Uma jornada espiritual na Tailândia

Em viagem à Tailândia, Mark Mobius explica sobre o mercado e a cultura do país.

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Até agora, o mercado de ações da Tailândia tem se mostrado relativamente resiliente aos surtos periódicos de volatilidade do mercado global, após a recente decisão do RU de sair da União Europeia (UE). De modo geral, achamos provável que o impacto econômico do Brexit seja relativamente pequeno nos países do sudeste da Ásia. Embora a decisão do povo britânico tenha provocado temores de um aumento da insatisfação com o governo e com as políticas macroeconômicas em outros países, incluindo a Tailândia, a insatisfação pode ser construtiva, se resultar em reformas econômicas e sociais positivas.

É nossa opinião que o potencial econômico e de investimento de longo prazo da Tailândia permanece positivo por várias razões, e, assim que o choque do Brexit se dissipar, os investidores deverão reconhecer as diferenças específicas entre cada mercado emergente.  Eu recentemente tive a oportunidade de visitar a Tailândia. Gostaria de compartilhar aqui a minha perspectiva do país, obtida in loco.

Estou acostumado com frequentes engarrafamentos de trânsito nas principais cidades da Ásia, mas na maior cidade da Tailândia, a hora do pico parece ser um evento de 24 horas. Cheguei em Bangcoc tarde da noite, durante um final de semana, e me deparei imediatamente com estradas lotadas e congestionadas.  Após um descanso, decidi fazer um passeio mais sereno, de bicicleta, pelos bairros de Bangcoc e outras cidades próximas. Descobri que a bicicleta é uma ótima maneira de ver e conhecer um país. É mais devagar do que andar de moto ou de carro, e é o ritmo perfeito para ver o que está acontecendo e conversar com pessoas ao longo do percurso.  Eu já morei em Bangcoc, então eu tinha uma boa noção do layout da cidade, mas esse passeio me deu a oportunidade de ver como a área havia mudado.    

Os meus colegas “fitness” e eu decidimos começar a nossa jornada no bairro chinês de Bangcoc (também conhecido como “Yaowarat”), que adotou o espírito empresarial da cidade.  O bairro surgiu em 1782, quando os chineses vieram para a Tailândia, durante o reinado do Rei Rama I. À medida que Bangcoc se tornou um principal centro de comércio, seu bairro chinês continuou a prosperar. Na minha recente visita, a área estava lotada com vendedores de rua e lojas oferecendo de tudo, incluindo roupas, joias/bijuterias, frutas, carnes, verduras, brinquedos — o que você imaginar, eles têm. Por 50 bahts (US$ 1,50), eu comprei um anel de prata no formato de Hanuman, o Deus místico representado por um macaco, no épico hindu Ramayana. Já que o povo da Tailândia é, em sua grande maioria, budista, eu não esperava ver deuses hindus, mas a ideia de respeito por todas as religiões veio à mente quando pedalávamos em frente a uma mesquita muçulmana e uma igreja católica.

Nos vários templos e monumentos dedicados a Buda, havia fachadas decoradas com deuses guerreiros chineses protegendo os muros, além de estátuas de soldados com faces e uniformes portugueses e britânicos, bem como decorações com influências francesas (a Flor de Lis) e indianas. Tendo sido um porto de comércio durante séculos, a sociedade tailandesa foi influenciada por culturas de todo o mundo. O respeito está refletido nesta e em várias outras maneiras: respeito por Buda, respeito pelo rei e respeito pelos outros, demonstrado por meio de “wai”, que envolve juntar as palmas das mãos em frente ao rosto.  Esse é o cumprimento usual, no lugar do aperto de mãos.

Toda vez que visito a Tailândia, as palavras amor, respeito e liberdade vêm a mente. É, de certa forma, paradoxal o fato de podermos descrever a Tailândia como simbolizando a liberdade, quando um governo militar está atualmente no comando e, ao mesmo tempo, há tanta reverência e amor pelo rei.  O nome “Tailândia” no idioma tailandês é “Muang Thai”, o que significa capital livre ou país livre. A Tailândia também é chamada de “Terra dos Sorrisos”, e é só viajar pelo país para entender o motivo. Também não é de se surpreender que turistas de todo o mundo venham em massa para o país, devido ao seu povo hospitaleiro, ao clima agradável e às muitas atrações culturais.

É ensinado às crianças, desde jovens, a ideia de bondade e amor. Esse ensinamento é lindamente expressado no costume que vários homens tailandeses são submetidos, de se tornar um monge durante algum período de suas vidas, após os 20 anos de idade. Isso significa raspar a cabeça, vestir mantos amarelos e andar descalço. Os monges vivem juntos em um templo, dormem em colchões finos no chão (uma das 227 regras para monges) e participam das mais rigorosas rotinas.

Os monges acordam ao amanhecer e andam pelas ruas com tigelas de latão, aceitando comida das pessoas. Eles oferecem favores às pessoas que, por meio de suas doações aos monges, podem receber bençãos. Depois os monges retornam para comer a refeição matinal. Após o meio dia, não se consome mais comida, e o restante do dia é usado para meditação e canto. Até os homens budista tailandeses do mais alto escalão seguem esse costume, incluindo o rei. Existem retratos do rei Bhumibol Adulyadej como monge, aceitando comida de pessoas comuns e ajoelhando-se diante do monge patriarca. Esses rituais e costumes sempre me impressionam. Muitos anos atrás, eu me perdi tarde da noite enquanto caminhava em Bangcoc. Quando entrei em um templo, um monge me cumprimentou. Apesar de seu inglês ser limitado e o meu tailandês ser inexistente, ele conseguiu se comunicar e fazer um convite para eu passar a noite no templo.  Ele me acompanhou até um chão de madeira limpo, com uma esteira de bambu, onde eu dormi um sono tranquilo, em um ambiente sereno, nas instalações do templo.

Pedalar pela cidade me fez relembrar muitas memórias agradáveis do tempo em que vivi em Bangcoc, nos anos 60. Eu lembro de ficar em uma casa de madeira na Soi Sawadee (Rua Aló) sem a necessidade de ter ar condicionado, apesar do clima tropical. O chão e as paredes escuras de madeira tinham espaços entre as tábuas para permitir que a brisa entrasse e circulasse até os tetos altos. Eu ficava bem feliz em deitar na cama e assistir às pequenas lagartixas caminhando de cabeça para baixo no teto. Elas mantinham o lugar livre de moscas, sua dieta principal.

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Atrações culturais e comerciais

Durante o nosso passeio de bicicleta, chegamos ao rio Chao Phraya, o coração comercial da cidade e fonte de mercadorias de outras partes do país, assim como de todo o mundo.  Para mim, a vista mais impressionante foi a dos barcos elegantes, estreitos e rápidos, movidos a um motor de carro ou caminhão montado na traseira, com um longo eixo que deixa a hélice metros atrás do barco. Talvez a melhor demonstração de manobrabilidade e potência desses barcos tenha sido na corrida pelo rio, no divertido filme tailandês “Tom Yum Goong”.

Ao passar por um calmo parque, encontramos um museu dedicado à mãe do rei Bhumibol Adulyadej, a princesa Srinagarindra née Sangwan Talapat, que morreu em 1995. Filha de um ourives, ela não era de sangue real. Ela havia viajado da Tailândia para a cidade de Boston, nos EUA, para estudar enfermagem, quando conheceu seu futuro marido, o principe Mahidol Adulyadej, que estudava saúde pública e medicina na universidade de Harvard. Como comentário adicional, existe uma praça em Boston chamada “King’s Square”, já que um de seus filhos (o atual rei da Tailândia) nasceu lá.

O museu tinha várias exibições interessantes da vida e do trabalho da princesa na comunidade. Havia também retratos raros da família real em vários estágios da vida e vários artefatos, mostrando que ela era uma mulher muito ativa. A exposição incluía esquis, raquetes de badminton e figuras de porcelana que ela mesmo pintou delicadamente, assim como cenas dela ajudando aos pobres. Um dos membros do museu me deu um livro, Her Royal Highness the Princess Mother, que descreve sua criação durante o período em que o Rei Rama V (1868 a 1910) liderou a sociedade tailandesa aos tempos modernos por meio de reformas abrangentes. 

Para entender a estrutura política e econômica da Tailândia, é importante entender a trindade do rei e da família real, do clero budista e do exército/corpo burocrático. Cada uma dessas instituições desempenha um papel importante na determinação do destino do país. O rei e sua família exemplificam o espírito nobre da nação, o clero budista exemplifica a educação, a humildade e a sabedoria; e o exército e governo burocrático representam estabilidade e ordem. Essas três instituições estão inexoravelmente vinculadas, e qualquer decisão importante deve incluir todas as partes. Claro, a Tailândia adotou uma democracia parlamentarista formal, com representantes eleitos pelo povo e um judiciário. Porém, qualquer decisão desses grupos está vinculada às três mais importantes instituições. O respeito pelo rei e a obediência à moral religiosa são ensinados nas escolas, que muitas vezes são anexas aos templos e são influenciadas pelo clero, embora oficialmente administradas pelo governo.

Parentesco europeu

A relação próxima entre a Europa e a Tailândia é exemplificada na história de uma empresa farmacêutica alemã, fundada em 1878, por um comerciante austríaco e um farmacêutico alemão. Eles começaram uma farmácia servindo à família real tailandesa e receberam várias honras reais, como resultado. Com o tempo, eles expandiram o negócio tornando-se os distribuidores para várias empresas europeias, algumas das quais existem até hoje. Durante a primeira e a segunda guerra mundial, os ativos da empresa foram expropriados (junto com os de outras empresas alemãs na Tailândia), mas todas as vezes eles retornavam para a Tailândia e ressuscitavam o negócio, expandindo de produtos farmacêuticos para a geração de eletricidade, investimentos imobiliários e transporte marítimo. A empresa tem oferecido apoio a vários projetos sociais, incluindo projetos de reflorestamento, patrocinados pela filha do rei. Isso é um exemplo de como algumas empresas estrangeiras têm se tornado uma parte íntegra da sociedade tailandesa.

O papel do rei na Tailândia é muito maior do que da realeza em outras partes do mundo. Por exemplo, se você for ao cinema na Tailândia, no início de cada filme é solicitado que todos fiquem de pé enquanto uma foto e um vídeo do rei e de sua família são exibidos. Além disso, não é incomum ver autoridades do governo em visita ao rei, não apenas ajoelharem-se perante o rei, mas mostrarem o seu respeito deitando-se de bruços no chão. Aos olhos de muitos, o rei merece esse respeito em função das causas e projetos sociais que ele e sua família lideram, incluindo a promoção de práticas avançadas de agricultura no interior.

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Durante o nosso passeio de bicicleta, vimos uma das coisas mais impressionantes de Bangcoc, o templo do Buda dourado, com uma estátua de ouro de 900 anos, do período Sukhothai, que faz parte da história da Tailândia.  A lenda conta que, para esconder dos invasores birmaneses o fato de que o Buda é feito de puro ouro, os tailandeses cobriram todo o Buda com gesso branco.  Após muitas gerações, quando a estátua estava sendo trocada de lugar, em 1955, parte do gesso caiu, revelando o ouro e causando uma enorme comoção. A estátua é considerada o maior Buda dourado do mundo, medindo quase 10 pés em diâmetro e quase 13 pés de altura. A estátua toda pesa 5,5 toneladas. Você consegue calcular o valor da estátua em valores atuais? Deve ser uma bela fortuna! Curiosamente, o monge que lidera o templo, onde o Buda dourado está localizado, recentemente viajou para o Reino Unido para abençoar o clube de futebol da cidade de Leicester, que é de propriedade de uma empresário tailandês. Muitos tailandeses acreditam que seja por isso que o time ganhou o título do English Premier League!

Volatilidade de mercado e oportunidade na Tailândia

A Tailândia faz parte da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e, como tal, acreditamos que o país esteja bem posicionado para potencialmente se beneficiar, não apenas das tendências de crescimento subjacentes, mas também do crescimento acelerado que vimos nas economias vizinhas, como Camboja, Laos, Mianmar e Vietnã.

O governo da Tailândia tem atuado em busca de projetos pró-crescimento, e parece comprometido com extensas reformas pró-mercado e com investimentos em infraestrutura, que acreditamos que devam ser um importante impulsionador de performance econômica no futuro. Além disso, as autoridades da Tailândia comentaram que, embora o impacto do Brexit possa reduzir em 0,1% as projeções de crescimento de 3% do produto interno bruto (PIB) para 20161, as negociações comerciais com a UE provavelmente não serão afetadas, e o país poderá potencialmente implementar novas operações comerciais com o Reino Unido, como uma nação separada, mais rapidamente do que no passado.

Como outros países da região, qualquer desaceleração econômica adicional da China é definitivamente um risco para a Tailândia, especialmente para os setores agrícolas e de  exportações. As pessoas da Tailândia também se preocupam com o governo militar, uma vez que notam atrasos na implementação de projetos de infraestrutura, com os quais o governo anterior havia se comprometido.

Embora pareça ter havido uma fuga dos chamados ativos de risco no final de junho, impactando os mercados emergentes em geral e sem levar em conta os fundamentos individuais de cada país (ou empresa), o mercado tailandês tem se mostrado bastante resiliente. O crescimento do PIB da Tailândia tem sido estável, com um aumento no turismo e na demanda doméstica ajudando a compensar o impacto da contração nas exportações de mercadorias este ano. Permanecemos otimistas com relação às perspectivas de mais longo prazo do mercado, e não estamos demasiadamente preocupados com a turbulência recente vinculada ao Brexit.

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1. Fonte: Previsão do PIB para 2016: Bank of Thailand, até junho de 2016. Não há garantia de que qualquer projeção, estimativa ou previsão se realizará.

Mark Mobius

Possui mais de 40 anos de atuação em mercados emergentes em todo o mundo e atualmente é o presidente-executivo da Templeton Emerging Markets Group. Ao longo de sua carreira recebeu diversas premiações, com destaque para uma das 50 pessoas mais influentes do mundo pela revista Bloomberg Markets, em 2011; e uma das 100 pessoas mais poderosas e influentes, pela Asiamoney, em 2006. Formado pela Boston University, é Ph.D. em economia e ciências políticas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).