Brasil e outros destaques na América Latina

Em viagem à América Latina, Mark Mobius comenta sobre as curiosidades dos países visitados e as razões para otimismo na região.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Relações comerciais “Top of Mind” no México

A eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos causou algumas preocupações ao México, especialmente na área comercial, referentes ao seu relacionamento com seu vizinho mais ao norte. A meta declarada do Presidente Trump, de manter o valor do dólar norte-americano depreciado para ajudar as empresas norte-americanas que dependem de exportações, é importante para países que exportam muito para os EUA. Será interessante ver se ele conseguirá fazer isso, em virtude das futuras possíveis altas das taxas de juros norte-americanas, que tenderiam a impulsionar o dólar.

É provável que as medidas de política monetária da administração Trump sejam bastante importantes para o México, mas não podemos esquecer que o comércio entre os EUA e o México é expressivo e importante para os dois países. Os EUA e o México são importantes parceiros comerciais, com um comércio bilateral total estimado em mais de US$ 580 bilhões em 2015 (1). O comércio em ambas as direções está fortemente concentrado em maquinários e bens manufaturados. O setor de automóveis, incluindo veículos e peças, é a principal fonte de exportação do México para os Estados Unidos. O setor de automóveis dos EUA é altamente dependente de peças importadas do México, de modo que o comércio não pode ser simplesmente interrompido completamente.

O México é o principal produtor de automóveis da América Latina, o sétimo maior produtor de automóveis do mundo e tem vários acordos de livre comércio com diversos outros países (2). Logo, o fato é que os Estados Unidos não são o único mercado do México.

Por outro lado, os maiores mercados de exportação dos EUA são o Canadá e o México, e os produtos agrícolas representaram em torno de US$ 18 bilhões em exportações para o México em 2015 (3). Dentro do contexto de exportações totais, esse número é relativamente pequeno, mas politicamente importante. Em geral, achamos que os temores em relação a uma completa ruptura nas relações econômicas entre os EUA e o México provavelmente estejam exagerados.

Isso dito, não há dúvida para nós de que a maioria dos países de mercados emergentes precisarão avaliar suas estratégias comerciais em relação aos Estados Unidos, assim como às relações comerciais em geral.

Os ânimos estão mais otimistas no Brasil

Outro acontecimento importante em vários países da América Latina é a queda do populismo. Isso, na realidade, faz parte de uma tendência mais abrangente que estamos vendo, onde alguns mercados emergentes estão se distanciando do populismo, ao mesmo tempo que alguns mercados desenvolvidos, incluindo o Estados Unidos e partes da Europa, parecem estar indo na direção oposta.

Em nossa opinião, no caso dos mercados emergentes, a ascensão da Internet e dos smartphones ajudou a queda do populismo.  Um número maior de pessoas agora tem conhecimento do que está acontecendo nos mais altos níveis de seus governos, e podem responder e informar ao mundo. As investigações da “Lavo Jato” do Brasil são um bom exemplo.

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Recentemente visitamos o presidente brasileiro em Brasília, a capital do país, e ficou claro que as autoridades do governo estavam empenhadas em implementar reformas o quanto antes possível, para melhorar a economia e salvar suas carreiras políticas.

A mais importante dessas reformas, em nossa opinião, é a privatização de várias empresas estatais e a venda generalizada de ativos de maneira transparente e sistemática, como alguns projetos petrolíferos e de infraestrutura, incluindo aeroportos.

O Brasil tem enfrentado uma lamentável crise econômica e política, e isso tem contribuído para um governo mais disposto a implementar reformas. Estamos otimistas em relação à continuidade dessas reformas. Embora os mercados de ações estejam precificando o progresso, o índice Ibovespa do Brasil apresentou uma das melhores performances do mundo, no ano passado, e ainda vemos muitas oportunidades potenciais pela frente (4).

Durante a minha viagem ao Brasil, fiz também a minha visita anual ao Rio para me reunir com empresas e para aproveitar o Carnaval durante o meu tempo livre.

A contribuição econômica do Carnaval

Foi estimado que as celebrações com o Carnaval deste ano atraíram mais de 1 milhão de visitantes, somente para o Rio de Janeiro, e contribuíram com R$ 3 bilhões (mais de US$ 900 milhões) para sua economia (5).

O Rio não foi a única cidade a sentir o clima festivo. A mídia local no Brasil também reportou um número maior de turistas em São Paulo, para as celebrações neste local, e 1,5 milhão de pessoas foram às ruas em Brasília para ver os desfiles e os blocos de rua (6).

Além disso, os foliões também gastaram mais dinheiro do que no ano passado, dando um impulso para as economias locais.

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Nós certamente sentimos o congestionamento no trânsito do Rio, mas achamos o evento bem organizado, como sempre.

De acordo com o Departamento de Desenvolvimento Econômico do Rio, a festa no Rio criou empregos temporários para 250 mil pessoas, incluindo carpinteiros e costureiras que trabalharam o ano inteiro para preparar os inúmeros carros alegóricos. No Sambódromo, cerca de 1 mil vendedores de fast-food foram contratados para as festas e as “escolas” de samba do Rio gastaram mais de US$ 1 milhão para organizar seus desfiles, com carros alegóricos sofisticados, fantasias e danças. O Carnaval oferece um exemplo de quão importante é lembrar que uma economia pode parecer mal do ponto de vista macro, mas ao nível micro, certos segmentos podem estar se saindo muito bem.

Durante o período em que trabalhamos no Rio, meus colegas e eu visitamos duas empresas do setor de consumo, uma envolvida em vendas ao varejo e a outra envolvida com shopping centers. A empresa de varejo tem oferecido uma performance sólida, mas historicamente mais fraca considerando o ambiente econômico bastante desafiador. Eles estavam desenvolvendo operações de venda através da Internet e, assim como outras empresas dependentes de vendas via Internet, a empresa estava enfrentando problemas com entregas e de logística, especialmente durante os feriados, e atualmente está fazendo uma grande injeção de capital para melhorar esse aspecto do negócio. Ao mesmo tempo, a empresa planeja continuar acelerando o ritmo de aberturas de lojas físicas nos próximos anos, em preparação para o que ela espera ser a recuperação de um mercado consumidor em crescimento.

A operadora de shopping centers que visitamos tem apresentado boas vendas, mas também mencionou o ambiente desafiador e enfatizou controles de custos para impulsionar as margens de lucro. A empresa estava considerando possíveis descontos no aluguel este ano, para ajudar os lojistas, mas o interessante é que o tráfego de pessoas havia aumentado.

Com as reformas propostas pelo Presidente Michel Temer, a confiança está melhorando e há esperança de um ambiente consumidor melhor e taxas de juros de longo prazo potencialmente mais baixas.

Embora o Carnaval sempre traga um clima de celebração, ainda existe uma sensação de crise para muitas empresas envolvidas no enorme escândalo da Lava Jato, e as investigações ainda estavam em andamento durante a minha visita ao Brasil. No entanto, ao fim da nossa visita ao Rio, ficou claro que, embora houvesse uma desaceleração econômica, uma recuperação estava em andamento. Embora muitas empresas continuem com dificuldades, vimos muitos pontos positivos.

Mercados emergentes: uma visão geral

Olhando o panorama geral dos mercados emergentes, estamos animados em ver a performance melhorando, e os mercados emergentes, em geral, superando a performance dos mercados desenvolvidos, em 20167. Achamos que o cenário está posicionado para que essa tendência provavelmente continue em virtude das projeções de crescimento, que continuam superando as dos mercados desenvolvidos.

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De acordo com o Fundo Monetário Internacional, o crescimento do produto interno bruto (GDP) dos mercados emergentes este ano está previsto para 4,5%, em comparação com 1,9% nos países desenvolvidos (8).

A América Latina só agora está começando a se organizar. Embora seja provável que o Brasil apresente um crescimento econômico de menos de 1% este ano (9), achamos que é possível que haja um aumento potencial no crescimento de mais longo prazo. Este ano, o crescimento do PIB do México está projetado para 1,7%, enquanto que o crescimento na Argentina está projetado para 2,7% (10).

Essas considerações são apenas a ponta do iceberg. Continuamos nossa pesquisa intensiva de empresas, em meio às rápidas mudanças dos ambientes econômicos e, apesar dos desafios, estamos animados com o que o futuro pode nos oferecer na região.

Os comentários, as opiniões e as análises do Mark Mobius são apenas para fins informativos e não devem ser considerados como uma consultoria de investimento, uma recomendação para investir em qualquer ativo ou para adotar qualquer estratégia de investimento. Uma vez que as condições econômicas e de mercado estão sujeitas a mudanças rápidas, as opiniões, as análises e os comentários são oferecidos com base na data da publicação e podem ser alterados sem aviso prévio. Este material não tem como objetivo ser uma análise completa de todos os fatos importantes em relação a qualquer país, região, mercado, setor, investimento ou estratégia.

Informações legais importantes

Todos os investimentos envolvem riscos, inclusive uma possível perda de principal. Os ativos estrangeiros acarretam riscos especiais, incluindo flutuações cambiais, instabilidades econômicas e acontecimentos políticos. Os investimentos em mercados emergentes, dos quais os mercados de fronteira são um subconjunto, acarretam riscos mais elevados em relação aos mesmos fatores, além dos riscos relacionados ao menor tamanho desses mercados, à menor liquidez e à menor estrutura jurídica, política, comercial e social estabelecida para fornecer suporte aos mercados de valores mobiliários. Como essas estruturas são normalmente até menos desenvolvidas em mercados de fronteira, assim como vários fatores incluindo o maior potencial para alta volatilidade de preços, falta de liquidez, obstáculos ao comércio e controles cambiais, os riscos associados a mercados emergentes são mais altos em mercados de fronteira. Os preços das ações oscilam, às vezes de forma rápida e drástica, devido a fatores que afetam certas empresas, determinadas indústrias ou setores, ou devido a condições gerais de mercado.

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1. Fonte: Office of the United States Trade Representative, dados até 2015.

2. Fonte: Export.gov, US Department of Commerce Trade Administration. Dados até 2016.

3. Fonte: Office of the United States Trade Representative, data até 2015.

Performance passada não é indicação nem garantia de performance futura. Índices não são gerenciados e não se pode investir diretamente em um índice. Eles não incluem taxas, despesas ou encargos de venda.

5. Fonte: Prefeitura municipal do Rio de Janeiro, comunicado à imprensa do Departamento de Relações Internacionais, 07 de março de 2017.

6. Fonte: Governo de Brasília (Agência Brasília) “O Carnaval de Brasília teve 1,5 milhão de espectadores em 2017.”

7. Em 2016, o MSCI Emerging Markets Index subiu 11,2%, enquanto que o MSCI World Index subiu 7,5%. O MSCI Emerging Markets Index representa empresas de alta e média capitalização de 23 países dos mercados emergentes. O MSCI World Index representa empresas de alta e média capitalização de 23 países dos mercados desenvolvidos. Índices não são gerenciados e não se pode investir diretamente em um índice. Performance passada não é indicação nem garantia de performance futura.

8. Fonte: IMF World Economic Outlook, atualização realizada em janeiro de 2017. Não há garantia de que qualquer projeção, estimativa ou previsão se realizará.

9. Fonte: IMF World Economic Outlook, atualização realizada em janeiro de 2017. Não há garantia de que qualquer projeção, estimativa ou previsão se realizará.

10. Fonte: FMI; As projeções do México e do Brasil são até janeiro de 2017 e as da Argentina são até outubro de 2016. Não há garantia de que qualquer projeção, estimativa ou previsão se realizará.

 

Mark Mobius

Possui mais de 40 anos de atuação em mercados emergentes em todo o mundo e atualmente é o presidente-executivo da Templeton Emerging Markets Group. Ao longo de sua carreira recebeu diversas premiações, com destaque para uma das 50 pessoas mais influentes do mundo pela revista Bloomberg Markets, em 2011; e uma das 100 pessoas mais poderosas e influentes, pela Asiamoney, em 2006. Formado pela Boston University, é Ph.D. em economia e ciências políticas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).