Americanas (AMER3): 7 questões um ano após a fraude bilionária e queda de 93% das ações

Companhia diminuiu suas operações e ações foram "deixada de lado" pelos analistas, que seguem céticos sobre futuro mesmo com desdobramentos mais positivos dos últimos meses

Lara Rizério | Vitor Azevedo

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11 de janeiro de 2023, 18h32. Naquele momento, em que a Americanas (AMER3) arquivou na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) fato relevante levando a público inconsistências contábeis bilionárias, a história da varejista mudou completamente.

De uma empresa que sofria dificuldades como o setor em geral, mas que tinha cobertura de analistas e havia projeções positivas com uma nova gestão, ela passou a sofrer escrutínio do mercado, viu suas ações derreterem, impactou o mercado de crédito, levou a muitas dúvidas sobre a governança corporativa e agora é pouco acompanhada por especialistas do setor, que ainda veem um futuro bastante incerto para a varejista. Abaixo, relembramos os principais eventos neste último ano de Americanas em seis perguntas e respostas e também o que esperar para as ações. Confira:

  1. O que desencadeou a crise na Americanas?

Na noite do dia 11 de janeiro de 2023, a Americanas comunicou inconsistências contábeis no valor de R$ 20 bilhões. No mesmo dia, os recém chegados CEO Sergio Rial e o CFO André Covre renunciaram aos cargos. Já no dia seguinte ao comunicado (12), as ações caíram 77%, passando de R$ 12 para R$ 2,72 e perdendo R$ 8,34 bilhões de valor de mercado, já com a percepção de que a companhia enfrentaria muitas dificuldades por conta do rombo. No dia 19 de janeiro do ano passado, a varejista oficializou o seu pedido de recuperação judicial, sendo excluída de 14 índices da B3. No dia 20, a ação chegou a R$ 0,79, virando uma penny stock. Em um ano, a queda é de 93%, com os ativos fechando a sessão da última quarta-feira a R$ 0,84 e valendo R$ 776 milhões.

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Confira o gráfico que ilustra a queda das ações em um ano:

Dos R$ 12 aos R$ 0,84: a queda de 93% das ações da Americanas em um ano (Fonte: InfoMoney)

As inconsistências contábeis ocorreram uma vez que o “risco sacado não era lançado como dívida”, ou seja, a dívida da companhia era muito maior. O risco sacado (ou confirming, forfait e desconto de títulos) é uma operação de antecipação de valores que os fornecedores, normalmente de grandes companhias, têm a receber. Como muitas operações de venda para varejistas e indústrias significam pagamentos de 30, 90 ou até 180 dias, esses fornecedores acabam por antecipar os recebíveis com os bancos, que assumem o papel de credor da indústria ou varejista compradora.

Para apurar as inconsistências, chegou a ser instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara dos Deputados, sendo que a própria Americanas disse ter indícios de que uma fraude no resultado tenha ocorrido, e citou nominalmente alguns ex-diretores, mas não houve imputação aos responsáveis pelo rombo na ocasião. Em novembro, o atual CEO da companhia, Leonardo Coelho, disse que  o que ocorreu na Americanas foi um processo de fraude “complexo” e “engenhoso”, alimentado por “feudos” dentro da organização – ou seja, grupos de executivos dentro do organograma corporativo da varejista, com o tamanho total apurado totalizando R$ 22,5 bilhões.

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2. Quais as lições que o mercado teve após esse acontecimento?

“Todo escândalo que gere uma certa fragilidade no mercado tende a chamar a atenção e acende um sinal vermelho quanto a possíveis mudanças em torno de afugentar ou prevenir novos problemas. Certamente, se não ocorrerem alterações ou mudanças nos termos de regulação ou governança a partir desse evento, os investidores e o mercado como um todo deverão ficar mais atentos a esse ponto durante as análises das empresas”, avalia Sandra Peres, diretora de relações com empresas da APIMEC Brasil.

Para Thiago Figueiredo, gestor e diretor de investimentos da Intrabank, no caso da Americanas, houve uma melhora por parte de auditores e analistas de mercado na análise das operações de crédito entre empresas e fornecedores. “A operação sacado sempre existiu, mas graças um evento destas proporções, o mercado hoje está mais preparado para analisar o impacto desta operação dentro dos balanços das empresas”, avalia. Breno Miranda, presidente do Instituto Brasileiro da Insolvência, vê que as empresas de auditoria passarão a ser mais rigorosas na verificação dos dados e informações das empresas, com um filtro das auditorias de maior confiabilidade.

3. Quais os próximos passos após a aprovação do plano de recuperação judicial da companhia?

Após muitas idas e vindas, a companhia teve o seu plano de RJ aprovado no apagar das luzes de 2023. Com a aprovação, a empresa receberá uma capitalização de R$ 24 bilhões, composta por um aporte de R$ 12 bilhões dos acionistas de referência, Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira, e outros R$ 12 bilhões resultantes da conversão de dívidas em capital próprio por parte dos credores financeiros, majoritariamente bancos, que apoiaram o plano. A emissão das novas ações seguirá o critério de 1,33 vez o preço médio ponderado pelo volume de negociação nos últimos 60 dias, resultando em um valor de conversão de R$ 1,30, considerando a aprovação do plano ontem. Adicionalmente, será oferecido um bônus de subscrição para cada três ações emitidas. O plano da Americanas ainda contempla a possibilidade de vender as operações de varejo digital e da Ame, instituição de pagamento utilizada no e-commerce.

4. Qual o tamanho da empresa hoje?

De acordo com o último relatório do administrador judicial, divulgado no início de dezembro, o número total de lojas era de 1.759, correspondendo a 93,4% do período anterior ao deferimento da recuperação judicial. O número total de funcionários da Americanas era de 33.861, ante 43,2 mil em janeiro de 2023, mas a empresa diz que a redução líquida é de 5 mil empregados ao excluir os efeitos típicos sazonais do varejo, que contrata funcionários temporários no fim do ano.

5. A empresa conseguirá atingir suas metas para 2025?

A Americanas reapresentou seus resultados e demonstrações financeiras de 2021 e 2022 em meados de novembro de 2023, reportando um prejuízo de R$ 6,2 bilhões em 2021, enquanto 2022 terminou com prejuízo de R$ 12,9 bilhões. O lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda, na sigla em inglês) de 2021 foi para R$ 3,4 bilhões negativos e o de 2022 ficou negativo em R$ 6,2 bilhões. Junto com a apresentação dos números de 2021 e 2022, a companhia revelou as previsões para 2025, que incluem Ebitda de mais de R$ 2,2 bilhões, com uma alavancagem medida pela relação dívida líquida/Ebitda menor de 0,75 vez. Também projeta reduzir drasticamente sua dívida bruta para algo em torno de R$ 1 bilhão e R$ 1,5 bilhão, ou seja, uma forte redução de até 97%. A empresa é agora uma rede de varejo mais enxuta, que aposta nas lojas físicas para sobreviver.

Analistas veem as metas da varejista com cautela. Enquanto Sandra Peres vê que há vários desafios para que a companhia atinja as suas projeções para 2025, Breno Miranda avalia que, diante do cenário do varejo, mesmo com o plano de equalização de passivo tendo sido aprovado, ainda mostra-se precoce ao mercado como um todo afirmar se alcançará a projeção estimada. “Certamente dependerá de novas estratégias de negócios e de imagem”, aponta.

6. Cenário macroeconômico pode beneficiar a companhia em 2024 ou cenário seguirá desafiador? Qual a situação das concorrentes?

2023 foi especialmente difícil para a Americanas, mas também para o setor em geral, em meio a um cenário macro desafiador de juros altos nos últimos anos, somado ao aumento da concorrência com o fortalecimento de estrangeiras no mercado. “O cenário continua bastante desafiador, não só para a Americanas, mas para todo o setor. O início do corte de juros pode ajudar nesse cenário; no entanto, mesmo com esse alívio, a persistência de juros elevados continua sendo um desafio para os consumidores e os varejistas”, avalia Sandra Peres.

A analista ressalta que, mesmo com as dificuldades da Americanas, as empresas de varejo interno não vêm absorvendo talvez a demanda não atendida por ela. Levando em conta que as empresas vêm tentando melhorar suas margens, a dificuldade está em rentabilizar as lojas físicas, já que o faturamento vem enfrentando problemas devido à dificuldade do cenário macroeconômico e também a questões de outras companhias como Magazine Luiza (MGLU3) e Casas Bahia (BHIA3). Dessa forma, mesmo com a Americanas vendo sua participação nas vendas online cair de 13% no fim de 2022 para 4,3% no pior momento de 2023, grande parte dessa demanda está indo principalmente para as companhias estrangeiras, como a Amazon e o Mercado Livre, aponta.

7. Vale a pena comprar ações?

A companhia dará seus próximos passos com a aprovação do plano de recuperação judicial para a reestruturação de suas dívidas e equacionamento de suas operações. Contudo, analistas de mercado seguem bastante cautelosos e não recomendam exposição aos papéis. Cabe destacar ainda que, com as grandes incertezas sobre o ativo, diversos bancos não acompanham mais AMER3 ou estão com os ativos sob revisão, à espera de mais clareza sobre o futuro da companhia.

“Apesar dos passos importantes dados pela Americanas nos últimos meses, existem riscos elevados relacionados à reestruturação operacional, além de um cenário macroeconômico desafiador para o segmento de e-commerce, e uma competição bastante acirrada com players estrangeiros. Tais fatores devem continuar impactando fortemente o ativo, que já está bastante volátil, de modo que mantemos nossa cobertura de AMER3 em revisão”, avalia a Levante Corp. Para Sandra Peres, mesmo com seu plano de recuperação judicial aprovado, ela precisa provar trimestre por trimestre a melhora de seus resultados, revertendo sua situação mesmo após ter fechado diversas lojas e com expectativa de venda de alguns ativos. Desta forma, os riscos continuam muito elevados em relação a um possível retorno.

Lara Rizério

Editora de mercados do InfoMoney, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional, além de ficar bem de olho nos desdobramentos políticos e em seus efeitos para os investidores.