Os mercados emergentes na era digital

Mark Mobius e Carlos Hardenberg, vice presidente sênior e diretor executivo do Templeton Emerging Markets Group, discutem sobre a evolução que está acontecendo em muitos mercados emergentes, a rápida adoção de novas tecnologias e a rápida digitalização das economias.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
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Meus colegas e eu temos comentado ativamente sobre a evolução que está acontecendo em muitos mercados emergentes, nas últimas décadas. Temos visto mudanças dramáticas ocorrerem, com os modelos econômicos frequentemente unidimensionais do passado sendo substituídos por novas e variadas fontes do crescimento. Essa evolução inclui a rápida adoção de novas tecnologias, e a rápida digitalização das economias. Neste texto abaixo, Carlos Hardenberg, vice presidente sênior e diretor executivo do Templeton Emerging Markets Group, discute esse tópico com mais detalhes.

Analisando as economias dos mercados emergentes como um todo, temos visto uma dramática transformação dos modelos do passado, frequentemente baseados na exportação de commodities. Temos visto uma nova geração de empresas inovadoras, localizadas nos mercados emergentes, migrando para processos produtivos e serviços de mais alto valor agregado. Achamos que esse é um momento muito excitante para os investidores desse segmento.

O setor de tecnologia dos mercados emergentes está nos proporcionando muitas oportunidades interessantes, do hardware ao software e a todas as formas de comércio eletrônico e entretenimento.

Veículos autônomos são um exemplo da crescente influência das empresas dos mercados emergentes. Muitos produtores de componentes e infraestrutura, necessários para tornar realidade os veículos autônomos, estão localizados em mercados emergentes, particularmente a Ásia. Além disso, eles são altamente especializados. Por exemplo, sensores, câmeras, outros componentes leves e software para habilitar os veículos autônomos são frequentemente produzidos nos mercados emergentes.

Outro exemplo está na tecnologia de telefonia celular. Em torno de 80% dos componentes de um telefone celular popular são produzidos em mercados emergentes, da bateria à câmera e à carcaça.

 Fonte: Estimativas do BofA Merril Lynch Global Research, fevereiro de 2017.
 
Sabemos como a tecnologia afetou quase todos os aspectos de nossas vidas. Ela transformou o modo como nos comunicamos uns com os outros, como compramos, trabalhamos e nos divertimos. Isso se deu com consumidores em todo o mundo, mesmo nas economias que poderiam ser consideradas as menos desenvolvidas. Estima-se que 40% a 50% da população mundial tenham acesso à Internet, e 70% dos jovens de 15 a 24 anos a utilizem1. Há não muito tempo, ninguém utilizava.

O número de usuários da Internet aumentou dez vezes, de 1999 a 2013. O primeiro bilhão foi atingido em 2005, o segundo bilhão em 2010 e o terceiro bilhão em 20142. Analisando o número de usuários de Internet em todo o mundo, a China (21%) e a Índia (14%) têm a maior parcela, acima dos Estados Unidos (9%), do Japão (3%) e da Alemanha (2%)3.

A estratégia “Internet Plus” da China, anunciada em 2015, demonstra o importante papel que o governo espera que os negócios on-line desempenhem no estímulo ao próximo estágio de seu desenvolvimento econômico. A estratégia visa aumentar a digitalização por toda a economia e aumentar a presença das empresas de Internet da China em todo o mundo.

Muitos membros dessa nova geração de consumidores “digitalizados” (incluindo os dos mercados emergentes) possivelmente nunca tenham visitado uma agência bancária, nunca tenham usado um telefone ligado a um fio e estão cada vez mais desprezando lojas físicas para adquirir roupas e outros produtos on-line.

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Esse crescente acesso à Internet significa maiores oportunidades. Veja a Indonésia, por exemplo. Uma pesquisa da International Telecommunications Union descobriu que, para cada 1% de aumento na taxa de penetração da Internet, o crescimento do desemprego seria reduzido em 8,61%4. O efeito total da banda larga no desemprego é uma combinação de novos empregos e de manutenção de empregos existentes, que de outra forma contribuiriam para a taxa de desemprego5.

Por sua vez, os consumidores têm mais renda discricionária e a classe média ganha mais importância. Esse aumento do poder de compra impulsionou uma cultura mais voltada ao consumidor, e oportunidades de investimento novas e mais diversificadas.

Segundo pesquisa da McKinsey, se a Indonésia adotar plenamente a digitalização, estima-se que ela poderá realizar US$ 150 bilhões em crescimento, 10% do seu PIB, até 20256. Aproveitar a economia digital pode aumentar a produtividade e expandir a participação econômica em toda a economia. Apesar de o comércio eletrônico estar crescendo rapidamente na Indonésia, uma das 10 maiores economias do mundo, em paridade de poder de compra, ainda há espaço para mais avanços.

 Fontes: International Telecommunications Union, “Impact of Broadband on the Economy”, abril de 2012; PEW Research Center, “Welcome to the Global Middle Class Surge”, julho de 2013; e McKinsey & Company, “Unlocking Indonesia’s Digital Opportunity”, outubro de 2016. Não há garantia de que qualquer estimativa, projeção ou previsão se realizará.
 
Em 2013, o Pew Research Center entrevistou quase 40.000 pessoas em 39 países e fez a seguinte pergunta: as crianças de seu país viverão melhor do que seus pais?7. Curiosamente, na maioria das economias avançadas a resposta a essa pergunta foi majoritariamente “não”. Dois terços das pessoas entrevistadas nos Estados Unidos responderam dessa forma, e os entrevistados na Grã-Bretanha também não estavam muito mais otimistas de que suas crianças viveriam melhor do que eles8.

Em compensação, na China 82% dos entrevistados acreditavam que suas crianças viveriam melhor, e no Brasil 79% pensavam da mesma forma9. No Chile, na Malásia, na Venezuela, na Indonésia, nas Filipinas, na Nigéria, em Gana e no Quênia, a maioria das pessoas entrevistadas também acreditava que a próxima geração viverá melhor do que a atual.

 

Uma mudança de perfil

Não apenas os consumidores mudaram, mas o perfil do que se considerava uma empresa dos mercados emergentes também mudou. No passado, essas empresas eram geralmente modelos de negócios incipientes, geralmente simples. Elas eram muito voltadas à infraestrutura.

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Nos últimos 10 anos, mais ou menos, vimos uma migração gradual para modelos de negócio cada vez mais sofisticados. As empresas dos mercados emergentes estabeleceram suas próprias marcas, seus próprios nichos e se expandiram para além de seus países ou regiões, muitas vezes através de aquisições.

Temos visto uma nova geração de empresas dos mercados emergentes se desenvolver. Em sua maioria, as empresas dos mercados emergentes também têm desfrutado de uma geração saudável de fluxo de caixa e de melhores lucros. No passado, houve alguns períodos em que os balanços patrimoniais das empresas esteve sob forte tensão, devido a dívidas cambiais. Elas tiveram problemas, particularmente quando a moeda local foi pressionada.

Atualmente, essas questões cambiais parecem estar muito melhor administradas e os balanços patrimoniais das empresas parecem estar muito mais saudáveis. De modo geral, as empresas dos mercados emergentes se desalavancaram ao longo do tempo. Elas limparam seus balanços patrimoniais e consertaram seus modelos de negócios.

 

Crescer ainda é o mais importante

Uma característica que definiu os mercados emergentes no passado, e ainda define, é sua alta taxa de crescimento. As economias dos mercados emergentes têm crescido significativamente mais rápido do que as dos mercados desenvolvidos, e prevemos que essa tendência provavelmente deva continuar.

Apesar dessa taxa de crescimento mais elevada, as métricas de valor geralmente parecem estar muito mais razoáveis do que nos mercados desenvolvidos. É possível investir em muitas dessas empresas a um preço significativamente descontado, em relação ao que se pagaria para investir em uma empresa equivalente do mundo desenvolvido.

Os modelos de negócios dos mercados emergentes se tornaram muito mais sofisticados e robustos do que eram no passado. Estamos bastante entusiasmados com as oportunidades que estamos encontrando nos mercados emergentes, atualmente, e com o potencial para o futuro.

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Os comentários, as opiniões e as análises do Carlos Hardenberg são apenas para fins informativos e não devem ser considerados como uma consultoria de investimento, uma recomendação para investir em qualquer ativo ou para adotar qualquer estratégia de investimento. Uma vez que as condições econômicas e de mercado estão sujeitas a mudanças rápidas, as opiniões, as análises e os comentários são oferecidos com base na data da publicação e podem ser alterados sem aviso prévio. Este material não tem como objetivo ser uma análise completa de todos os fatos importantes em relação a qualquer país, região, mercado, setor, investimento ou estratégia.

Informações legais importantes

Todos os investimentos envolvem riscos, inclusive uma possível perda de principal. Os ativos estrangeiros acarretam riscos especiais, incluindo flutuações cambiais, instabilidades econômicas e acontecimentos políticos. Os investimentos em mercados emergentes, dos quais os mercados de fronteira são um subconjunto, acarretam riscos mais elevados em relação aos mesmos fatores, além dos riscos relacionados ao menor tamanho desses mercados, à menor liquidez e à menor estrutura jurídica, política, comercial e social estabelecida para fornecer suporte aos mercados de valores mobiliários. Como essas estruturas são normalmente menos desenvolvidas em mercados de fronteira, e existem vários fatores que aumentam a probabilidade de extrema volatilidade de preços, falta de liquidez, barreiras comerciais e controles cambiais, os riscos associados aos mercados emergentes são mais elevados em mercados de fronteira. Os preços das ações oscilam, às vezes de forma rápida e drástica, devido a fatores que afetam empresas individuais, determinadas indústrias ou setores, ou condições gerais de mercado.

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1. Fontes: Internet Live Stats, International Telecommunications Union Facts and Figures, 2017.

2. Fonte: Internet Live Stats, 2017.

3. Ibid.

4. Fonte: International Telecommunications Union, “Impact of Broadband on the Economy”, abril de 2012

5. Ibid.

6. Fonte: McKinsey & Company, “Unlocking Indonesia’s Digital Opportunity”, outubro de 2016. Não há garantia de que qualquer estimativa, previsão ou projeção se realizará.

7. Fonte: Pew Research Center, “Welcome to the Global Middle Class Surge”, julho de 2013.

8. Ibid.

9. Ibid.

Publicado em Guest Bloggers, PerspectiveTagged Carlos Hardenberg, China, Indonesia, technology in emerging markets

Mark Mobius

Possui mais de 40 anos de atuação em mercados emergentes em todo o mundo e atualmente é o presidente-executivo da Templeton Emerging Markets Group. Ao longo de sua carreira recebeu diversas premiações, com destaque para uma das 50 pessoas mais influentes do mundo pela revista Bloomberg Markets, em 2011; e uma das 100 pessoas mais poderosas e influentes, pela Asiamoney, em 2006. Formado pela Boston University, é Ph.D. em economia e ciências políticas pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT).