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Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem – e os olhos veem o que querem

Os vieses cognitivos nos levam a evitar as informações que podem ser potencialmente desconfortáveis e até a enxergar conexões entre ideias que não necessariamente existem

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“Cada um de nós vê o mundo com os olhos que tem, e os olhos veem o que querem”: assim escrevia o português José Saramago, Nobel de Literatura e autor de “Ensaio sobre a Cegueira”, entre outras obras-primas.

Nosso olhar sobre o mundo é distorcido, enviesado pela maneira que damos significado às coisas, pelo contexto em que fomos criados, pela situação atual que estamos vivendo.

Mas você sabia que, acima de tudo, nossos olhares para as situações da vida são influenciados por nossos vieses cognitivos?

Os vieses cognitivos afetam a maneira como pensamos, julgamos e tomamos decisões. E eles dificultam a maneira como nosso cérebro interpreta informações e nos impedem de tirar conclusões corretas sobre as coisas.

Um viés cognitivo pode distorcer nosso pensamento crítico, nos levar a perpetuar erros ou compartilhar informações equivocadas que podem, inclusive, ser prejudiciais para outras pessoas.

Os vieses cognitivos nos levam a evitar as informações que podem ser potencialmente desconfortáveis e até a enxergar conexões entre ideias que não necessariamente existem.

Um exemplo atual é o negacionismo em relação à pandemia que uma parte da população insiste em manter.

Funciona assim: a pandemia é uma situação dura e indesejada. A realidade de privações e perigo que ela expõe é difícil de ser aceita. Assim, uma parte das pessoas acaba se apoiando em uma narrativa falsa de que o isolamento social é desnecessário, por exemplo. Basta alguém que tenha alguma autoridade dizer o que a pessoa gostaria de ouvir e, pronto, “verdade” aceita.

Esse é o viés da confirmação, que nos faz acreditar no que gostaríamos que fosse verdade, mas não é. É o equivalente a você acreditar que vai ganhar dinheiro fácil e rápido com alguma promessa da internet. É o que você gostaria que fosse possível, é o que todo mundo gostaria que fosse possível. Mas, é possível?

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Conheça os quatro vieses cognitivos mais comuns e que você deve ficar atento:

1. Viés de Confirmação

Já falei dele, mas vale reforçar, pois é um dos mais prejudiciais. Esse viés te leva a buscar informações que confirmem algo que você já acredita.

O viés da confirmação é tão pernicioso que te faz lembrar dos seus acertos e esquecer dos seus erros. Essa é uma falha perigosa do raciocínio humano.

Com o seu dinheiro funciona assim: você está em um dia mais desafiador, resolve almoçar e fazer um passeio no shopping. Assim que passa por uma vitrine e vê a “promoção” de uma cadeira massageadora, você pensa: “essa promoção foi feita pra mim, como eles sabiam que eu estava precisando me desestressar?”. Então você compra a cadeira sem nem considerar que ela não cabe na sua sala.

2. Viés da Disponibilidade

Como falei no início do texto, nosso repertório de vida influencia nossas decisões. Quando tomamos alguma decisão, temos a tendência a usar as informações que podemos lembrar mais facilmente, que estão mais disponíveis e ao nosso alcance.

Na prática, esse viés nos faz ignorar soluções ou opiniões diferentes das que temos e reduz nossa capacidade de acerto.

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O viés da disponibilidade nos faz superestimar as informações que temos e subestimar as informações que não temos.

Um exemplo simples e clássico é quando ocorre a queda de um avião. Esse é um evento tão raro que, quando ocorre, é notícia internacionalmente. E a notícia é tão impactante que faz você ter medo de voar de avião, mesmo sabendo que estatisticamente seria muito melhor você se preocupar em usar capacete quando vai andar de bicicleta.

É quando você fica interessado em fazer suas apostas na lotérica que acabou de ter um bilhete premiado. É quando você embasa suas decisões de investimentos generalizando poucas amostras disponíveis, desconsiderando riscos e ampliando sua propensão ao erro.

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3. Viés da Ancoragem

O viés de ancoragem, também conhecido como efeito de ancoragem, acontece quando você confia demais, ou “ancora” um julgamento na primeira informação que você recebe. Todos os julgamentos ou opiniões na sequência se baseiam nessa “âncora”.

Em finanças, um exemplo clássico é o pagamento mínimo do cartão de crédito. Estudos indicam que as pessoas que não quitam a dívida do cartão tendem a pagar valores sempre muito próximos ao mínimo.

Mas a principal ancoragem que o seu dinheiro sofre é no consumo mesmo. Qual oferta é mais tentadora: (a) “por apenas R$ 200” ou (b) “de R$ 500 por apenas R$ 200”? A oferta (b) te dá a sensação de economizar R$ 300 pois foi nesse valor de R$ 500 que você foi ancorado. A ancoragem de preços é uma das técnicas mais antigas de venda.

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4. Efeito Halo

É quando pessoas, entidades e marcas são mais importantes do que a mensagem em si. Qual o peso de uma mensagem proferida pelo Papa? Independentemente da sua religião, você provavelmente vai prestar mais atenção ao que ele fala do que a alguém que você não admira.

Estudos indicam que a mesma mensagem dita por pessoas diferentes tem um impacto estrondoso em como as pessoas entendem essa mensagem. Mais importante do que a mensagem é o emissor dela.

Acontece muito quando você compra um produto de uma marca, tem uma experiência muito boa com ele e depois tende a comprar outros produtos da mesma marca. Mais importante do que o produto está a marca dele?

Existem dezenas de outros vieses cognitivos. Acabamos os utilizando como atalhos mentais para poupar o nosso cérebro. Na prática, os vieses te levam a cometer erros de interpretação e a tomar decisões erradas continuamente. Decisões que prejudicam, inclusive, a sua situação financeira.

Como estas são mecânicas automáticas do cérebro, o melhor que você pode fazer é aprender sobre esses vieses cognitivos e tentar identificar quando algum julgamento que você estiver fazendo possa estar distorcido.

Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @papaifinanceiro