As explicações e lições da histórica queda do petróleo para menos de US$ 0

Antes de sair por aí anunciando o crash do petróleo, é preciso entender o que aconteceu

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(Shutterstock)

Mais uma vez, o improvável e quase impossível aconteceu: o preço do petróleo WTI foi negociado a valores negativos. Quem poderia imaginar isso? Mas antes de sair por aí anunciando o crash, é preciso entender o que aconteceu.

Na segunda-feira, o preço do contrato de petróleo WTI para maio, com vencimento na própria segunda, entrou em colapso e chegou a ser negociado por – US$ 40/barril. Essa foi a primeira vez na história que o petróleo foi negociado a preços negativos. Ao contrário do contrato de Brent, cuja liquidação é exclusivamente financeira, o contrato WTI é feito para ser liquidado fisicamente, ou seja, envolve a entrega e recebimento da commodity pelas pontas do contrato.

Muita gente viu o contrato sendo negociado a apenas US$ 12 na sexta-feira e resolveu aproveitar o contango (quando o preço no mercado futuro é maior que no mercado à vista) para obter um lucro fácil e rápido. A ideia era comprar no primeiro vencimento (maio), estocar em algum lugar por alguns meses, depois vender um contrato futuro para entrega do petróleo a um preço maior, auferindo assim ganhos substanciais e, em tese, sem risco de preço.

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O mercado de contratos futuros de WTI, que anteriormente era dominado por produtores, agora é controlado por traders, que não têm a intenção de receber o petróleo físico. O problema é que esqueceram de combinar com os russos e, na segunda-feira, não conseguiram achar nenhum lugar disponível para estocar o petróleo.

Por causa do Covid-19, os mercados mundiais estão completamente fora de sintonia. Ainda estão sendo produzidos cerca de 100 milhões de barris por dia, mas o consumo caiu para menos de 80, fazendo com que haja uma demanda grande por armazenamento – o que, por sinal, está sendo maravilhoso para os tankers e dirty tankers, que são os navios utilizados para transporte de petróleo e derivados e sobre os quais já escrevi no final do ano e novamente há algumas semanas.

Com isso, os traders não poderiam aceitar a entrega imediata do material, já que não teriam onde estocar, fazendo com que vendessem os contratos a qualquer preço – daí, os preços negativos.

Esse movimento vai prejudicar e muito o petróleo de xisto americano, com repercussões importantes no mercado de petróleo e gás, sobre os quais escreverei mais tarde (spoiler alert: acho que será muito bullish para os dois).

Enfim, esse fato nos mostra o quão arriscado – e errado – é modelar risco pura e simplesmente por desvio-padrão, um exemplo claro de metonímia. Estamos falando isso há mais de dois anos e os fatos corroboram nossa tese.

Os eventos de cauda são muito mais comuns do que realmente nos dizem os modelos. É importante conhecer muito bem que tipo de ativo estamos negociando, ir a fundo nas pesquisas, ler os prospectos, entender a dinâmica do mercado, saber quais são as consequências de um movimento atípico, quais são as possíveis perdas e fazer nossa própria due diligence.

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Nessas horas ninguém se lembra do real culpado por essa má-alocação de recursos, mas podemos agradecer ao Fed por reduzir a taxa de juros a níveis impensáveis e fomentar todo tipo de investimento inviável e distorções antes tidas como impossíveis.

O contrato de petróleo WTI foi mais um movimento atípico e improvável. Já mencionamos algumas ETFs que achamos arriscadas por situações semelhantes. E aí, qual será a próxima surpresa?

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Marcelo López

Marcelo López tem certificação CFA, é gestor de recursos na L2 Capital Partners, com MBA pelo Instituto de Empresa (Madrid, Espanha) e especialização em finanças pela principal escola de negócios da Finlândia (Helsinki School of Economics and Business Administration). Atuou como Gestor de Carteiras e de Fundos em grandes gestoras internacionais, tais como London & Capital e Gartmore Investment Management.

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