América Latina e o dilema entre a reabertura ou a manutenção do isolamento

Embora tenha a vantagem de conhecer a experiência europeia, a verdade é que a América Latina não possui as mesmas possibilidades de resposta

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covid-19 coronavírus máscara
(Getty Images)

por Tomas Arias*

A chegada do coronavírus na América Latina não apenas representou uma ameaça à saúde, mas também se tornou um grande problema que põe em xeque o desenvolvimento econômico e social da região.

Embora tenha a vantagem de conhecer a experiência europeia sobre como enfrentar a pandemia, a verdade é que a América Latina não possui as mesmas possibilidades econômicas para responder ao problema.

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Esta situação está se tornando evidente com o passar das semanas. As tensões entre aqueles que pedem a recuperação da atividade econômica e os que consideram que as condições ainda não permitem isso aumentam cada vez mais. Sendo assim, as decisões dos governos de cada país se encontram em momento da mais alta pressão.

Grupo chave neste dilema são os mais vulneráveis, frequentemente os mais expostos à pandemia, mas também às consequências econômicas e trabalhistas que se tornam evidentes nos países da região.

As possibilidades de abertura ou não estão vinculadas a questões ou indicadores factuais, mas cada caso é diferente e o caminho que cada país deve seguir depende de seu contexto político nacional.

A abordagem que a Argentina, que enfrenta uma reestruturação da dívida soberana há meses, pode adotar, não é a mesma do Chile, onde uma forte mobilização social ocorre desde 2019 e há um plebiscito sobe a redação de uma nova Constituição no calendário eleitoral ainda este ano.

Eis um resumo sobre cada país:

ARGENTINA
O caso argentino é um dos mais complicados da região em matéria econômica. A OCDE estima que o Produto Interno Bruto (PIB) do país cairá até 10% este ano no caso de um segundo surto de coronavírus e 8,2% se não houver uma nova onda da pandemia. É a pior previsão da organização para um país latino-americano.

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Apesar de grande parte do território reativar 70% de suas atividades produtivas, o passar das semanas acentua as vozes daqueles que, na política e na opinião pública, pedem reabertura na cidade de Buenos Aires e sua área metropolitana.

Um dos principais articuladores desse movimento é Luis Betnaza, diretor do grupo Techint – que possui duas grandes indústrias metalúrgicas na província de Buenos Aires – e relata que uma de suas fábricas está 100% fechada devido à quarentena.

Ao mesmo tempo, o setor de pequenas atividades ou serviços, o setor gastronômico e de bares também pedem soluções, já que – embora operem em quase todo o país – em Buenos Aires ainda não conseguem abrir.

No momento, a estratégia do governo nacional é de manutenção de um percentual próximo à totalidade das atividades econômico-produtivas em todo o país, enquanto a região crítica – Área Metropolitana de Buenos Aires – permanece em quarentena, embora atividades essenciais estejam em andamento.

CHILE
No caso chileno, o relatório da OCDE indica que, em um cenário de segunda onda, a economia cairia 7%, obtendo perspectivas positivas apenas em 2021. Mas, se o segundo surto fosse evitado, o PIB cairia 5,6%. É importante esclarecer que essa previsão faz parte de um panorama complexo, onde não apenas se considera a pandemia, mas também tensões domésticas que se arrastam desde o ano passado com os protestos sociais e a queda nos preços das matérias-primas exportadas pelo país.

Neste cenário, embora a resposta do governo à pandemia tenha levado à melhoria da aprovação do presidente Sebastián Piñera, com o passar do tempo colocou em risco a capacidade de resposta à saúde do país.

Quanto à recuperação econômica, o governo chileno anunciou – juntamente com as principais forças da oposição – um acordo para criar um fundo especial de US$ 12 bilhões destinados a revitalizar a economia e ajudar as famílias mais atingidas pelo coronavírus.

Levando em conta a estrutura de saúde do país, especialistas médicos e até o novo ministro da saúde, Enrique Paris, propõem confinamento completo para a capital do país, Santiago. De fato, é um caso contrário à Argentina, pois, embora o presidente Sebastián Piñera tenha apostado em uma estratégia de quarentenas dinâmicas para manter a atividade produtiva, o contexto atual o leva a priorizar a saúde sobre a economia.

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Esse cenário significaria um fim à atividade de muitas empresas localizadas em Santiago, que sem dúvida gerarão mais pressão. No caso chileno, os atores que se manifestam contra o governo são aqueles que pedem medidas que possam proporcionar segurança à saúde e medidas sociais para os afetados pela pandemia.

COLÔMBIA
Apesar de a pandemia na Colômbia parecer ter melhorado imagem presidencial de Iván Duque, que se encontrava desgastada, as tensões sociais estão ressurgindo, com foco nas medidas tomadas pelo governo em relação ao Covid-19

Note-se que a economia colombiana está entrando em profunda recessão devido às medidas de contenção adotadas para frear a doença, à contração global, aos baixos preços do petróleo e às condições financeiras “difíceis”. Nesse contexto, segundo a OCDE, um novo surto elevaria a queda do PIB para 7,9% em 2020, enquanto, sem segunda onda, a economia colombiana contrairia 6,1%.

Além do dilema de recuperação econômica, o governo enfrenta um desafio político, que tem a ver com a manutenção da governança do atual presidente.

Em março, surgiram vozes em defesa da necessidade de se reativar a economia em um marco de sustentabilidade e “sem deixar ninguém para trás”, tal como expressou o vice-presidente sindical da Central Geral de Trabalhadores, Jorge Vélez.

Simultaneamente, a Associação Nacional de Empresários Colombianos (Andi), a Corporação Ventures e a iniciativa Colômbia Cuida Colômbia estão caminhando para um programa chamado “Reativar Colômbia”, através do qual buscarão identificar e financiar projetos com potencial para reanimar atividade em uma ampla gama de setores.

Além das restrições mantidas em grandes centros urbanos como Bogotá, onde o nível de infecção ainda é alto, que o país caminha direção a uma abertura geral da economia, até analisando a reabertura de setores não essenciais, como o futebol profissional.

MÉXICO
A OCDE afirma que a pandemia levará o país a uma grave recessão em 2020. Mesmo se a doença for controlada, a instituição estima que a economia contrairá 7,5% no ano, com uma recuperação a partir do segundo semestre liderada por exportações e consumo. Em caso de uma segunda onda, o organismo espera uma contração do PIB mexicano de 8,6%.

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Vale notar que o país caminha desde o 1º de junho, para a abertura gradual das atividades econômicas, que é realizada em relação ao nível infecções e à capacidade sanitária de resposta por região.

Apesar de estar passando pelo pico de contágio no plano nacional, o país caminha para reabertura, com restrições sendo aplicadas por região. Nesse contexto, o presidente Andrés Manuel López Obrador apresentou recentemente um decálogo para sair da pandemia e enfrentar a nova normalidade, na qual pediu aos cidadãos que o fizessem “de forma independente, com bom juízo e com responsabilidade”.

Quanto ao retorno das atividades produtivas, embora o México tenha sido um dos países que menos diminuiu sua produção, o grande debate atual tem a ver com a indústria do turismo, que ocupa um papel muito importante no Produto Interno Bruto (PIB) do país e que ainda não está ativada. Nesse sentido, os principais representantes do setor exigem algum mecanismo de reabertura que lhes permita retornar às suas atividades econômicas.

Ao mesmo tempo, aqueles que já conseguiram retomar suas atividades, como comerciantes, pedem apoio financeiro ao Estado.

PERU
Apesar de o presidente Vizcarra apostar em um plano econômico para conter o coronavírus no país, através do qual se destina 12% do PIB, atualmente o nível de infecção não foi controlado e as consequências são visíveis. O Banco Mundial (BM) prevê que o PIB do Peru cairá 12% em 2020, resultado que contrasta com o cálculo da mesma instituição de crescimento de 3,2% em janeiro passado, antes da crise.

Em função dos resultados inesperados, as relações entre a política peruana viram novo desgaste, principalmente em relação às primeiras tensões entre o Legislativo e o Executivo sobre medidas ou questões em que os dois setores diferem, como a coleta de pensões privadas e suspensão da cobrança de pedágio.

Embora as consequências econômicas sejam perceptíveis no país, parece que o Peru atualmente não é capaz de avançar em direção à reabertura econômica, pelo menos enquanto o problema de saúde não for controlado.

Atualmente, o país está na segunda fase de reabertura que prevê a reativação de 7.080 mil empresas ligadas aos setores de mineração, indústria, construção, serviços, turismo e comércio, conforme indicado por Rocío Barrios, Ministro de Produção.

Com relação aos próximos setores a serem flexibilizados, fontes oficiais garantiram que, após quase 100 dias de quarentena, o Executivo planeja passar para a fase 3 de reativação econômica, com a qual está apostando em uma recuperação sem colocar em risco a saúde. No entanto, a data de início ainda não foi confirmada.

Quando um país poderia avançar para a reabertura?

Embora seja verdade que não há uma resposta única para essa pergunta, também é importante levar em consideração o que o Banco Mundial propôs, em seu relatório em 26 de maio, quando se refere à necessidade de avaliar dois eixos principais antes de reabrir:

  1. Que as infecções não se espalhem mais amplamente na sociedade
  2. Que o sistema de saúde seja capaz de responder a um possível surto repentino

Nesse contexto, cada país deve ponderar a relação entre dano econômico e dano à saúde que a reabertura gerará no país, que inevitavelmente estará vinculado à sua realidade nacional futura.

Independentemente de diferentes avaliações sobre o dilema da abertura, a verdade é que isso não será suficiente. O coronavírus causou uma crise global e, portanto, a atividade comercial caiu.

Basta observar as projeções para abril da própria Organização Mundial do Comércio (OMC), que estima que este ano o volume do comércio internacional, do qual a América Latina depende em grande parte, cairia entre 13% e 32%, com sérias consequências para a região.

* Tomas Arias é analista político para América Latina pela XP Investimentos

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