5 ações que deixaram a B3 em 2022 e os papéis que devem desembarcar da Bolsa no ano que vem

Número de empresas listadas na Bolsa volta a cair em 2022 depois de dois anos de crescimento

Mitchel Diniz

B3 Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo (Germano Lüders/InfoMoney)

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Em 2022, a quantidade de empresas com ações na Bolsa brasileira voltou a cair, interrompendo, assim, dois anos seguidos de crescimento nesse número. A B3 contava com 449 companhias listadas até novembro deste ano, de acordo com os dados operacionais mais recentes – 14 a menos que ao final de 2021, quando a Bolsa tinha 463.

Na janela de ofertas públicas de ações (IPOs, na sigla em inglês) entre 2020 e 2021, 73 ações estrearam na B3. As listagens foram estimuladas por um momento em que as taxas de juros estavam historicamente baixa e os investidores buscavam por opções mais rentáveis. Para completar, a Bolsa brasileira vinha de um tombo por conta da pandemia da Covid-19 e oferecia muitas pechinchas.

Em um ano, o cenário se inverteu por completo. Com os juros saltando da casa dos 2% para próximo de 14%, o investidor optou pela segurança da renda fixa e a volatilidade da Bolsa não ajudou. Ano de eleição no Brasil, guerra na Ucrânia, inflação em alta nos Estados Unidos e o ciclo de aperto monetário nas nações desenvolvidas reforçaram as incertezas, em um mundo que ainda não se livrou por completo da pandemia.

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Filipe Ferreira, diretor financeiro da ComDinheiro, explica que, como muitas empresas perderam bastante valor de mercado, fica mais vantajoso para algumas companhias recomprarem suas ações. “São empresas que enxergam que tem mais valor do que o mercado está precificando”, afirma.

“Empresas que têm muito caixa, eventualmente captaram esses recursos lá atrás no IPO. Elas navegaram esses dois anos da onda, mas hoje estão até 25% abaixo do valor da oferta público inicial. Com dinheiro em caixa, elas têm condições de fechar capital”.

Além disso, empresas excessivamente descontadas têm mais chances de receber a oferta de um comprador para fechar o capital. É o caso da Boa Vista Serviços (BOAS3), agência de crédito que deverá sair da B3 no ano que vem ao combinar negócios com a americana Equifax. A adquirente vai pagar um prêmio de 70% sobre o valor das ações da companhia.

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“É o caso de um player estratégico que entende que aquele descolamento de preço com o mercado não faz sentido e faz uma oferta para o fechamento de capital”, diz Ferreira.

Veja a seguir quais foram as 5 principais empresas que deixaram de ser listadas na B3 em 2022 e por quais motivos elas deixaram a Bolsa.

Americanas unificou base acionária, eliminando LAME da Bolsa

Logo no começo do ano, duas ações “sumiram” da B3. Os papéis LAME3 e LAME4, da holding Lojas Americanas, deixaram de ser negociados na Bolsa brasileira em 24 de janeiro. A varejista unificou as bases acionárias e passou a negociar somente os ativos da Americanas S.A (AMER3), junção com a B2W, braço de e-commerce da companhia.

Detentores das LAME receberam papéis AMER3 e tiveram a opção de embolsar um pagamento em dinheiro, direito exercido por 2,9 milhões de detentores da ação LAME3, que receberam R$ 5,49 por papel.

Já na conversão, cada ação LAME3 ou LAME4 equivaleu a 0,188964 do papel AMER3. A varejista, inclusive, chegou a emitir novos papéis para troca.

Ao eliminar a estrutura da holding, a participação do grupo controlador da companhia foi reduzida, tornado a Americanas S.A uma corporation, o que era demandado por muitos investidores, visando uma melhor governança para a companhia.

NotreDame Intermédica: uma só Hapvida

As ações GNDI3, do Grupo NotreDame Intermédica, deixaram de ser negociadas na B3 no dia 14 de fevereiro. Os negócios da empresa foram combinados com os da Hapvida ([ativa=HAPV3]), refletindo um movimento de consolidação de empresas do setor de saúde.

A megafusão criou uma operadora com 14  milhões de usuários de planos de saúde dental, equivalente a 18% do mercado nacional. O negócio foi aprovado sem restrições pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), por ter pouca sobreposição. Enquanto a Hapvida é mais forte nas regiões Norte e Nordeste, a Intermédica tem maior representatividade no Sudeste.

Para cada papel GNDI3, o acionista recebeu 5,2436 ações da Hapvida e também teve direito a uma parcela-caixa de R$ 5,126 por papel, além de um dividendo extraordinário de R$ 1,613.

Antes do fechamento da transação, as ações das duas companhias despencaram com projeções de sinergias estimadas em R$ 1,38 bilhão para o período de 2022 a 2024, aquém do esperado.

Até hoje, a integração entre Hapvida e NotreDame está no radar do investidor e é vista como complexa. Irlau Machado, ex-presidente da Intermédica, renunciou do cargo de co-CEO da Hapvida, provocando uma reação negativa dos investidores. Na fusão o acordado era que Machado e Jorge Pinheiro, da Hapvida, dividiriam o comando da empresa por dois anos. Irlau Machado é considerado figura-chave no processo de integração de operação, estratégia e também de culturas.

Contudo, a notícia posterior de que Irlau permanecerá no conselho de administração e coordenará os comitês de Governança & Integração e Meio Ambiente & Social da empresa amenizou os ânimos dos investidores. Analistas têm cortado projeções para a ação da Hapvida, enxergando alguns ventos contrários, mas ainda veem potencial de valorização para os ativos.

Focus Energia: combinação de negócios com a Eneva

Em dezembro de 2021, a Eneva (ENEV3) celebrou um acordo para combinar negócios com a Focus Energia, empresa à época negociada na B3 com o ticker POWE3. Ficou acertado que a Focus seria incorporada pela Eneva, com a subscrição privada de debêntures não conversíveis da empresa adquirida.

A operação custou R$ 960 milhões à Eneva, que deu um passo adentro no universo das energias renováveis com a aquisição e reforçou sua posição na comercialização de energia.

“A transação permitirá à Eneva diversificar suas fontes de geração e modelos de negócio, em linha com sua estratégia de crescimento para liderar uma transição energética justa e inclusiva, com energia mais limpa, econômica e eficiente”, afirmou o CEO da empresa, Pedro Zinner, em comunicado na época.

A Focus foi incorporada por uma holding da Eneva, criada com esse propósito.

As ações POWE3 deixaram de ser negociadas no dia 12 de março de 2022. Os acionistas da Focus receberam 0,189616054 novas ações da Eneva para cada ação ordinária da Focus – totalizando 17 milhões de novas ações ordinárias da Eneva.

A Focus Energia passou pouco mais de um ano listada na Bolsa brasileira. Suas ações estrearam em 5 de fevereiro de 2021, em uma oferta que captou R$ 765 milhões. Os recursos foram direcionados à construção do complexo de energia solar Futura, na Bahia. Porém, a companhia precisou trocar de fornecedor no meio do processo, o que elevou os investimentos previstos do projeto em meio bilhão de reais.

No último mês de julho, a Eneva informou ter contrato um financiamento de R$ 300 milhões com o Banco do Nordeste (BNB) para a construção do projeto.

Mosaico: empresa foi incorporada pelo Banco Pan

As ações MOSI3 deixaram negociadas desde o dia 23 de março na B3. A empresa, dona dos buscadores de oferta Zoom, Buscapé e Bondfaro, foi comprada pelo Banco Pan (BPAN4), em operação anunciada em outubro de 2021. O objetivo da fintech, controlada pelo BTG Pactual (BPAC11), foi acelerar sua estratégia de marketplace com a aquisição.

A operação foi aprovada pelo Cade sem restrições. À época, a aquisição foi bem avaliada pelos analistas do mercado financeiro e as ações de ambas as companhias dispararam.

Os ativos da Mosaico foram incorporados pelo Pan. Os acionistas que possuíam os papéis MOSI3 – e decidiram continuar investindo – receberam 0,8 ação BPAN4 por cada ativo da companhia. Também receberam bônus de subscrição do banco.

As ações MOSI3 tiveram vida curta na B3. Os papéis estrearam em fevereiro do ano passado na Bolsa brasileira e praticamente dobraram de valor no dia do IPO, que levantou R$ 1,2 bilhão. A operação foi considerada a melhor estreia de uma empresa na Bolsa em dez anos.

Sete meses depois, MOSI3 estava valendo 75% menos do que a precificação da oferta inicial. A empresa conseguiu surfar bem a onda positiva do e-commerce durante a pandemia, mas logo viu seus números se deteriorarem. Não demorou muito para o papel perder o status de “queridinho” entre os analistas.

A compra da Mosaico pelo Banco Pan recebeu avaliações positivas do mercado, como uma chance de transformar a empresa em uma plataforma de originação de vendas mais robusta.

Banco Inter trocou a B3 pela Nasdaq

Em 20 de junho deste ano, o Banco Inter deixou a carteira do Ibovespa para ingressar na Nasdaq como Inter & Co, sociedade para qual a base acionária foi migrada. A migração fez parte de uma reorganização societária, visando a expansão dos negócios no exterior e buscando acesso em um mercado de capitais mais maduro, com fundos especializados.

Os papéis estrearam na Nasdaq no dia 23 de junho. Em Nova York, a Inter & Co tem dois tipos de ação: a classe A, que dá direito a 1 voto por papel; e a classe B, detidas por acionistas controladores da holding. É uma super share que dá direito a 10 votos em tomadas de decisão.

Atualmente, o Inter possui BDRs nível 2 negociados na B3, sob o código INBR32, lastreados nas ações classe A, e segue com registro de companhia aberta na CVM.

No âmbito da reorganização societária, o acionista do banco pôde optar pela conversão de ações em recibos de ações (BDRs) ou pelo exercício de direito de recesso com recebimento em dinheiro (cash-out).

O Inter justificou sua decisão de migrar a base acionária citando uma regulamentação do Banco Central. O BC exige que instituições financeiras brasileiras sejam obrigadas a ter um acionista controlador ou grupo de controle definido. A legislação também não permite que companhias emitam ações preferenciais sem direito a voto, que excedam 50% do seu capital social total.

O controlador do Inter detinha 53,1% do total das ações ordinárias e 8,9% das ações preferenciais do banco com uma participação total no capital social de 31,1%. Isso limitava a capacidade da empresa obter capital adicional para financiar estratégias de crescimento, sem que isto resultasse em diluição da participação de seu acionista controlador para patamar abaixo de 50% do capital votante.

Antes da deslistagem, as units do Interque eram negociadas com ticker BIDI11, acumulavam queda de mais de 60% em 2022.

Empresas que devem deixar a B3 em 2023

Já no mês de janeiro, a Bolsa deve se despedir dos papéis da brMalls (BRML3), que serão incorporados à Aliansce Sonae (ALSO3).

Cada ação ordinária de emissão da brMalls dará direito ao recebimento à vista de R$ 1,62899410177968 e a fração de 0,398551577675763 da ação ordinária de emissão da Aliansce Sonae. O montante em dinheiro será pago no dia 20 de janeiro do próximo ano.

As novas ações de emissão da Aliansce Sonae entregues aos acionistas da brMalls passarão a negociar em Bolsa no dia 9 de janeiro de 2023.

Outro papel que deve ser deslistado é o da SulAmérica (SULA11), adquirida pela Rede D’Or (RDOR3), em uma operação recém-aprovada pelo Cade. O acordo para incorporar a seguradora foi anunciado em fevereiro deste ano pela Rede D’Or e avalia a SulAmérica em R$ 15 bilhões.

Quando a operação for concluída, a holding Sasa, que controla a SulAmérica, vai ser extinta, e a base acionária da companhia migrará para a Rede D’Or. Na incorporação, os acionistas da seguradora devem ficar com 13,5% do capital social da combinação dos negócios.

Ainda no setor de saúde, mas na parte de laboratórios, outra grande fusão esperada para o ano que vem é a compra do Hermes Pardini (PARD3) pelo Fleury (FLRY3). A operação foi aprovada pelos acionistas de ambas as companhias no último mês de agosto.

Na incorporação, os acionistas do Hermes Pardini devem receber 1,21 ação ordinária do Fleury, mais um pagamento em dinheiro de R$ 2,15 por cada papel da empresa adquirida.

No setor de óleo e gás, é a Dommo (DMMO3) que deve dar adeus à B3 em 2023. A empresa vai ser incorporada pela PRIO (PRIO3), em uma operação já aprovada pelos acionistas das duas petroleiras.

O acionista da Dommo poderá receber R$ 1,85 por papel DMMO3 ou trocar por 0,05 ação da OPCO, subsidiária da PRIO que vai adquirir a companhia.

Antiga OGX, de Eike Batista, a Dommo tem 20% do campo Tubarão Martelo, na Bacia de Campos (RJ), mas não possui caixa para extrair petróleo da região. A área atualmente é controlada pela PRIO.

Em fato relevante, agora em dezembro a PRIO informou ter conseguido aprovação das autoridades da Áustria para seguir com a incorporação.

A GetNet (GETT11) é outro papel prestes a deixar a Bolsa brasileira em 2023 – mas não por conta de um processo de fusão ou aquisição. No começo do mês, a empresa conclui um processo de oferta pública de aquisição para cancelamento de registro no Brasil e nos Estados Unidos.

A PagoNxt, controladora da companhia, propôs o preço de R$ 4,72 por Unit para comprar os papéis em circulação no mercado. O preço é o mesmo com que a empresa chegou à B3, em fevereiro de 2021, após cisão com o Santander, seu antigo controlador.

De acordo com os analistas, a empresa sempre teve um problema de liquidez. Segundo eles, mesmo tendo sido negociada, por um tempo, em múltiplos semelhantes ao Santander Brasil, falhou com o objetivo da cisão, de destravar valor para o grupo.

As ações da Getnet deixarão de ser negociadas na B3 após a CVM autorizar o fechamento de capital da empresa de maquininhas de cartão.

Mitchel Diniz

Repórter de Mercados