Caos automotivo – cada um por si, e Deus por todos!

O mercado automotivo tende a aguentar uns quatro meses antes da quebradeira geral. Dois meses (abril e maio) já foram e, junho, que mal começou, já acabou

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Caro leitor, digníssima leitora: mais um mês encerrado, e o mercado automotivo continua à míngua!

Fazendo um breve resumo de como foi o resultado do trágico mês de maio, temos que:

As vendas de veículos no mês de maio totalizaram 56,6 mil carros, o que representou uma queda livre de quase 76% sobre maio de 2019, quando tivemos a comercialização de 234,2 mil veículos.

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Já no acumulado do ano, registramos 640,5 mil carros vendidos contra 1,035 milhão sobre o mesmo período do ano passado. Retração de “só” 38,16%.

A tabela abaixo mostra (por segmento) como foram as vendas.

OK…. e o que você traz de novo, cara pálida?

Para tudo na vida, quando a água bate na bunda, é: CADA UM POR SI, E DEUS POR TODOS!

Vamos detalhar melhor os perrengues que estão afetando a indústria automotiva.

Crédito

Não podemos deixar de afirmar que – um – dos grandes responsáveis pela volta do crescimento do setor automotivo foi a oferta de crédito. Foi quando, nos últimos dois anos, os bancos decidiram descer para o play e jogar sério!

Mas a volatilidade deles é a mesma de uma criança de cinco anos.

E o que os bancos fizeram?

Primeiramente, devemos lembrar que banco nunca perde! Ele só decide se vai ganhar muito ou um pouco menos.

Como a taxa de juros (Selic) está numa trajetória descendente (saindo de 4,5% em janeiro para 3% em maio), o que esperávamos era que as taxas de juros de financiamento dos veículos caíssem também, certo?

Não pela lógica dos bancos…

Por exemplo: a Selic em março era de 4,25% a.a. e caiu para 3,75% a.a. em abril (queda de 11,8%). Já a taxa média de financiamento – no mesmo período – saltou de 1,35% a.m. para 1,42% a.m. (alta de 5,1%).

E, como tudo pode sempre piorar, houve uma redução nos prazos de contratos de financiamento. O prazo médio, que era de 45 meses em março, caiu para 44 meses em abril. Ou seja, a minha prestação mensal ficou bem mais cara!

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Resumo da ópera: consigo fazer a captação de recursos mais em conta; diminuo prazo dos financiamentos e aumento as minhas taxas de juros. Não farei grandes operações de crédito, mas farei operações um pouco mais saudáveis (leia-se, mais rentáveis)! Não ganharei no volume de operações… mas as que eu fizer, terão a rentabilidade necessária para garantir o meu bônus de fim de ano.

Locadoras

Nos últimos anos, algumas montadoras estavam esquecendo aquele conceito básico (e clichê) das aulas de administração: “NUNCA COLOQUE TODOS OS OVOS NA MESMA CESTA”. As locadoras, para algumas montadoras, se tornaram a sua BFF. Até o momento que rolar aquela DR.

No mês passado, as vendas diretas desempacaram! A participação da venda direta representou 32,77% de tudo o que foi vendido. Em abril, era de 48,39%. Essa foi a menor participação nos últimos 40 meses. A Movida foi uma das locadoras que suspendeu as compras de veículos. Basta ver que o grande problema das grandes locadoras – atualmente – é onde estacionar a frota.

Como vocês notaram na tabela acima, as vendas de veículos no mês de maio cresceram 10% sobre o mês passado. Sendo que as vendas diretas (vulgo locadoras) despencaram 25,5% e, as vendas via concessionário cresceram 45%.

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Lembrando que a capacidade da indústria automotiva é de pouco mais de 5 milhões de veículos por ano. E, no atual momento, o mercado interno só vem utilizando 13% da capacidade total. Imagina você ter uma operação fabril e estar com 87% dela parada!

Foi como já apontamos… o mercado automotivo tende a aguentar uns quatro meses antes da quebradeira geral. Dois meses (abril e maio) já foram e, junho, que mal começou, já acabou! Se a recuperação (auxílio/socorro/milagre) não vier em julho, não sei o que será do setor.

E aí, o que achou? Dúvidas, me manda um e-mail aqui. Ou me segue lá no Facebook, Instagram, Linkedin e Twitter.

Raphael Galante

É economista, trabalha no setor automotivo há 14 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.