O mercado já aposta que o Brasil não vai para o buraco. Por quê?

Poucos mercados foram melhores do que o nosso em abril, indicando que existem razões domésticas para o otimismo

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Após os +17% de alta da bolsa em março – maior alta desde o mês em que Lula foi eleito em 2002 – o otimismo continuou em abril, com o índice Bovespa subindo 7,7%. Como escrevemos no artigo de março, estávamos otimistas e conseguimos capturar essa alta em nossos fundos.

Desde então, o que mudou?

Ao contrário de março, poucos mercados foram melhores do que o nosso, indicando que existem razões domésticas para o otimismo. O andamento do processo de impeachment é claramente um fator, mas acreditamos que o movimento foi maior do que só a evolução do processo. O movimento já inclui uma antecipação na possível melhora da confiança no futuro.

Esse movimento fica mais evidente quando olhamos para a renda fixa do que quando olhamos para a bolsa. Começando pela curva de juros pré-fixados, em janeiro, o investidor poderia comprar uma LTN –dívida pré-fixada do governo – à taxas perto de 17%. Essa mesma LTN está hoje pagando juros ao redor de 12,5%, ou seja, uma rentabilidade consideravelmente menor.

Outra curva que o pessoal da renda fixa está sempre atento é a curva de juros reais precificados nos títulos do governo conhecidos como NTN-B, que pagam a inflação ex-post mais os juros reais pré-fixados. Essa curva também caiu, de algo acima de 7%. Para algo mais próximo de 6%. Apesar de relevante, o movimento foi menor.

E qual a diferença entre as duas curvas? A inflação futura que o mercado acredita que virá. O gráfico abaixo mostra, para alguns anos, qual foi a inflação realizada em 2015 e qual é precificada em alguns anos no futuro. Os movimentos são bem relevantes: 

 

 

São vários os motivos que podem ser atribuídos para o mercado ter mudado tão fortemente de opinião, e alguns deles são negativos, mas tentando olhar de uma forma simples, a principal mensagem que esse gráfico passa é que o mercado não acredita mais na espiral inflacionária que naturalmente viria se o Brasil “fosse para o buraco” como já vimos tantas vezes no passado. O mercado passou a atribuir uma probabilidade relevante de que o novo governo retome a credibilidade da politica econômica, tanto no campo fiscal como no monetário, objetivando trazer de volta a inflação para a meta.

E qual o impacto desse movimento para a bolsa? São vários, mas vamos falar de dois, um quantitativo e um qualitativo.

O impacto quantitativo é direto: Quando se compra uma ação, se compra o valor presente do fluxo de caixa gerado pela empresa enquanto ela existir, e você quer que ela exista por muito tempo. Logo, o valor presente aumenta se os juros são menores.

Já o qualitativo é mais fácil de entender e mais importante: Se o Brasil não vai para o buraco, o investidor tem coragem de comprar uma empresa que durará muitos e muitos anos. Logo, a bolsa volta a ser um ativo investable para os gringos, que, no fim do dia, é quem “faz preço”.

Gostaríamos de lembrar que o mercado financeiro sempre trabalha com antecipações, as vezes certas, outras erradas (quando as oportunidades surgem). Ninguém vai esperar o Brasil melhorar para comprar. Quando – e se – melhorar, o bonde já vai ter passado. 

João Luiz Braga