Fintechs, Bitcoin e DeFi: os desafios para um novo mercado financeiro

Em DeFi - ou "descentralized finance" - o foco é criar uma nova arquitetura financeira mundial, em que regras locais, intermediários ou lógicas de negociação são definidos por softwares e funcionam de maneira direta, distribuída e transparente para quem quiser usar

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(Gerd Altmann/Pixabay)

No início de 2018, escrevi sobre o que aconteceria se toda a população de um lugar resolvesse usar Bitcoin, e não a moeda de cunho forçada por seu governo.

Uma das principais conclusões era que, caso isso acontecesse, seria impossível para qualquer governo reverter o processo sem uso de alguma forma de restrição para essa comunidade, como bloquear o acesso à internet ou tornar a negociação de Bitcoin ilegal e prender qualquer um envolvido nessa atividade.

Desde então, esse mercado se desenvolveu muito. Hoje, claramente, o que era um conjunto de soluções em volta do Bitcoin se tornou um ecossistema muito mais completo e complexo. E dentre essas soluções, poucos anos atrás, surgiram as estruturas que são conhecidas como DeFi.

Já tratei dos seus principais protocolos e funções, e aqui tratarei do poder de mudança que DeFi – sigla em inglês para “descentralized finance” – pode ter no mercado financeiro mundial.

Um ponto de comparação importante é com o movimento das fintechs. Elas vieram para melhorar as soluções já presentes no mercado – ou seja, fazer o que bancos e outros agentes financeiros já faziam, mas de modo mais focado no cliente, direto, barato, entre outras características. Para tal, utilizaram várias tecnologias existentes, mas estavam – e estão – jogando o jogo como ele é.

As fintechs não propõem soluções drásticas de mudança do sistema. Elas se enquadram nas regulações existentes dos vários países e muitas, à medida que crescem, até se transformam em bancos propriamente ditos e regulados.

Arquitetura criada do zero

No caso de DeFi, o foco é criar uma nova arquitetura financeira mundial, em que as regras locais, intermediários ou lógicas de negociação são definidos por softwares e funcionam de maneira direta, distribuída e transparente para todos que queiram acessá-la.

Não há regulador, entidade regulada, base geográfica, restrições de utilização, know your costumer, anti-money laundering, compliance e todo o aparato legal atual que envolve a arquitetura local ou global do mercado financeiro.

Os protocolos, em geral desenvolvidos junto à rede Ethereum, têm regras próprias que são transparentes a todos que desejam usá-los. É, portanto, inclusivo, rápido, transparente, eficiente e eficaz.

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Para exemplificar, vamos pensar no MakerDao, um desses protocolos. Através dele, você pode depositar um ativo e, com base nesse depósito, adquirir um empréstimo em dólar. Para tal, ele utiliza a infraestrutura do blockchain da Ethereum. Para cada ativo depositado, há uma regra pré-definida de quanto você poderá pegar de empréstimo.

Qual a diferença disso para um empréstimo bancário?

Consigo ver algumas:

  1. Os empréstimos bancários não são transparentes e impessoais e a taxa e o volume que qualquer pessoa pode tomar varia imensamente. Para cada 100 de ativo depositado lá – sejam os 100 o valor do seu imóvel ou de outro bem – pode dar o direito a uma pessoa de ter um empréstimo de 80 e a outra, de 60. A taxa também varia entre as pessoas.
  2. Não é fácil saber qual banco oferecerá o maior percentual em empréstimo e a menor taxa. A alternativa é cotar a operação em vários bancos, mandando documentação para todos, num processo trabalhoso e demorado.
  3. Dependendo de quem pede, o banco pode se negar a fazer o empréstimo mesmo que a pessoa tenha depositado 100 e queira um empréstimo tão pequeno quanto 20.
  4. O processo no banco requer um relacionamento prévio, abertura de conta, análise de documentos, entre outras etapas, o que o torna burocrático, lento e custoso.
  5. Esse processo depende de onde você vai tomar o empréstimo. Se trata-se de um cidadão ou residente fiscal brasileiro tomando um empréstimo no Brasil é de um jeito. Se o empréstimo for feito na Alemanha ou Estados Unidos, as regras são outras.

No caso do MakerDao, nenhum dos entraves acima existe. Quanto você consegue tomar de empréstimo com cada ativo que deposita e a taxa para isso está disponível a todo momento. Pouco importa se você está no Brasil, Alemanha ou Estados Unidos, desde que tenha como acessar a internet. Não é necessário ter nenhum relacionamento prévio, somente uma chave pública na rede Ethereum, o que qualquer pessoa pode fazer em minutos.

A forma como o MakerDao – e DeFi, de modo geral – está estruturado não requer relacionamento prévio, referência geográfica e referência regulatória. As regras de ativos que são aceitos como garantia, percentuais de empréstimos possíveis e taxas de juros para isso estão definidas nas regras do protocolo, são públicas e fazem com que esses fatores se ajustem à medida que o mercado muda. Fatores como oferta e demanda dos ativos e empréstimos foram considerados nas regras.

Agora coloque-se no papel dos reguladores do mercado financeiro mundial. O que pode ser feito para que esse modelo mundial mais eficiente, inclusivo, transparente e sem intermediação não torne o sistema financeiro atual obsoleto e caia em desuso? Essa é a pergunta que todo regulador está se fazendo.

Regulação

Uma das soluções seria começar a proibir as pessoas de utilizá-lo, mas será essa solução sustentável? Qual sociedade preferiria um sistema menos inclusivo, mais concentrado, mais caro e menos transparente? O próprio Bitcoin é um exemplo de que com o tempo a adoção começa a fazer com que os reguladores tenham que ajustar suas regras e dar espaço a essa nova tecnologia.

As dúvidas são muitas e o futuro as responderá. A recomendação que dou para você é: entenda logo esse mercado e se aproveite das oportunidades que essa transição está possibilitando. Ninguém tem bola de cristal para prever como será o futuro, mas as oportunidades que estão sendo geradas nesse momento atual são inúmeras.

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Vale lembrar que DeFi está ainda na sua infância e vários riscos existem ao interagir com esses protocolos. Para quem tiver interesse em entender mais sobre esses aspectos, artigo de Rafaella Baraldo trata deles de modo didático.

Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).