China: Quais são as implicações da transformação econômica?

Preocupações parecem exageradas, mas os investidores devem compreender a nova realidade na China e as implicações de investimento que isso terá em todo o mundo

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre
Gabriela Santos JP Morgan
Gabriela Santos, estrategista para mercados globais do J.P. Morgan Asset Management.

Preocupações com a economia e os mercados chineses têm causado volatilidade nos mercados globais durante o último ano. Há muitas preocupações específicas, mas todas giram em torno do risco de um “hard landing” na China, termo que significa uma queda brusca no crescimento econômico, e as repercussões que isso pode ter para o crescimento global. Vemos essas preocupações como exageradas, mas acreditamos que os investidores devem compreender a nova realidade na China e as implicações de investimento que isso terá em todo o mundo.

De 1980-2010, a economia chinesa cresceu a uma média de 10% ao ano, com a indústria chinesa representando quase 50% da economia. Como resultado, o componente do PIB que liderava o crescimento era a parte de investimento, ou seja toda a construção de infraestrutura, cidades e fábricas em todo o país. Para toda essa atividade, foi necessário uma grande quantidade de commodities, e a China tornou-se o grande consumidor de metais industriais (por exemplo, consumindo 60% de todo o minério de ferro do mundo). Esta grande e crescente demanda da China levou a anos de altas nos preços das commodities, beneficiando países exportadores de commodities como o Brasil.

No entanto, esta fase do crescimento chinês já está no passado. Já não será necessário construir tantas pontes, estradas, cidades, fábricas como antes. O governo chinês compreende isso muito bem e vem orquestrando há um bom tempo a transição para uma economia baseada no consumo doméstico. Em 2012, pela primeira vez, o setor de serviços superou a indústria em importância para o crescimento e tornou-se a parte dominante da economia chinesa. De agora em diante, mais e mais, o consumo das famílias chinesas será o componente do PIB mais relevante. Isso significa que a demanda vinda da China será mais focada em carros, roupas, tecnologia e não mais acentuadamente em metais brutos.

Naturalmente, uma economia baseada no consumo crescerá mais lentamente do que uma liderada pelo investimento. Por isso, a China continuará a crescer mais lentamente do que no passado. O ano de 2010 foi a última vez em que a China cresceu acima de 10%, e desde então o crescimento vem sendo cada vez mais lento, chegando a registrar 6,9% em 2015. Vemos isso como uma conseqüência muito natural da transformação necessária e contínua no país.

Contudo, essa transformação não ocorrerá sem seus riscos. Por exemplo, as famílias chinesas são grandes poupadoras devido à falta de rede de segurança social na sociedade. O desafio para o governo chinês será aprovar reformas suficientes para estimular mais o consumo no longo prazo. Além disso, o governo não pode permitir que a parte de investimento diminua rápido demais.

Como resultado disso, o governo chinês tem implementado medidas de estímulo, como cortes na taxa de juros e nas reservas obrigatórias dos bancos chineses (a fim de incentivar mais o crescimento de crédito). Nossa visão de que as preocupações sobre um “hard landing” na China são exageradas é baseada na convicção de que o governo chinês tem as ferramentas necessárias para controlar essa transição no médio prazo. No longo prazo, será necessário fazer reformas mais abrangentes para estimular o consumo e controlar os excessos da economia, como o crescimento de crédito corporativo.

Dada esta transição histórica, podemos esperar que a China permaneça nas manchetes durante os próximos anos, contribuindo para períodos de volatilidade nos mercados emergentes e nos mercados desenvolvidos também. Investidores não podem esperar um salto no crescimento chinês, e sim uma estabilidade, principalmente nos indicadores de serviços e de consumo. Depois de uma série de medidas de estímulo nos últimos meses, vemos exatamente esses sinais de estabilidade na China, o que tem contribuído para a melhora nos ativos de risco e moedas emergentes, e também na melhora das bolsas dos Estados Unidos e da Europa.

Sobre a estabilidade na economia chinesa este ano, um outro fator importante para a melhora nos ativos emergentes tem sido a melhora nos preços de muitas commodities, incluindo vários metais industriais. Aqui temos uma palavra de cautela: a transição de uma  economia chinesa baseada no investimento e consumo de commodities para uma baseada no consumo das famílias e em serviços é uma realidade de longo prazo. Não podemos esperar a mesma demanda de metais brutos vinda da China como em décadas passadas. Por isso, o máximo que esperamos para os metais industriais é estabilidade e em níveis mais baixos que durante a década de 2000. E isso ocorrerá somente quando tivermos mais ajustes na oferta global dessas commodities para se ajustar a nova realidade de uma demanda menor, o que pode levar ainda um pouco mais de tempo.

Por isso, os investidores continuarão a ser muito seletivos nos mercados emergentes, especialmente nos países exportadores de commodities, que não terão mais esta mesma ajuda no futuro. Para esses países conseguirem aumentar o seu crescimento e voltar a atrair investimento estrangeiro, será imperativo fazer mudanças no modelo econômico e fiscal. 

Equipe InfoMoney