Montadoras perdem quase R$ 20 mil por carro vendido na pandemia

2020 deverá ter o mesmo volume de vendas (ou bem próximo) do ano de 2006. A grande diferença é que, em 2006, a indústria estava aumentando sua capacidade fabril. Já em 2020, terá uma ociosidade na casa de 70%.

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Caro leitor, digníssima leitora: o primeiro semestre contábil se encerrou para as maiorias das “S.A.”.

E é nesse momento que podemos verificar qual foi o impacto que a pandemia da Covid-19 trouxe – ou até mesmo verificarmos se existem empresas que estão numa situação confortável.

E, aí, como o estagiário está com tempo livre, pedi para ele levantar o balanço da Ford dos últimos 15 anos (na verdade, 14 anos e meio, de 2006 até o primeiro semestre de 2020).

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O motivo de escolhermos a Ford é que: 1) é uma marca que nos últimos quinze anos representou quase 10% das vendas no mercado interno; 2) é uma montadora antiga, que carrega certo passivo; 3) eles fazem uma divisão contábil/operacional das suas operações de forma interessante, na qual podemos deduzir que o mercado da América Latina é, em grande parte, o Brasil.

Além disso, sempre que escrevemos sobre ela aqui no blog, aparece um comentário do tipo: “O preço do carro é caro pra caramba!” O que também não deixa de ser certa verdade…

Então, analisando estes últimos 15 anos de vendas da indústria automotiva, podemos afirmar que ela teve alguns “bons anos”… Mas, os seus últimos 6-7 anos, foram de puro caos.

No início deste nosso estudo, o mercado automotivo entrou em um cenário maravilhoso.

Saímos de um mercado, em 2006, de 1,8 milhão de unidades, o qual crescia ano após ano e, em 2012, comercializamos 3,632 milhões de veículos. Nós conseguimos dobrar as vendas em seis anos. E aí, amiguinho, naquele momento o céu era o limite!

E a indústria automotiva adotou aquele clássico ensinamento: “Não vamos colocar meta. Vamos deixar a meta aberta, mas, quando atingirmos a meta, vamos dobrar a meta”.

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E, se em seis anos conseguimos chegar em 3,6 milhões de carros, a indústria imaginou que em outros 6 anos chegaria a 5,5 milhões de carros, e se planejou para isso.

Todos sonharam/imaginaram que esse crescimento era infinito. Mas, tal como Ícaro, a “luz” da realidade serviu para derreter esses sonhos. O final da história é que Ícaro perdeu as suas asas, despencou no mar Egeu e morreu afogado.

Aqui no Brasil, algumas empresas já se afogaram. Uma grande maioria está se afogando. Outras estão em queda livre. E uma minoria ainda está no sonho de Ícaro.

O que temos de interessante nestes últimos 15 anos é que o mercado vendeu mais de 40 milhões de unidades.

Mas o grande ponto negativo é que 2020 deverá ter o mesmo volume de vendas (ou bem próximo) do ano de 2006. E a grande diferença é que em 2006 a indústria estava aumentando sua capacidade fabril. Já em 2020, terá uma ociosidade na casa de 70%.

O que aprendemos vendo o balanço da Ford (e essa lição serve para a maioria das montadoras)?

Vamos lá. No ciclo de bonança (2006 ~ 2012), a divisão América do Sul (vulgo Brasil) teve um EBIT de US$ 5,80 bilhões. Na América do Norte (vulgo EUA) esse EBIT foi de US$ 4,02 bilhões.

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Basicamente, vendia-se 20% do que era vendido nos Estados Unidos, e lucrava-se 44% a mais. Nem agiota consegue imaginar um cenário melhor do que este!

Mas, a partir de 2013, com o “não vai ter Copa”, “não é pelos 20 centavos”, e a Dilma dando uma de Lance Armstrong, a situação degringolou para a marca (e para toda a indústria): o EBIT da divisão América do Sul foi de -US$ 5,55 bilhões, enquanto nos EUA ele alcançou a cifra de US$ 55,80 bilhões.

Está ruim? Vamos piorar!

Neste primeiro semestre de trevas, por causa da pandemia, a Ford na América do Sul chegou a registrar a incrível marca de um EBIT de -R$ 18.765 por veículo vendido.

Exatamente o que você leu: cada carro Ford vendido por aqui gerou um prejuízo de quase R$ 20 mil para a montadora

É que o Brasil não é para amadores… depois de 15 anos de operação, ela está praticamente no zero-a-zero. Já a divisão americana, nestes 15 anos, cravou quase US$ 60 bilhões de EBIT.

O cenário da Ford e de grande parte das marcas aqui instaladas é um tanto o quanto catastrófico.

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E a grande pergunta é: como será essa retomada para 2021 e para os próximos anos? Novas ondas de investimentos por parte das montadoras deverão ocorrer ou serão direcionados para outros mercados? Existe a possibilidade de marcas saírem do país?

Alguns pontos já percebemos. A Anfavea começou a pleitear a prorrogação da alteração dos motores de caminhões que aconteceriam entre 2022/2023. Eles pedem um prazo maior de 2-3 anos.

Observação: a mudança seria do motor Euro V que passaria para o Euro VI.

Na Europa, o motor vigente é o Euro VII. O Euro VI foi lançado em 2015, e já não está mais em uso.

Ou seja, na visão da Anfavea, teríamos que adotar um motor que não é mais aconselhado e, mesmo assim, com um gap de uma década!

E aí, o que achou? Dúvidas, me manda um e-mail aqui. Ou me segue lá no Facebook, Instagram, Linkedin e Twitter.

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Raphael Galante

É economista, trabalha no setor automotivo há 14 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.