Comprar ou realizar? O que fazer na Bolsa e na renda fixa após o rali do 1º turno

Gestores e analistas divergem sobre o fôlego do rali na Bolsa e nos títulos públicos; veja o que fazer com a carteira nesse momento

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O Ibovespa bateu recorde histórico acima dos 200 mil pontos, o dólar chegou a cair para R$ 4,95, e os juros futuros desabaram a ponto de renovar recorde desde 2008, em reação do mercado reagiu ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. Os investidores já se posicionavam para um cenário favorável à oposição, mas não contavam com Flávio à frente já no primeiro turno, ao contrário do que mostrava a maior parte das pesquisas divulgadas na reta final da campanha.

Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, diz que o desempenho da direita nos Estados e no Congresso também surpreendeu. Ele atribui a alta de segunda mais à mudança de expectativas do que a uma melhora dos fundamentos, que ainda precisa ser confirmada. Ele avalia que Flávio não era o nome preferido do mercado e que a reação se deve à chance maior de Lula não ser reeleito, depois de um governo cuja política econômica e falta de ajuste fiscal desagradaram os investidores. “Qualquer nome que ganhasse do Lula já faria o mercado ter uma visão positiva”, diz.

Quem estava alocado, viu a carteira ter uma das maiores valorizações dos últimos anos, e quem ficou de fora pode se perguntar se a euforia ainda deixa a janela aberta. Os especialistas ouvidos pelo InfoMoney veem oportunidades, mas discordam sobre o quanto os preços ainda podem subir – e todos recomendam evitar mudanças na carteira por impulso.

Vender ou segurar ações?

Para Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, a maior parte da alta se concentrou no pregão de segunda, “com um pouco de overreaction“. Ele espera, no entanto, que a Bolsa se mantenha acima dos 200 mil pontos, desde que Flávio continue como favorito.

Ricardo Farias, gestor de renda fixa e multimercado da Fator Administração de Recursos, não vê exagero. Para ele, a reação foi proporcional à surpresa com o resultado. “O que o mercado precifica hoje é a vitória de Flávio Bolsonaro e alternância de poder, um cenário que não estava totalmente nos preços ainda”, disse na segunda.

Fernando Siqueira, head de research da Eleven Financial, acha possível que a alta continue por alguns dias, já que grandes investidores costumam levar mais de um pregão para ajustar suas posições. Bruno Corano, CEO da Corano Capital, também vê espaço para ganhos ao longo da semana, mas “de maneira seletiva, gradual e sem comprar ativos a qualquer preço depois da euforia inicial”.

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Gesner Oliveira, sócio da GO Associados e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), espera que o capital estrangeiro acelere as compras na Bolsa em um primeiro momento, uma vez que esses investidores já davam alta probabilidade à vitória de Flávio. Para ele, a manutenção dos ganhos vai depender de Flávio, se eleito, apresentar com sua equipe um plano fiscal consistente. Oliveira avalia que parte importante do ajuste já aconteceu e que, depois de uma alta tão forte, quem ficou de fora deve ser mais seletivo.

Letícia Albuquerque, head de Soluções de Investimentos da Tivio Capital, espera um fim de ano positivo, em um período que chama de “lua de mel”. Ela avisa, porém, que o mercado logo vai começar a cobrar medidas de ajuste fiscal. A Tivio está neutra em Bolsa, entre outros motivos porque considera fracos os resultados recentes das empresas, o que pode deixar as ações caras se os lucros não crescerem.

Para quem já tem ações e pensa em embolsar o ganho, alguns bancos também alertam que pode não ser a hora, pois ainda veem espaço para o Ibovespa subir. O Morgan Stanley espera que o índice se aproxime dos 250 mil pontos de seu cenário otimista no curto prazo, o JPMorgan elevou a recomendação para o Brasil a overweight (equivalente a compra) e o BTG Pactual calcula potencial de até 45% no cenário mais favorável. Para o UBS, a reprecificação pode se estender pelo primeiro ano do novo governo, mas com uma rotação dentro da Bolsa, já que as ações de petróleo tendem a render menos que as cíclicas domésticas. Em comum, as casas condicionam as projeções mais otimistas a um plano fiscal crível e a um cenário externo estável.

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A XP também recomenda aumentar a exposição à Bolsa, mas de forma gradual e sem abrir mão da qualidade. Em relatório, a equipe de estratégia da casa avalia que o rompimento dos 200 mil pontos reforça a tendência de alta de longo prazo do Ibovespa, embora uma realização de lucros depois de um salto tão concentrado seja esperada no curto prazo. “A tendência é de alta, mas o caminho raramente é linear”, resumem os analistas, para quem eventuais correções podem ser oportunidades para quem busca ampliar a exposição. Ao contrário do UBS, a XP inclui óleo e gás entre os destaques, ao lado de financeiro, shoppings, incorporadoras de baixa renda e utilidades públicas.

Mas analistas também lembram que a vitória de Flávio, embora tenha ficado provável, ainda não está garantida. Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, avalia que o mercado já precifica quatro anos de governo Flávio e alerta que, se Lula vencer, “boa parte desse movimento vai por água abaixo”.

Já Utsch cita os mercados de previsão, em que a chance de vitória de Flávio subiu de 60% para 80% depois do primeiro turno, mas ressalta que até 25 de outubro ainda podem surgir denúncias, notícias sobre o Banco Master e outros fatos. Depois da eleição, ele diz que será preciso observar a escolha da equipe econômica e se o novo presidente terá disposição para aprovar medidas impopulares, mesmo com maioria no Congresso. O cenário externo também pesa, com o petróleo Brent ainda acima de US$ 100 o barril e os juros dos títulos de 10 anos do Tesouro americano perto de 5,30% ao ano, lembra Farias.

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Quais ações ganham e quais perdem

A alta se concentra em setores ligados à economia doméstica e beneficiados por juros menores.

A partir daqui, Siqueira vê como possíveis destaques as empresas menores e mais endividadas, que se beneficiam da queda dos juros, e as companhias que passavam por dificuldades operacionais. Para as “que estavam à beira da falência, vamos dizer assim, pode ser que essa melhora do cenário seja suficiente”, explica. Ações com muitas posições vendidas também devem subir, já que os investidores que apostavam na queda precisam recomprar os papéis, algo que Utsch diz ter observado na segunda.

Entre os setores, Siqueira cita varejo e construção, mas Oliveira é mais cauteloso com esse grupo. “Uma eventual mudança política não corrige empresas endividadas, baixa produtividade ou problemas de governança”, diz. Ele vê oportunidades em empresas domésticas sensíveis aos juros, como construção, consumo, varejo e shoppings, desde que tenham balanços sólidos, e em infraestrutura e concessões, que podem ganhar com regras mais previsíveis, maior participação privada e a retomada de projetos.

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A lista de Corano inclui bancos, incorporadoras, construtoras, varejistas de maior qualidade, shoppings, educação e empresas endividadas, mas com finanças saudáveis.

A Nero segue a mesma linha, mas reduz a exposição a bancos, ao contrário do que sugere Corano. A gestora também diminui um pouco a participação em serviços, elétricas, saneamento, seguradoras, tecnologia e telecomunicações e aumenta as posições em varejo, construção civil de média renda, transporte, logística e empresas mais alavancadas, segmentos que sofreram mais com os juros altos.

A Privatto Multi Family Office também aposta em ativos sensíveis à queda dos juros e do prêmio de risco do país. Na construção civil, a gestora destaca a Cyrela (CYRE3) como uma das ações que mais podem reagir a uma redução consistente das taxas futuras, já que juros menores barateiam o financiamento imobiliário e estimulam lançamentos e vendas.

A Privatto, no entanto, recomenda não concentrar o patrimônio em uma estratégia de curto prazo ligada à eleição. A gestora sugere destinar a essa aposta 3% da carteira para perfis conservadores, 5% para moderados e 7% para agressivos, com a maior parte em ETF que replique o Ibovespa.

Letícia acredita que as cíclicas domésticas podem voltar a render mais que o Ibovespa, depois de anos em que o índice subiu puxado pelo capital estrangeiro e pela Petrobras (PETR4). Com isso, a escolha das ações passa a pesar mais no resultado.

Utsch não afirma que chegou a hora das small caps, mas lembra que essas ações caíram muito, perderam liquidez e quase não aparecem nas carteiras dos fundos, o que amplia o efeito de qualquer fluxo de compra. Ele vê a possibilidade de um novo ciclo na Bolsa, diferente do anterior, que foi puxado por estrangeiros e grandes empresas. “Se houver continuidade do movimento com melhora da economia doméstica, podemos ter uma alta mais disseminada, pautada tanto por estrangeiros quanto por investidores locais e small caps e com a pessoa física, que está completamente fora da Bolsa, voltando”, diz.

Entre as ações que ficam para trás, as mais citadas são as das exportadoras e das empresas consideradas defensivas. Perri explica que, com o real mais forte, as companhias com receita em dólar recebem menos em reais. Siqueira cita Vale (VALE3) e Suzano (SUZB3).

Corano inclui mineração, celulose, proteínas, elétricas, saneamento, saúde e consumo básico, não por serem empresas ruins, mas porque o investidor costuma procurar primeiro as ações que mais sofreram. A Privatto, por outro lado, mantém a Sabesp (SBSP3) no radar, apesar de o saneamento aparecer entre os setores que perdem espaço, por uma tese menos ligada à eleição e baseada em eficiência operacional, governança e investimentos.

O real mais forte também reduz o retorno de quem investe no exterior sem proteção cambial, e quem ampliou essa exposição para se proteger do resultado eleitoral pode precisar rever o tamanho da aposta.

Vale comprar estatais depois da alta?

As estatais eram negociadas com desconto por causa do risco de interferência política e, por isso, estão entre as que mais subiram, segundo Corano. Ele acredita que ainda pode haver ganho, mas recomenda critério na compra, enquanto Perri prefere esperar uma realização de lucros.

Entre as estatais, Siqueira prefere o Banco do Brasil (BBAS3), porque a Petrobras, como exportadora, perde com o real mais valorizado. O banco também é o preferido da Privatto no setor financeiro, pela combinação de juros menores, melhora do crédito e redução da percepção de risco. Felipe Passero, sócio da Jaguaretê Investimentos, considera o BB descontado e com preço razoável, mesmo com os problemas no crédito ao agronegócio. A Petrobras, por outro lado, já não está descontada em relação ao próprio histórico, na avaliação dele, embora ainda pareça atrasada frente às petroleiras americanas.

Mesmo sendo exportadora, a Petrobras subiu forte na segunda e renovou sua máxima histórica. Com o risco político menor, investidores passaram a ver espaço para uma gestão mais eficiente da estatal e até para uma privatização, ainda que pouco provável.

Hora de vender os títulos que subiram?

Para Gabriel Magno, sócio da AW Capital, as taxas dos prefixados e dos títulos atrelados à inflação devem continuar mais baixas depois da queda histórica de segunda, o que leva a uma remarcação forte desses papéis.

Os especialistas ainda apontam dúvida sobre a chance de mais queda no curto prazo. Guilherme Almeida, head de renda fixa da Suno Research, lembra que a incerteza diminuiu, mas não acabou, e que pesquisas, debates e eventos externos devem provocar oscilações na curva até o segundo turno. Oliveira acrescenta que, se o resultado de 25 de outubro contrariar o que está nos preços, a alta das taxas derruba o valor dos títulos no curto prazo.

No Tesouro IPCA+, as taxas recuaram para a região de 6,5% ao ano mais a inflação, e Almeida avalia que a parte mais fácil da queda já passou.

Quem já tem o título pode vender e embolsar o ganho, dependendo da taxa em que comprou, segundo Magno. Corano sugere vender só uma parte, principalmente dos títulos mais longos. Para Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, a decisão depende do objetivo da compra. Quem comprou para aproveitar o momento tem motivos para vender ao menos uma parte, enquanto quem investiu pensando na aposentadoria não precisa se desfazer do título. Antes de vender, ele recomenda considerar o Imposto de Renda e onde o dinheiro será aplicado em seguida.

A Fator já começou a realizar o lucro. Segundo Farias, o fundo multimercado da gestora está zerando as posições que apostavam na queda dos juros e adotando mais cautela até que se conheçam as medidas e a equipe de um eventual governo Flávio.

Ainda dá para travar taxas altas?

Para quem ainda não comprou, Almeida diz que a melhor oportunidade no IPCA+ pode não ter passado, já que a média histórica das taxas desde 2005 é de 5,88%. Com uma agenda fiscal crível, ele vê bastante espaço de ganho nos títulos mais longos.

Oliveira também vê oportunidades nos vencimentos longos, inclusive de prefixados, mas lembra que esses prazos oscilam mais se a percepção fiscal piorar.

A Tivio, por enquanto, prefere ficar fora dos vencimentos mais longos. A gestora tem mais títulos de juro real do que a alocação padrão, mas em prazos intermediários, com duration de cerca de sete anos. “Alongar só faz sentido quando a gente tiver mais visibilidade de medidas críveis de ajuste fiscal”, explica Letícia.

No prefixado, o investidor precisa decidir se trava a taxa agora ou se espera o segundo turno. Magno reconhece que a eleição ainda não terminou e que o risco de virada existe, mas considera que os níveis atuais justificam a compra.

Farias pensa diferente. “Se não entrou até agora não é momento de entrar em prefixado ou renda variável, pois hoje é dia de euforia, tem muito stop, muita zeragem de posição”, disse durante o pregão de segunda. Para ele, o melhor é esperar para separar o que é reprecificação do que é ruído.

Almeida vê o prefixado como uma aposta mais direcional. Se houver virada, esse título perde mais do que o IPCA+, porque o investidor fica sem proteção contra a inflação. As taxas, perto de 13%, estão acima da média histórica, de cerca de 11,5%, mas ele recomenda colocar no prefixado uma parte menor da carteira e escolher prazos mais curtos.

Nos CDBs, o prazo para garantir as taxas atuais pode ser curto. Almeida diz que os bancos já começaram a reduzir as remunerações, e Trevisan observa que esse ajuste acompanha a curva de juros em poucos dias. Ele sugere aplicar parte do dinheiro em CDBs prefixados ou IPCA+ de prazo intermediário, emitidos por bancos sólidos e dentro do limite de cobertura do FGC, lembrando que, em geral, esses papéis não permitem resgate antes do vencimento.

E para quem prefere esperar?

Com a Selic em 13,75% e a próxima reunião do Copom marcada para 4 de novembro, depois do segundo turno, os especialistas indicam o Tesouro Selic para quem quer esperar o fim da eleição. O título não deve trazer ganhos expressivos, mas protege a carteira da volatilidade.

Farias vê os fundos multimercados em vantagem nesse ambiente, porque podem acompanhar tanto a alta da Bolsa quanto a queda dos juros locais e ainda buscar oportunidades no exterior.

Para Oliveira, o investidor deve evitar tratar o primeiro turno como eleição encerrada e cair no erro de comprar depois de uma alta forte para vender na primeira correção. “Quanto maior a euforia, maior deve ser a disciplina: diversificação, entrada gradual e atenção aos fundamentos”, afirma.

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Leonardo Guimarães
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Ângelo Pavini
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