Tesla se torna a segunda maior montadora do mundo, mas continua sendo uma péssima empresa

Estamos bem tentados a iniciar novamente uma posição short na empresa. A Tesla estava cara quando valia 40% do que vale hoje

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Apresentação do Model 3 em uma feira de carros. O veículo é vermelho e há um banner da Tesla na parte superior da imagem
(Shutterstock)

Podem dizer o que for, mas a verdade é que a Tesla é a empresa que melhor reflete o momento em que vivemos, em todos os quesitos: ela é extremamente polarizadora, ou seja, não há quem seja indiferente – ou a pessoa a ama ou a odeia. Uma espécie de Trump sobre rodas.

Ela também representa perfeitamente o que a impressão desenfreada de dinheiro por parte dos bancos centrais pode fazer com uma empresa e os sentimentos dos investidores. Como já falei diversas vezes, ela não existiria da maneira como é, não fosse uma “ajudinha” dos bancos centrais. O investimento passivo também ajuda – e muito.

Não vou discutir aqui a viabilidade do carro elétrico, embora existam desafios grandes, como o que fazer com a bateria no final do período, os longos intervalos necessários para carregá-la, a enorme poluição causada durante a fabricação das mesmas e a falta de competitividade com relação aos carros a combustão no quesito de eficiência energética. Mas gostaria de listar alguns pontos sobre a Tesla especificamente.

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Os números da empresa são péssimos e eles continuam se deteriorando antes mesmo de a competição chegar. Em 2018 tivemos o lançamento do Audi e-tron e do Jaguar i-pace. Ano passado foi a vez do Porsche Taycan. E todos esses veículos são superiores aos respectivos Teslas.

Além desses, vamos ver a partir de agora novos veículos elétricos nas ruas, trazidos por gigantes como Volkswagen, BMW, Austin Martin, Mercedes, Toyota e Kia.

Se a Tesla já perdia dinheiro, imagina agora, que a competição começa a apertar e a empresa perde também parte significativa dos seus subsídios – justamente quando as fabricantes competidoras começam a usufruir do incentivo.

Além disso, o CEO da empresa, Elon Musk, que também é CEO da Boring Company, SpaceX, Neuralinks e sabe-se lá mais o que, parece que não tem muito trabalho na empresa, afinal ele vive no Twitter, provocando os short sellers (vendedores a descoberto).

E, como CEO, posso dizer que ele é péssimo. O track record dele dá inveja a Sculley, famoso por ter tirado Steve Jobs da Apple e feito um trabalho tão medonho que quase quebrou a gigante americana.

Já escrevi sobre a história de Musk no Paypal e não vou citar vários casos, mas alguns recentes são até engraçados, como o anúncio das “machines building machines”, uma alusão à robotização da produção da Tesla, que aumentaria e melhoraria a produção, apesar de os CEOs de várias outras fabricantes dizerem que era impossível.

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Após desdenhar desses CEOs e gastar bilhões nessas “machines”, Musk descobriu que era realmente impossível e abandonou o projeto. Teve ainda episódios como a fabricação de carros em tendas ao lado da fábrica, que causou todo tipo possível de problema, piloto automático que causa mortes (a última há apenas alguns dias), baterias que explodem, dentre outros.

E, se o problema de Musk fosse somente a falta de capacidade para ser CEO, tudo bem. Infelizmente, vai além. Ele já demonstrou não ser confiável e várias (quase todas) de suas promessas não foram cumpridas, como a de que a Tesla seria lucrativa em 2009 (a empresa nunca deu lucro anual), ou de que a Tesla não captaria mais capital em fevereiro de 2012 – desde então, foram mais de US$10 bilhões levantados em pelo menos 8 ocasiões diferentes.

Para somar, processo judicial é o que não falta na vida de Musk. Os mais relevantes são sobre a aquisição da Solar City (um abuso que até a Oi teria vergonha de fazer), Martin Tripp e o uso de sucata na fabricação de carros, a produção de  5 mil carros Model 3 por semana até dezembro de 2017 (ele sabia que era impossível e anunciou isso assim mesmo, conseguindo levantar mais  de US$ 1 bilhão com essa promessa e manter a Tesla “viva”) e o mais  famoso de todos, o tweet em que afirmava que estava pensando em fechar o capital da Tesla a US$ 420 e que o funding para tal já estava garantido.

Musk não perde uma oportunidade de fazer marketing pessoal, sabendo claramente que não pode resolver os problemas que se apresentam.

Ele disse que iria resgatar os meninos na caverna na Tailândia, resolver os problemas de água de Flint, acabar com os problemas de energia no sul da Austrália e em Porto Rico e outros mais – spoiler alert: ele não fez nada disso, mas ganhou uma mega publicidade.

A empresa vive de hype, como seu CEO. É o lançamento de uma fábrica na China, outra na Europa, o Model Y, o Roadster, uma frota de robotaxis, um carro que aprecia, ao invés de depreciar e por aí vai. Parece até um viciado em drogas, que precisa de doses cada vez maiores para “manter o barato”.

E por que estou falando de Tesla novamente? Desde que recompramos as ações e vendemos as puts em julho do ano passado, a ação já subiu mais de 100%.

Estamos bem tentados a iniciar novamente uma posição short, mas vamos aguardar por enquanto. A Tesla estava cara quando valia 40% do que vale hoje. Como ela não dá lucro, teremos que inventar algumas métricas para avaliar a empresa, mas sob todas vamos achar a empresa cara.

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Essa semana, a Tesla passou a Volkswagen em valor de mercado. A VW entregou, nos 9 primeiros meses do ano passado, mais de 8 milhões de veículos, para uma receita total de quase EUR 190 bilhões e um lucro líquido de mais de EUR 11 bilhões. Ela investe pesadamente em pesquisa e desenvolvimento (ano passado foram mais de EUR 11 bilhões) e tem uma rede de distribuidores e de concessionárias, presença mundial, anos de experiência fabricando veículos e um CEO sério.

No mesmo período do ano passado, a Tesla apresentou vendas de quase US$ 14 bilhões, investiu menos de US$ 1 bilhão em pesquisa e desenvolvimento e deu prejuízo (de novo!) de quase US$ 1 bilhão, enquanto seu CEO discutia no Twitter se o herói do resgate das crianças na Tailândia era um pedófilo. Lembrando que a VW disse que vai lançar um carro elétrico popular em meados desse ano – seguramente será um grande impacto na Tesla.

Como diz Charlie Munger, um dos maiores investidores do mundo, não pense em nada quando você deveria estar pensando no poder dos incentivos. E quais são os incentivos de Musk? Fazer o preço da ação subir, custe o que custar, já que ele pode levar para casa um cheque de US$ 2,6 bilhões, que equivale a mais do que os 65 mais bem pagos CEOs do mundo ganham – juntos!.

E ele está conseguindo, graças a uma ajudinha dos bancos centrais, de subsídios do governo, incentivos perversos dos reguladores, falta de ética por parte de alguns bancos de investimentos e investidores ingênuos, que mais parecem torcedores.

Quando esse castelo de cartas desmoronar, vamos olhar para a Enron e ter saudades.

Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar.

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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