Ex não faria sentido.

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Para alguns, nada muda no front

A Petrobras vem sendo recomendada como uma ação interessante para investidores focados em estratégias de dividendos. Mas os efeitos dos ruídos políticos sobre os papéis, como os de terça-feira, não são raros. O receio, no momento, é de que a troca no comando seja só o primeiro passo para, em breve, uma mudança na política de preços de combustíveis da estatal.

Para alguns, a pressão sobre os papéis está abrindo a oportunidade para adquiri-los a um bom preço e assegurar proventos polpudos para os próximos anos. Será mesmo?

Ilan Arbetman, analista responsável pela carteira de dividendos da corretora Ativa, considera que PETR4 continuará a ser uma boa pagadora de dividendos em 2022, entregando um dividend yield (taxa de retorno com dividendos) de 20,4% neste ano, com preço-alvo de R$ 32,50 – desde que o dólar permaneça perto de R$ 5 e o preço do barril de petróleo Brent fique no intervalo de entre US$ 100 e US$ 120.

“Nossa maior preocupação é para além de 2022, mas a curto prazo vejo que a companhia deve manter a intenção de distribuir dividendos trimestralmente e não será abalada pelo risco político”, destaca Arbetman.

Embora a rotatividade da gestão não ajude, o analista lembra que desde a sua criação, em 1953, a Petrobras já teve 40 CEOs. “Não vamos classificar a rotatividade como normal, mas a companhia já está acostumada com as trocas”, diz Arbetman. Segundo o analista, a depender do resultado das eleições, novas trocas podem ocorrer – uma possibilidade, segundo ele, já embutida no preço da ação, atualmente mais barata até que pares russos, como a Rosneft.

Na visão de Arbetman, o que poderia de fato afetar geração de caixa e os dividendos da Petrobras seria um descasamento com os preços do petróleo internacional, que abalariam a saúde financeira da empresa.

Ele cita que a Petrobras tem atualmente um custo de extração no pré-sal – que já representa mais de 70% do seu mix de produtos – abaixo de US$ 5 por barril. “A Petrobras também está aumentando a utilização das refinarias. Se ficar tudo como está atualmente, com o petróleo no patamar de US$ 100, o uso máximo do parque de refino e a exploração no pré-sal, a empresa segue com condições de gerar caixa e pagar dividendos fortes”, destaca.

Contudo, essa previsibilidade ainda não é clara para 2023, onde a companhia deve estar exposta a outros fatores. A Ativa ainda recomenda a compra do papel para uma estratégia de dividendos, apesar do risco político. A projeção da casa é de um dividend yield de 20,4% em 2022, com preço-alvo de R$ 32,50.

Outra que mantém a recomendação para Petrobras com foco em dividendos é a Guide Investimentos. Segundo o analista Rodrigo Crespi, a volatilidade nas ações deve continuar até as eleições. “A probabilidade de vermos mais ruídos de origem política deve seguir alta”, comenta.

O risco de os dividendos serem afetados é remoto, desde que a política do PPI (preço de paridade de importação) seja mantido. Eventuais mudanças que criassem uma defasagem no valores praticados pela estatal reduziriam o lucro e sua capacidade de pagar dividendos.

A proximidade das eleições, segundo Crespi, pode dar lugar a novas interferências na empresa, embora isso não pressione os dividendos. “Em virtude do cenário de curto prazo mais incerto, eu apenas manteria os papéis, até entendermos melhor como se dará o comando da estatal”, aponta.

Mas considerando o desconto da ação, que negocia abaixo dos pares internacionais, PETR4 ainda integra a carteira de dividendos da casa, com preço-alvo de R$ 40 e retorno em dividendos estimado em 25% neste ano.

Relatório da XP destaca que a mudança de CEO na Petrobras é negativa, mas não deve gerar mudanças na política de preços. A projeção é de dividend yield de 24% para 2022 e preço-alvo de R$ 47,80 para as ações PETR3 e PETR4.

Para outros, o dividendo não compensa

Embora os dividendos continuem grandes, alguns analistas não se sentem confortáveis em recomendar Petrobras, porque consideram que o risco político não compensa o esforço.

“Acho que o risco político é alto demais e, a depender dos desdobramentos do próximo ciclo eleitoral, o investidor que busca o dividendo pode acabar incorrendo em perda do capital principal”, diz o analista Ricardo Schweitzer.

Segundo Schweitzer, não é a volatilidade das ações da Petrobras que prejudica o investidor de longo prazo, e, sim, a dificuldade de investir para o longo prazo quando as mudanças na gestão da empresa são frequentes.

O analista afirma que este é o grande problema de investir em estatais. “A cada quatro anos, o sócio controlador pode mudar. E esse novo controlador não necessariamente tem interesse de manter o trabalho conduzido no período anterior. Pior ainda, pode não estar interessado em remunerar o capital dos acionistas”.

Sobreira, da Ivest, também não gosta muito da ideia de ter a Petrobras em uma estratégia de dividendos, apesar dos proventos elevados. O ruído político muitas vezes é mais importante do que o balanço, diz.

Ele explica que geralmente fatores macroeconômicos, como guerras, eleições acabam pesando no preço das ações. Mas na Petrobras, o efeito é ainda maior. “Para dividendos prefiro ativos como a Cosan (CSAN3), com números melhores e sem todo esse agito político na cotação”, destaca. “A ação deveria estar valendo o dobro do que custa hoje”, afirma, calculando o preço justo da PETR4 em R$ 70.

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