E se todos aceitassem Bitcoins? Os desafios da adoção em massa de uma única criptomoeda

A primeira consequência seria uma corrida para comprar Bitcoins, o que faria certamente seu preço subir em relação à moeda original do país

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SÃO PAULO – Esses dias me peguei pensando sobre o que aconteceria caso em algum pais a sociedade resolvesse adotar uma criptomoeda ao invés da moeda oficial imposta pelo Estado.

Não vou me ater aqui às razões pelas quais este país decidiu por essa adoção; tomarei isso como dado, e tentarei projetar o desenrolar e os efeitos dessa decisão. Para facilitar o entendimento, tomemos o Bitcoin como sendo a cripto adotada. Passemos, então, a analisar as consequências da decisão de todas as pessoas do país em questão começarem a usar Bitcoins como forma de pagamento/recebimento de produtos e serviços.

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A primeira consequência disso seria uma corrida para se obter Bitcoins, o que faria certamente com o seu preço se valorizasse em relação à moeda original desse país. Isso acarretaria uma deflação imensa em todos os ativos que antes tinham seus preços atrelados à moeda corrente. Por exemplo, se um carro que custasse $55.000,00 (onde $ representa a moeda do país) e isso equivalesse a 1,0 Bitcoin, com a demanda maior por Bitcoins, sua relação de troca perante essa moeda poderia subir para, por exemplo, 1 Bitcoin igual a $110.000,00, desta forma o mesmo veículo passaria a custar 0,50 Bitcoins. Esse processo aconteceria até que a maioria da população desse país tivesse os Bitcoins necessários para poder transacionar, e a alta mencionada de preços (reais por Bitcoins) seria tão maior quanto mais acelerado fosse o processo de adoção.

Passado esse primeiro momento, a economia deste país passaria a se movimentar em Bitcoins e não mais na moeda anteriormente adotada. Todos os bens e serviços teriam seus preços definidos em Bitcoins. A primeira pergunta aqui é como o Estado faria para taxar essas transações? A rede Bitcoin, apesar de ser uma rede aberta onde qualquer pessoa tem acesso a todas as transações, é também anônima pois o que vemos são as movimentações entre contas, mas não conseguimos saber de quem são as contas. Isso impossibilitaria, ou ao menos dificultaria bastante, a fiscalização para pagamentos de impostos, e não haveria outra alternativa ao Estado a não ser confiar que os cidadãos, comerciantes e empresários estariam declarando suas receitas reais e pagando impostos por isso. Esse ponto deixa o Estado em uma situação de grande vulnerabilidade, já que se os indivíduos resolvessem pagar menos impostos, não haveria como auferir se isso estaria certo ou não. Indo além nesse raciocínio, no extremo os indivíduos poderiam resolver pagar perto de zero em impostos, o que deixaria o Estado em situação difícil.

Outro ponto importante da adoção do Bitcoin seria a terceirização da política monetária desse país. Em geral, os países têm suas dívidas atreladas à sua moeda, mas se essa moeda não fosse mais a moeda utilizada para trocas dentro daquele país, poucos teriam interesse em mantê-la ou utilizá-la. O financiamento do governo teria que passar a ser feito em Bitcoins e não mais na moeda local. Dado que o país não teria mais na prática uma moeda própria, ele também não teria como implementar nenhuma politica monetária, perdendo assim a capacidade de, por exemplo, baixar a taxa de juros para tentar induzir maior crescimento do PIB. Seria um efeito semelhante ao que aconteceu com todos os países que resolveram adotar o dólar como moeda padrão das suas economias na década de 80, com a diferença que o Bitcoin tem uma tendência deflacionária porque têm quantidade de moeda determinada e decrescente com o tempo. No caso do dólar, sua emissão depende do que o FED (Banco Central Americano) determina e pode ser em certos momentos inflacionária ou deflacionária. Na transição, muito provavelmente, também teríamos uma inflação enorme na moeda local, haja visto o efeito do aumento do preço do Bitcoin/moeda local descrito anteriormente, o que tornaria essa transição bastante delicada.

Do ponto de vista da utilização do Bitcoin também teríamos desafios. A rede do Bitcoin suporta menos do que 10 transações por segundo o que, dependendo do tamanho e número de indivíduos desse país, pode ser um grande limitador. Além disso, como o Bitcoin não tem dinheiro físico, haveria a necessidade de toda a população ter acesso a um meio eletrônico (celular, computador, etc.) com acesso à internet. O primeiro ponto poderia ser endereçado facilmente utilizando-se uma moeda que não o Bitcoin pois já existem moedas com redes que aceitam muito mais transações por segundo, agora o segundo ponto não teria solução fácil e barata no curto prazo. 

Finalizando, a possibilidade do que descrevi acima ocorrer era inexistente até a criação do Blockchain e das criptomoedas, o que deixava Estados em uma posição confortável com a sua moeda de curso forçado. Mas, agora, é uma realidade que já está em curso. A preocupação dos Estados em relação a esse cenário é enorme e crescente, como deve ser. O presente coloca dúvidas significativas sobre o curso que as criptomoedas tomarão, mas uma coisa é certa, elas aumentaram muito a liberdade dos indivíduos e vieram para ficar. Como será sua convivência com as moedas de curso forçado dos Estados e o papel desses Estados no futuro são dúvidas que o futuro próximo esclarecerá.

Gustavo Cunha

Profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro brasileiro e ex-diretor do Rabobank Brasil, escreve sobre inovação e os impactos dela no mercado financeiro (essencialmente Blockchain, criptomoedas e Fintechs). É experiente palestrante que concilia prática e teoria nos seus estudos para o doutorado (PHD) na Universidade do Porto (Portugal).

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