CZ e Sam Altman: líderes de mundos tecnológicos distintos

Explorando as diferenças e semelhanças dos últimos acontecimentos

Gustavo Cunha

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Recentemente, tivemos dois fatos bastante marcantes no mundo tech. Mas ambos foram tratados como temas sem relação alguma. Mas será que são?

Quem já acompanha inteligência artificial (IA) ou blockchain certamente acompanhou o episódio de demissão pelo conselho da OpenAI do seu CEO, Sam Altman, sua posterior ida para tocar uma área só dele na Microsoft e, no melhor estilo “a volta dos que não foram”, seu retorno como CEO da OpenAI, mas com a devida reestruturação do board da empresa.

No caso de Changpeng Zhao (CZ), ele se declarou culpado no processo da Justiça americana contra ele e a Binance, tendo que deixar de ser o CEO da exchange, além de pagar pessoalmente uma multa de US$ 50 milhões – a Binance pagou uma multa de mais de US$ 4 bilhões.

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As diferenças entre os dois casos saltam logo aos nossos olhos. O primeiro foi um caso de briga por poder corporativo entre o board de uma empresa e seu CEO, na qual claramente o board não estava ciente do carisma e poder que Sam tinha na empresa (além de Greg Brockman, presidente e cofundador da OpenAI, cerca de 700 dos 750 funcionários assinaram carta conjunta dizendo que iriam com Sam para onde ele fosse). Ou seja, o board, ou o que sobrou dele, teve que se mexer rapidamente para a empresa não acabar.

No caso de CZ, foi um processo jurídico criminal que aconteceu nos EUA acusando a Binance de facilitar a lavagem de dinheiro e atividades ligadas ao terrorismo. Aqui, vale colocar também uma diferença entre o que aconteceu com o CZ com outra sigla famosa no meio, SBF: Sam Bankman-Fried, cofundador da FTX. SBF cometeu uma fraude que levou a FTX à bancarrota e carregou consigo milhares de investidores e usuários da plataforma. Já a Binance continua operacional e não houve fraude, mas sim um processo administrativo que deveria estar presente para não deixar atividades ilícitas serem feitas na exchange. Esse tipo de investigação e processo sempre acontece no mercado financeiro tradicional. Por exemplo, há pouco mais de 10 anos, o HSBC fez um acordo semelhante com a justiça americana, pagando cerca de US$ 1 bilhão por seu envolvimento com atividades possivelmente ilícitas relacionadas ao Irã.

Bem, essas são as diferenças. Mas será que existem também semelhanças entre os casos de Sam Altman e CZ? Eu vejo algumas.

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A primeira delas é que estamos falando de grandes líderes de duas tecnologias, ou melhor, indústrias, ambas com um poder enorme de mudar o mundo: cripto/blockchain e IA. Não há como separar essas indústrias dessas duas pessoas. CZ já está na mídia e é reconhecido publicamente há muito tempo. Altman ficou mais famoso mais no último ano, com o lançamento do ChatGPT pela OpenAI, mas dado todo seu impacto, discussão e mídia, todos hoje sabem quem ele é.

Os dois são empreendedores e, nesse caso, assumem riscos consideráveis nas suas decisões. Um em uma indústria imensamente regulada: o mercado financeiro. O outro em um ambiente amplamente desregulado: a tecnologia, de modo geral. Nesse sentido, estaria o board da OpenAI fazendo, de alguma forma, o papel que a Justiça americana fez com a Binance e o CZ, colocando limites na sua atuação e delimitando o que é “legal”? Difícil saber, mas o fato de o campo de atuação da OpenAI ser pouquíssimo regulado pode gerar esse tipo de pergunta.

Outra semelhança entre eles é que ambos já são muito ricos. A fortuna estimada do CZ é estimada em US$ 10 bilhões – um valor que pode ser muito maior, devido à dificuldade dos sistemas tradicionais de estimar valores de tokens cripto –, enquanto o Sam Altman deve estar rondando a casa do bilhão de dólares.

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Hoje, qualquer um dos dois tem dinheiro, conexões e capital político para mover indústrias e fazer o que quiserem. Isso, aliado ao carisma de Altman, acaba fazendo o board refém dele e não o contrário. Será que o board da OpenAI não considerou isso? Talvez sim, mas agiu como se isso não estivesse presente. Deu no que deu.

Não considero o CZ tão carismático e sua briga não foi interna, mas com um regulador poderoso e do qual ele ainda não se livrou totalmente, pois ainda corre um processo criminal que pode levá-lo para prisão por até 18 meses. Por outro lado, sua fortuna pessoal é muito maior que a de Altman.

Uma outra semelhança é que ambos ainda são jovens. CZ tem 46 e Altman tem 38. Além disso, nenhum dos dois tem perfil de quem vai comprar uma ilha no Caribe e ficar lá sem fazer nada. Ainda conviveremos por muito tempo com eles empreendendo, trazendo novidades e soluções que nos ajudarão.

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Mas uma questão essencial é a indústria em que eles estão inseridos. Cripto, por suas utilidades, se assemelha muito a dinheiro/moeda. Portanto, puxa para si toda a regulamentação do mercado financeiro mundial. Isso não acontece com a inteligência artificial. Hoje, não vejo como a OpenAI possa ser processada por facilitação de lavagem de dinheiro, por exemplo. Enquanto isso, qualquer exchange cripto tem esse risco sempre presente.

Isso quer dizer que temos que regular a IA? Essa é outra discussão. Mas, pegando a fala do Andrew McAfee, professor do MIT, que assisti durante o último WebSummit: limitando ou não o desenvolvimento de IA, teremos que lidar com os caminhos obscuros que essa tecnologia vai trilhar. Na opinião dele, a melhor forma de atuar nessa situação é ter uma forma fácil e rápida de corrigir erros e não tentar limitar a inovação.

Olhando para frente, temos agora um Sam Altman com muito mais poder dentro do OpenAI, com uma validação não somente do novo board, como também dos cerca de 750 funcionários da OpenAI. Vale uma ressalva aqui para o número de funcionários da OpenAI em comparação com seu valor estimado, cerca de US$ 90 bilhões.

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Do lado do CZ, ele deixou claro que vai descansar um pouco e que não quer mais controlar nenhum negócio no futuro (será?), dizendo que deve ser investidor de algumas iniciativas e que ficou feliz pois agora terá mais tempo para se dedicar a DEFI 🥳. O mercado cripto já começa a especular o que vem por aí. Lembrando que CZ já tem iniciativas bastante diversas, incluindo, por exemplo, a rede de blockchain BNB.

Para mim, fica claro que estamos tratando de duas pessoas que trouxeram iniciativas incríveis até agora e que duvido que tenham parado por aí. Duas pessoas que serão protagonistas das principais tecnologias que estão mudando o mundo e que devemos acompanhar de perto.

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Gustavo Cunha

Autor do livro A tokenização do Dinheiro, fundador da Fintrender.com, profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro tradicional, tendo sido diretor do Rabobank no Brasil e mais de oito anos de atuação em inovação (majoritariamente cripto e blockchain)