DEPIN: a narrativa que faltava para todos virarmos mineradores

A proliferação de infraestruturas descentralizadas agora tem uma narrativa única

Gustavo Cunha

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

(Getty Images)
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Nos últimos anos, tem me fascinado cada vez mais o quão poderosa pode ser uma narrativa e os impactos na aceleração de novos modelos de negócio, comunidades e, por consequência, as mudanças que ela traz. E, recentemente, tenho começado a esbarrar muito na narrativa do DEPIN, Decentralized Physical Infrastructure Networks, ou, em tradução livre, infraestrutura de redes físicas descentralizadas.

O conceito não é algo novo. Há mais de dois anos, quando escrevi o texto “Seremos todos mineradores”, essa dinâmica de descentralização de infraestrutura já demostrava seu poder de causar a disrupção de vários setores. A diferença é que hoje temos um guarda-chuva, ou melhor, uma narrativa, para encampar todas essas iniciativas: a DEPIN.

Mas o que é a DEPIN e quais seus possíveis impactos e desafios? E por que colocar isso dentro de uma narrativa – ou uma sigla muda algo?

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A DEPIN representa um conceito no qual a infraestrutura física, como sistemas de comunicação, data storage, processamento computacional etc., é operada e gerida de maneira descentralizada. Esse conceito contrasta com os modelos tradicionais de infraestrutura, que são tipicamente centralizados e controlados por poucas entidades ou autoridades.

Na DEPIN, a ideia é distribuir a responsabilidade e o controle da infraestrutura física entre múltiplos atores, que podem ser indivíduos, comunidades, empresas ou até sistemas automatizados. Esta abordagem descentralizada oferece várias vantagens, como resiliência a falhas e ataques, ser mais eficiente e flexível, maior velocidade de implementação, governança descentralizada, entre outros.

Isso tudo requer um modelo de incentivos muito bem pensado e realizado, já que a criação e manutenção dessa infraestrutura é feita de maneira descentralizada, por meio de incentivos, e não centralizada, muitas vezes imposta pelo governo ou estado.

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O caso da Helium é emblemático. Em menos de dois anos, eles conseguiram criar uma infraestrutura de comunicação de internet das coisas (IoT, na sigla em inglês) mundial e que está começando a migrar para uma rede de 5G, com o lançamento de um plano de celular nos EUA que utiliza sua infraestrutura. Isso sem ter investido praticamente nada em infraestrutura de telecomunicações. Todo investimento foi feito pelos usuários, que compraram os equipamentos que são a base da infraestrutura da rede e que têm ganho tokens por terem essa rede de pé e ganharão futuramente com o tráfego de dados dela.

Outro exemplo é o da Filecoin, que pretende descentralizar o armazenamento e processamento de dados, ou “cloud”, como chamamos. Esse mercado tem “cheiro, cor e sabor” de um mercado esperando para ser atacado. Quando digo atacado, quero dizer no sentido de que é um mercado que envolve muito dinheiro, é muito concentrado (AWS, Microsoft e Google detém mais de 65%) e tem uma escala mundial. Três pontos que brilham os olhos de qualquer empreendedor.

No Brasil, o surgimento de inúmeras fintechs em meados da década de 2010 foi exatamente em setores que cumpriam esses três pontos: crédito e meios de pagamento. Aqui vejo acontecendo algo semelhante, mas em uma magnitude global, descentralizada e que afeta diretamente gigantes de tecnologia. Tudo isso torna o jogo completamente diferente.

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Dito isso, se tem um setor que está na alça de mira de DEPIN é o de processamento e armazenamento de dados na nuvem (cloud). O tempo dirá se tenho razão ou não.

Mas voltando ao ponto, o que tenho visto recentemente é que a narrativa de descentralização de infraestrutura começa se expandir muito. Ter um “nome” que engloba essas iniciativas torna o poder de alcance e conhecimento delas muito maior. Já vimos isso em cripto com termos como DEFI e não só em cripto, o próprio termo fintechs ajudou muito o crescimento e compreensão desse setor. À medida que colocamos essas iniciativas dentro de “caixinhas” fica mais fácil para entendermos o que elas fazem, seu impacto, como participamos, ampliando dessa forma seu impacto.

Narrativas são parte da necessidade humana de compreender o mundo ao nosso redor. No momento que temos ela colocada em um setor que tem cheiro de setor que está pronto para ser transformado, “junta-se a fome com a vontade de comer”.

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Qual o maior entrave para o crescimento desse movimento? O primeiro é a regulação. Como o governo irá tributar as pessoas que estão gerando a rede para a infraestrutura de 5G da Helium? Quanto será cobrado de impostos sobre os tokens que você receber por disponibilizar sua capacidade de processamento de dados que têm sobrando no seu computador? Isso só para pegar um aspecto dessa mudança, que é o aspecto tributário. Temos também questões de cibersegurança, acesso a dados, resiliência da rede, concessões de infraestrutura que o estado vendeu para iniciativa privada, entre outros que têm que ser analisados.

O setor de energia e telecomunicação, por exemplo, é um que tem uma regulamentação muito forte, o que pode tornar os desenvolvimentos de DEPIN mais lentos nesse setor. Diferentemente desses, o setor de cloud e processamento de dados é um setor com bem menos regulação. Isso para citar três setores nos quais tenho visto mais iniciativas de DEPIN sendo desenvolvidas.

Um ponto importante é que mesmo que a regulamentação seja capaz de atrasar esse movimento rumo a DEPIN, me parece que isso é inevitável no médio e longo prazo. Pegue, por exemplo, a rede 5G. É preciso ter antenas muito perto umas das outras e fazer isso de maneira centralizada é caro, ineficiente e demorado. Faz muito mais sentido resolver isso de maneira descentralizada.

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Um outro aspecto dessa narrativa é a rede que elas estão usando: a Solana. Após a debacle da FTX no final de 2022, essa rede ficou meio que moribunda por um tempo, mas nos últimos meses tem ressurgido das cinzas, com vários projetos sendo anunciados e muita movimentação de protocolos de DEPIN. Confesso que nunca a estudei muito a fundo e tenho um pouco da imagem dessa rede no seu começo, quando havia dias em que ela ficava fora do ar. Mas com essa quantidade de iniciativas a utilizando, já vejo a necessidade de entender melhor seu funcionamento, vantagens e diferenças dela em relação ao que temos no ecossistema da Ethereum.

Além disso, para 2024, já começo a me organizar para voltar a estudar esse tema que é espetacular e que adorei quando interagi com Helium e algumas outras no final de 2020. Sempre vi grande potencial nessas iniciativas e, com a colocação de uma narrativa e um nome (DEPIN) nelas, me parece que chegou a hora de serem implementadas e tirarem vários setores da zona de conforto.

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Gustavo Cunha

Autor do livro A tokenização do Dinheiro, fundador da Fintrender.com, profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro tradicional, tendo sido diretor do Rabobank no Brasil e mais de oito anos de atuação em inovação (majoritariamente cripto e blockchain)