Subsídios e taxação de petrolíferas podem não ser soluções ideais para conter impacto do aumento de preços

O risco é o de que políticas que subsidiem as contas de energia possam se tornar inócuas, isso se este desequilíbrio macroeconômico entre oferta e demanda for intensificado com maior consumo em um cenário de maior escassez.
Por  Roberto Dumas Damas -
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Tem se tornado clichê dizer que o mundo está experimentando um cenário de choque de oferta vindo de todos os lados. Guerra na Ucrânia, lockdown na China (embora com maior flexibilização agora), levando a aumentos dos preços de alimentos, gás natural, fertilizantes, defensivos agrícolas, carvão e petróleo.

Difícil fazer qualquer prognóstico razoável com as mudanças observadas nos tabuleiros geopolíticos e geoeconômicos. Mas a verdade é que o ímpeto populista de oferecer subsídios para consumidores de energia já atravessou o Atlântico e aportou em um dos lugares mais liberais do mundo. O Reino Unido.

O membro do partido conservador e Chanceler do Tesouro do Reino Unido (“Chancellor of the Exchequer”), Rishi Sunak, estabeleceu uma alíquota adicional de 20% sobre os ganhos das petroleiras britânicas, produtoras de petróleo do Mar do Norte e a gigante BP, passando de 40% para impressionantes 65%.

O objetivo é o de custear a ajuda de £ 12 bilhões a 15 bilhões às classes menos abastadas, com empréstimos subsidiados e doações debitadas das contas de energia, com valores que variam de £ 300 a £ 650 por família.

Mas o que isso tudo tem a ver com o preço do petróleo? Convém lembrar que os 27 países membros da União Europeia acabaram de aprovar um banimento de 2/3 do petróleo vindo da Rússia. Se somarmos esse novo choque de oferta com uma maior flexibilização da política de Covid zero na China, é possível que testemunharemos um aumento no preço do petróleo até o final do ano, além dos cerca de US$ 120 o barril do brent.

Se juntarmos as políticas expansionistas advindas ou de subsídios custeadas por maiores impostos sobre as petrolíferas ou simplesmente por maior endividamento público, há de se ressaltar o risco de um maior desbalanceamento entre oferta e demanda.

Note, ninguém aqui está defendendo que as famílias menos abastadas não mereçam subsídios em um cenário de aceleração de inflação corroendo renda e poder de compra das famílias. Não obstante, tais políticas que começam a pipocar por aqui e em outros países tendem a manter o consumo de energia em patamares originais, com uma oferta mundial menor, puxando os preços para cima.

O risco é o de que políticas que subsidiem as contas de energia possam se tornar inócuas, isso se este desequilíbrio macroeconômico entre oferta e demanda for intensificado com maior consumo em um cenário de maior escassez.

No final das contas, essas políticas de subsídio de energia, conquistadas com maiores impostos sobre as petrolíferas e/ou maior endividamento público, podem se enfraquecer, caso as contas de energia forem majoradas justamente por causa desses mesmos subsídios, que impedem um ajuste na demanda da energia pelas famílias.

Roberto Dumas Damas Roberto Dumas Damas é economista-chefe do Voiter e representou o Itaú BBA em Xangai de 2007 a 2011. Em 2017, atuou no banco dos BRICs em Xangai. Dumas é mestre em Economia pela Universidade de Birmingham na Inglaterra, mestre em Economia Chinesa pela Universidade de Fudan (China), além de professor de MBA e pós graduação do Insper e da FIA e professor convidado da China Europe International Business School (CEIBS) e Fudan University (China)

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