Saramago, a votação de domingo e a importância de acompanhar os eleitos

Se você quer alcançar o seu bem-estar financeiro, você também quer que a saúde financeira da sua cidade esteja em dia, não é?

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Em uma capital imaginária, de um país imaginário, chove torrencialmente e as ruas estão completamente alagadas. É dia de votação, mas pouquíssimos eleitores aparecem.

Além disso, quando as urnas são contadas, os pesquisadores descobrem que mais de 70% dos votos estão em branco.

Os poucos votos válidos não são suficientes para dar total legitimidade ao partido vencedor. Após um período de confusão, o governo organiza uma nova eleição, na esperança de que os cidadãos exerçam o seu dever cívico e votem adequadamente.

Mas o número de votos em branco desta vez é de 83%, o que lança a capital em uma imensa desordem. O clima de conspiração aumenta.

Essa é a cena de um livro de José Saramago, chamado Ensaio sobre a lucidez. Nesse poderoso romance, o autor faz uma alegoria sobre a fragilidade dos rituais democráticos, do sistema político e das instituições que nos governam.

Nós reconhecemos esse sentimento, porque de alguma maneira crescemos ouvindo isso. Talvez você tenha desde sempre visto pessoas que falam das eleições e da política com indiferença ou mesmo com desconfiança, com descrença.

Talvez porque parece que, afinal de contas, os líderes eleitos mudam, mas poucas coisas mudam de fato entre as eleições.

É difícil para nós, os cidadãos comuns, confiarmos em um sistema que historicamente não tem servido aos interesses da maioria em desvantagem.

E, para piorar, parece que durante as campanhas eleitorais somos cortejados para depois sermos ignorados no resto do tempo.

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A cena do livro do Saramago me veio à cabeça na manhã do último domingo, quando me dirigi à votação. Entendo, valorizo e respeito o direito cívico de votar, conquistado por meio de um longo processo.

É bom lembrar que a democracia, por mais falha que ainda seja, é uma conquista da nossa sociedade. Em outros tempos, não tínhamos nem sequer o direito de escolher por voto nossos governantes.

Então, se somos parte desse processo, podendo eleger por voto quem lidera a República, o estado e o município, por que não acompanhar também esses eleitos durante seu mandato?

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Se você contrata alguém para trabalhar com você, vai querer acompanhar os resultados dessa pessoa, certo? Votar é importante, mas acompanhar o que está sendo feito é mais importante ainda.

Qual foi a vereadora ou o vereador em que você votou nesta eleição? Ela ou ele foi eleita(o)? A partir de janeiro de 2021, convido você a exercer seu papel de cidadão para além do voto, acompanhando o trabalho da(o) sua(eu) vereadora(o), por exemplo.

O vereador trabalha no Poder Legislativo. Pode criar, extinguir e emendar leis, da maneira mais adequada ao interesse público. E essas leis podem, é claro, afetar as finanças do município.

Uma vereadora ou um vereador pode propor a mudança, a criação ou a extinção de tributos municipais, por exemplo. Também aprova os documentos orçamentários do município.

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Para além de tratar as leis do seu município, o vereador fiscaliza e cobra as ações da prefeitura. Seu vereador ou sua vereadora pode fiscalizar as contas da prefeitura. Pode inclusive garantir que estão usando o dinheiro da forma correta. Pode inibir que existam obras superfaturadas, por exemplo.

Se você quer alcançar o seu bem-estar financeiro, você também quer que a saúde financeira da sua cidade esteja em dia, não é?

Votar é uma expressão de solidariedade, especialmente quando nossas escolhas eleitorais são baseadas não apenas no interesse próprio, mas no bem-estar coletivo.

Votar é nosso dever no contrato social, uma forma de conduzir a República em uma direção que reflita com precisão a vontade de todos os seus cidadãos. Acompanhar o trabalho dos eleitos também é nosso dever.

Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @psifinanceiro