Efeitos colaterais

Biden embarga petróleo da Rússia, elevando pressão também para Petrobras (PETR4) e inflação no Brasil; entenda

Desde o fim de semana, noticiário sobre embargo, confirmado nesta tarde, gerou uma forte alta do petróleo, com potencial efeito na estatal e nos preços

Por  Lara Rizério -

O petróleo segue seu movimento de alta, com o contrato futuro do brent para maio chegando a superar os US$ 132 o barril no início da tarde desta terça-feira (8), com alta de mais de 7%, após o presidente dos EUA, Joe Biden, anunciar embargo à compra da commodity da Rússia. Já o Reino Unido informou que eliminará gradualmente as importações de petróleo russo até o fim de 2022. Os preços chegaram a desacelerar, mas ainda com ganhos superiores a 4% para o brent nesta sessão.

Cabe ressaltar que, na madrugada da última segunda-feira (7), o petróleo chegou a flertar com os US$ 140 o barril, no maior nível desde 2008, pressionado pela possibilidade de um boicote às exportações da Rússia também pela União Europeia que, contudo, é bem mais dependente da commodity do país. A possibilidade foi afastada, o que diminuiu o salto das cotações do petróleo. Contudo, elas seguem pressionadas, e impactando os mercados globais.

A XP destacou, antes do embargo ser oficializado, que o jogo de oferta e demanda ficou ainda mais complicado, embora várias empresas já estivessem evitando comprar petróleo dos russos devido aos riscos de logísticos, de liquidação e de reputação.

Isso fez com que a diferença entre os preços do petróleo russo e o Brent aumentasse, e a China está se beneficiando disso até agora. Já players que poderiam ajudar com maior oferta, como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) e Irã, parecem estar fora de ação por enquanto.

“Toda a esperança agora está no aumento da produção de petróleo de xisto dos EUA, mas ainda não vimos nenhum movimento nessa frente”, avalia a XP.

No Brasil, o impacto dessa alta de preços é sentido na economia com o aumento da inflação, também pelos embargos a outros produtos russos e com a cadeia de produção da Ucrânia sendo bastante afetada, restringindo a oferta e elevando os preços. Nesta terça, a XP aumentou sua estimativa para a alta do IPCA ao fim deste ano em 1 ponto percentual, a 6,2%.

“O mundo já vinha se defrontando com demanda aquecida e cadeias de produção desestruturadas (…) Neste sentido, o choque adicional de custos representado pela guerra na Ucrânia tem um efeito sobre a economia global ainda maior do que numa situação ‘normal'”, disse a XP em relatório desta terça-feira, assinado por economistas e estrategistas. “Para o Brasil, o choque global significa inflação mais persistente, especialmente de alimentos e energia.”

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O time de economistas manteve projeção de que a taxa Selic chegará a 12,75% ao fim do atual ciclo de aperto monetário do Banco Central, “mas entendemos agora que o espaço para cortes (de juros) virá apenas em 2023”, no primeiro trimestre. Em cenário anterior, a XP esperava que um ciclo de afrouxamento seria iniciado em dezembro deste ano.

Na véspera, a Santander Asset já havia elevado sua estimativa para a Selic de 11,75% ao fim do ano para 12,25%, passando a ver o IPCA em alta de 5,9% ao fim de 2022 (ante projeção anterior de alta de 5,4%). O BNP Paribas também elevou suas estimativas, de 6% para 7% para o IPCA, prevendo agora a Selic a 13,25% ao fim de 2022 (ante projeção anterior de 12,25%) e caindo a 10,25% em 2023 (ante projeção anterior de 9,5%), em meio ao impacto do conflito.

Petrobras e paridade de preços

O efeito mais imediato fica ainda com a Petrobras (PETR3;PETR4), uma vez que a política de preços da companhia tem sido cada vez mais pressionada com o salto dos preços. Na véspera, as ações da Petrobras desabaram, com a empresa perdendo mais de R$ 34 bilhões de valor de mercado, em meio a uma série de notícias negativas que envolveriam mudanças (ainda que temporárias) na política da estatal de Preço de Paridade de Importação (PPI), ainda que nenhuma oficializada. Os investidores temem que eventuais alterações afetem a rentabilidade da companhia.

Pela política de PPI da Petrobras, os valores cobrados pelos combustíveis em suas refinarias devem coincidir com os de importação. Isso implica o alinhamento com o mercado internacional, somado a custos logísticos e câmbio.

Se a paridade não ocorre, a empresa compra petróleo e derivados mais caros no exterior, para cobrir os volumes demandados pelos consumidores, sem repassar essa alta às distribuidoras. O saldo, neste caso, é um prejuízo bilionário no caixa da estatal.

Entre as notícias que “azedaram” a ação da estatal na véspera, o Broadcast informou que o governo federal brasileiro estava estudando um congelamento temporário dos preços da gasolina/diesel para evitar os efeitos da guerra Rússia/Ucrânia sobre os preços na bomba no Brasil, num contexto de comentários do presidente Jair Bolsonaro de que o lucro líquido da empresa era muito alto.

Já a CNN informou que a Petrobras poderia suspender o pagamento de dividendos anunciado recentemente aos acionistas para contribuir com os subsídios aos combustíveis.

O Bradesco BBI ressalta que as especulações estavam por toda parte ontem, mas nenhuma ação concreta tinha sido tomada pelo governo.

Em relação à primeira notícia, os analistas do banco avaliam que o anúncio do governo de um congelamento temporário não seria muito lógico, pois a gestão da Petrobras já havia anunciado no resultado do quarto trimestre que não passaria a volatilidade para o mercado doméstico. Indo mais além, rotular a medida como uma decisão do governo pioraria a interpretação do mercado.

Sobre segunda notícia, isso também seria interpretado pelo mercado como interferência, pois qualquer subsídio precisaria vir do governo, e não de recursos pertencentes a acionistas minoritários. “A ideia não parece fazer muito sentido, a nosso ver”, avaliam.

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, comentou que a Petrobras não pode repassar ao consumidor brasileiro os preços em meio à volatilidade da guerra. Contudo, defendeu que a liberdade de preços da empresa deva ser respeitada, com o governo devendo anunciar um subsídio temporário para os combustíveis.

O Bradesco BBI destaca que os dividendos robustos pagos ao governo federal no ano passado podem ajudar. A questão é que os preços do petróleo estão tão altos agora que custaria ao governo cerca de R$ 6 bilhões por mês para financiar a diferença da gasolina e diesel.

“Ainda assim, o mecanismo funcionou no passado, como em 2018 [durante o governo Temer com a greve dos caminhoneiros, no caso do diesel], e as receitas do governo estão aumentando junto com os preços do petróleo. Portanto, a ideia pode fazer sentido”, avaliaram os analistas. Já o Morgan Stanley destacou que os dividendos da Petrobras poderiam financiar subsídios para combustíveis por seis meses.

Contudo, conforme destaca a XP, esse movimento também não é trivial, pois há preocupações fiscais e até legais sobre isso.

Dentre elas, conforme aponta a equipe macro da casa, ressalta-se que a receita com dividendos não é nova. O que aconteceria é que o governo estaria mudando a destinação de receitas já existentes. Isso já seria um problema, uma vez que essas vinculações estão estabelecidas em lei – no caso das receitas de royalties e participações especiais, ao fundo social e, no caso dos dividendos, ao abatimento da dívida pública. Seria necessário, portanto, alterar as vinculações por meio de outra lei.

Além disso, a segunda dificuldade é a caracterização dessa despesa fora do teto. “Em 2018, o governo Temer utilizou créditos extraordinários para atender à subvenção do diesel depois da greve dos caminhoneiros. Mas naquele caso estava claro o requisito de comoção interna/calamidade pública, uma vez que havia risco de desabastecimento de vários produtos. Utilizar créditos extraordinários na situação atual é mais difícil. Necessitaria de uma tese jurídica que abarcasse a guerra e/ou comoção interna. Ainda assim, nossa avaliação é de que é possível implementar a medida por créditos extraordinários, escapando ao teto”, aponta.

Forte defasagem

A XP destaca que a Petrobras está sem fazer reajuste há 53 dias, o que fez com que os preços da gasolina e do diesel ficassem 58% e 46% atrás do PPI, respectivamente. A empresa tem ficado atrás das principais empresas em termos de alinhamento aos preços do Brent.

“Achamos que a Petrobras não pode mais ficar sem se mexer ou alguma medida começar a ajudar o lado da estatal”, avalia.

Os analistas da casa destacam que, provavelmente, o sintoma mais notável dessa questão são os preços da Acelen (empresa criada pelo Mubadala para operar a refinaria RLAM, localizada na Bahia).

Desde o final de 2021, havia uma diferença de cerca de R$ 0,20 o litro dos preços praticados pela RLAM na Bahia versus a média da Petrobras para os estados do Norte/Nordeste.

Com a eclosão da guerra Rússia/Ucrânia, Acelen manteve os preços, provavelmente como uma abordagem de esperar para ver onde os preços do Brent aterrissariam. Mas a empresa aumentou os preços na semana passada e agora a diferença para a média da Petrobras é de cerca de R$ 1 o litro, uma diferença enorme. “Vemos essa diferença como insustentável”, apontam.

Os analistas citam a percepção de alguns investidores de que a recém-anunciada indicação pelo governo de Rodolfo Landim como novo presidente do Conselho de Administração da Petrobras foi um sinal de que a empresa voltaria a subsidiar combustíveis, incorrendo sozinha com todos os custos associados a essa mudança.

Contudo, a casa ressaltou manter a visão de que tal movimento teria que ser precedido por uma mudança no estatuto da Petrobras, o que provavelmente provocaria turbulência nos mercados financeiros brasileiros (incluindo câmbio, o que poderia acabar sendo pior para o governo).

A RLAM detém cerca de 15% da capacidade nacional de refino do Brasil, e a Petrobras subsidiando combustíveis novamente pode significar uma escassez de produtos no país (já que provavelmente a RLAM interromperia a produção ou exportaria), algo mais impopular para um governo do que os altos preços dos combustíveis, avalia a XP.

Ainda positivos? Mas espere volatilidade

Se a Petrobras tem ficado para trás em termos de alinhamento de preços com o exterior, do lado mais positivo para a companhia, apontam os analistas, isso também significa que a Petrobras pode não sofrer tanto em um cenário em que a produção de xisto dos EUA decole e os preços do Brent caiam. E, enquanto a empresa mantém o PPI (mesmo com defasagem de tempo), os dividendos continuam fluindo para o bolso dos investidores, avaliam.

“Reconhecemos o risco político, mas a valorização e o alto dividend yield (dividendo sobre o preço por ação) nos fazem manter nossa recomendação de compra para Petrobras com preço alvo de R$ 45,30 por ação PETR4”, avaliam os analistas da casa, sendo este um potencial de 42% para os ativos.

Por outro lado, os analistas do Morgan permanecem com recomendação equalweight (exposição em linha com a média do mercado) para os ADRs da Petrobras PBR, com preço-alvo de US$ 14, ainda um potencial de alta de 4,8% em relação ao fechamento da véspera.

O Morgan ressalta que a política de precificação de combustíveis da Petrobras está em destaque no Brasil, e não vê uma maneira fácil de a empresa seguir com os preços dos combustíveis para níveis de paridade enquanto o petróleo permanece em níveis altos, considerando os altos índices de inflação e a proximidade do ciclo eleitoral no país nos próximos meses.

Já a Levante Ideias de Investimentos aponta que, dada a conjuntura (guerra e ano eleitoral), trabalha com um cenário-base que envolve algum tipo de subsídio para os combustíveis, mantendo a política de preços praticada pela estatal, mas com
prejuízo para dividendos e royalties inicialmente previstos para outras destinações.

“Sendo assim, as ações da companhia devem continuar refletindo os próximos capítulos em direção ao desfecho menos favorável para os acionistas e para a equipe econômica”, afirma.

Com essas discussões no radar, as atenções também se voltam para o Congresso. A Comissão de Assuntos Econômicos  (CAE) do Senado aprovou na manhã desta terça-feira um requerimento para convidar o presidente da Petrobras, o general Joaquim Silva e Luna, a explicar a distribuição de R$ 101 bilhões aos acionistas da estatal.

Os investidores também ficam de olho em possíveis novidades sobre outros projetos que estão na pauta sobre combustíveis, o projeto de lei complementar (PLP), que trata sobre congelamento de ICMS e cortes de impostos para combustíveis, e o projeto de lei (PL) 1472 (fundo de estabilização de preços de combustíveis).

Após o tombo da véspera, as ações da Petrobras se recuperam e avançam nesta terça-feira (8), mas a expectativa é de que a volatilidade siga dando o tom para as ações da companhia, com quaisquer sinalizações de mudanças na política da companhia podendo gerar forte impacto nos papéis.

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