Conheça as 5 alavancas do endividamento

Questões culturais, sociais e psicológicas afetam a tomada de decisão e a propensão a se endividar; confira quais elas são

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Por que algumas pessoas se endividam e outras, em condições econômicas semelhantes, não possuem o mesmo comportamento? Será que hoje em dia está mais fácil se endividar do que antigamente? Existem questões sociais, psicológicas e comportamentais capazes de apontar quem tem maior propensão a se endividar, para além das razoes econômicas óbvias, como a renda?

Tive a oportunidade de estudar o fenômeno do endividamento em minha pesquisa de mestrado na FGV. O trabalho de campo junto à experiência de revisão de literatura acadêmica ajudou a entender esse fenômeno.

Em primeiro lugar, na maioria dos casos, o problema é sim de ordem econômica. Famílias com renda mais baixa, em média, possuem maior número de filhos, empregos precários e costumam enfrentar problemas financeiros mais graves.

Porém, existem questões que vão além da falta de dinheiro e maior vulnerabilidade social. São questões culturais, sociais e psicológicas que afetam a tomada de decisão e a propensão a se endividar.

Neste artigo, trago as cinco principais alavancas para o endividamento, pautadas nos estudos de inúmeros autores, entre eles Stephen Lea, George Katona e pela ilustre Profª. Vera Rita de Melo, brasileira pioneira na Psicologia Econômica:

1. Socialização Econômica

A forma como sua família tratava o dinheiro na sua infância foi determinante para muitas das atitudes financeiras que você tem hoje. Busque reconhecer padrões de crenças e comportamentos negativos com o dinheiro na sua família e entenda se você está repetindo esses padrões.

2. Aceitação Social

Em muitos grupos, a dívida é encarada como algo natural, e não como algo grave e que deva ser solucionado. Foi comprovado que a aceitação social do endividamento é um dos principais fatores para que ele seja minimizado e adotado pelas pessoas. Você acha que é normal ficar com dívidas?

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3. Comparação Social

Existe um conceito chamado de grupo de referência, que é o grupo social que você se sente pertencer. Você e sua família acabam adotando os padrões de gastos desse grupo. Agora, se esse padrão de gastos está acima da sua renda, existe uma certa pressão natural para que você se adapte aquele modelo, o que resulta em: dívidas!

4. Comportamento de Consumo

O desejo, segundo a psicanálise, não apenas nos move, como também nunca pode ser plenamente satisfeito. Até mesmo fazer a distinção entre desejo e necessidade é um desafio para a maioria das pessoas. O que é luxo para algumas pessoas é urgente e essencial para outras, certo?

5. Horizonte temporal individual

Esse é provavelmente o mais importante e, ao mesmo tempo, um conceito muito variável de pessoa para a pessoa.

O horizonte temporal é, em outras palavras, a capacidade (ou não) de uma pessoa adiar a gratificação. Todo esforço que você faz hoje é em busca de uma recompensa no futuro. Então, você se esforça e “paga” hoje para receber depois.

Esse é um princípio do funcionamento da nossa mente. Existem inconsistências graves na forma como fazemos decisões financeiras temporalmente.

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Você pode pensar, por exemplo, que o gasto que pretende fazer hoje poderá ser compensado por cortes nos gastos no futuro. Mas, na maior parte das vezes, esse corte não será feito.

Bom, mas qual é o maior problema do endividamento? É pagar juros compostos. Quando você paga juros é como se tivesse pagando uma espécie de pedágio por dever aquele dinheiro. Sua dívida cresce a cada dia que a dívida não é paga e essa “corrosão” do seu dinheiro destrói não apenas suas finanças, mas também sua saúde mental, autoestima e relações familiares.

Independentemente da alavanca que te leva ao endividamento, geralmente existe uma dificuldade muito grande dos endividados de abordarem sua condição. Falar de dinheiro é um tabu e falar de endividamento é outro maior ainda.

Embora a saída ideal para quem está endividado seja entrar em contato com os credores e negociar suas dívidas, não é isso o que acontece.

Principalmente no Brasil, observamos que quem está endividado prefere pedir ajuda para amigos ou família, ou até mesmo fazer novos empréstimos em pequenas financeiras ou agiotas, o que tem um risco ainda maior de agravar a situação.

Se você está nessa condição de endividamento, independentemente do valor e da sua capacidade de pagamento, encare de frente o problema e execute um plano para renegociar o que deve. Muitos credores aceitam boas condições de renegociação, permitindo que você consiga sair dessa situação e possa ter uma maior paz financeira.

Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @papaifinanceiro