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“Caos” automotivo

Breve análise sobre o resultado do primeiro bimestre do ano de 2015.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

Sendo um pouco como o “corvo agourento” de Poe, vamos falar sobre o primeiro bimestre de vendas do ano de 2015, que está se desenhando altamente caótico.

Como a situação está tão, mas tão ruim, vou dividir esse post em três tópicos, para facilitar o entendimento sobre o setor automotivo:

 

1. Caminhões, Ônibus, Máquinas Agrícolas e Implementos Rodoviários

 

Um dos setores mais preocupantes para nós, é o de Caminhões, Ônibus, Máquinas Agrícolas e Implementos Rodoviários. Por um motivo simples:  a demanda por estes produtos é um sinalizador se a economia está indo bem ou mal. E a situação está crítica.

As vendas de caminhões em fevereiro, registraram a demanda de quase 5,2 mil caminhões vendidas. Volume este -32,6% inferior ao mês passado (7,7 mil). Sobre o mês de fevereiro do ano passado, quando foram vendidos 10,5 mil caminhões, a retração é de -50,6%.

Em resumo, o resultado deste mês “só é” o pior resultado dos últimos 108 meses. Só para ser um pouco mais agourento, tal resultado é o pior dos últimos nove anos!!!

O mesmo vale para os demais segmentos do setor de “bens de capitais”. As vendas de ônibus neste bimestre totalizaram 4,2 mil ônibus contra 5 mil dos primeiros dois meses do ano passado, retração de -15,5%. O setor de implementos rodoviários, o nosso TOP 5 (Randon, Noma, Fachinni, Guerra e Librelato) estão com perdas de -27,6%; as cinco marcas venderam 4,9 mil implementos neste bimestre, contra 6,8 sobre o primeiro bimestre do ano passado.

O setor de veículos pesados sofre todo o infortúnio possível! A baixa atividade econômica; os preços dos fretes que estão em queda; o aumento dos seus custos operacionais e a ausência (diminuição) dos canais de crédito impactam neste fraquíssimo resultado.

O monitoramento dos nossos “bens de capitais automotivos” é um sinalizador de como anda (ou como não anda) a economia. As incertezas em relação ao rumo da economia, dos demais indicadores (como juros, inflação, baixo crescimento), fazem aumentar o “nível de cautela” dos empresários e, por consequência, uma queda de investimentos que derruba as vendas de bens de capitais. Quem sofre mais neste cenário são as marcas com foco em caminhões pesados e extrapesados, como a Scania e Volvo. Por outro lado, a Ford, que foca na linha leve, “sofre menos”.

 

2. Motocicletas.

 

Apesar de todo o meu carinho para o setor de duas rodas, está difícil trazer notícias boas! Assim como o setor de caminhões, esse foi o pior resultado dos últimos 9 anos! Sim, as quase 94 mil motos vendidas em fevereiro resultam no pior resultado desde março de 2006. O setor viveu o seu recorde de vendas em 2011 com quase 2 milhões de motos vendidas mas, este ano, entram no seu quarto ano consecutivo de quedas nas vendas e, com sorte, venderemos 1,25 milhão de unidades (ou 750 mil motos perdidas nos últimos 4 anos). Nos dois primeiros meses do ano, tivemos quase 202 mil motos vendidas, contra 253 mil do primeiro bimestre do ano passado. Depois do boom em 2011, o setor de motos perdeu linhas de crédito de financiamento, ficando quase toda a totalidade (mais ou menos 60%) das suas vendas atrelada ao produto consórcio.

As vendas de cotas de consórcio são o que mantém toda a indústria do setor de duas rodas. O grande problema disso é que o produto consórcio possui uma maturação de médio prazo, ou seja, eles precisam vender muito agora para usufruírem daqui a uns 3 anos.

O produto consórcio também é a grande explicação para o monopólio da Honda, marca esta com 80% do mercado de motos; atrelado desde sempre às vendas de cotas de consórcio.

 

3. Veículos Leves

 

Por último, e não menos importante, o setor de carros. O sonho de todo brasileiro, fechou o mês de fevereiro, com quase 179 mil carros vendidos; ou apenas o pior resultado dos últimos 74 meses.

As vendas de veículos neste primeiro bimestre foram de quase 423 mil unidades contra 546 mil sobre igual período do ano passado. Ou seja, esse primeiro bimestre vendeu 123 mil carros a menos que o primeiro bimestre do ano passado, retração de -23%.

OK! Houve antecipações de compras em dezembro; o crédito automotivo vem minguando mês após mês; o consumidor está receoso sobre o seu futuro, mas nem o mais pessimista analista do setor automotivo (e olha que em geral é a gente!!) tinha imaginado um cenário tão nefasto como este.

Em outubro/novembro do ano passado tínhamos projetado um mercado com retração na ordem de -6% para 2015; só o primeiro trimestre (já tirando todas as sazonalidades) fechará na casa de -15%. A nossa nova revisão para o ano de 2015 aponta para um mercado na ordem de 2,9 a 3 milhões de unidades vendidas; ou retração de -10% a -13%, com leve tendência de melhora para 2016, mas é leve tendência.

Mesmo com a retração de -23%, o mercado não está péssimo para todos. Como sempre, o nosso quarteto asiático é o ponto fora da curva. Por exemplo, a Honda está com ligeiro crescimento de 0,02% mas, num mercado com -23%, eles encontraram um milagre. O restante do nosso quarteto está com -3,32% (Toyota); -8,76% (Nissan), e -12,54% (Hyundai).

 

VENDAS DE AUTOS E COM. LEVES - 1º BIMESTRE

MARCA

2015

2014

V%

Share 15

Share 14

FIAT

85.516

121.037

-29,35%

20,24%

22,18%

GM

74.917

96.483

-22,35%

17,73%

17,68%

VW

70.455

97.821

-27,98%

16,67%

17,93%

FORD

43.759

50.294

-12,99%

10,36%

9,22%

HYUNDAI

30.662

35.058

-12,54%

7,26%

6,43%

RENAULT

26.410

37.434

-29,45%

6,25%

6,86%

TOYOTA

23.977

24.801

-3,32%

5,67%

4,55%

HONDA

19.825

19.822

0,02%

4,69%

3,63%

NISSAN

9.766

10.704

-8,76%

2,31%

1,96%

MITSUBISHI

7.514

9.634

-22,01%

1,78%

1,77%

CITROEN

5.906

11.567

-48,94%

1,40%

2,12%

PEUGEOT

4.758

8.609

-44,73%

1,13%

1,58%

KIA

3.081

4.130

-25,40%

0,73%

0,76%

OUTROS

15.994

18.223

-12,23%

3,79%

3,34%

TOTAL

422.540

545.617

-22,56%

100%

100%

 

Pela ótica do faturamento, apenas para vocês terem ciência, neste bimestre, os quase 423 mil veículos vendidos foram comercializados por R$ 19,394 bilhões. Comparando com o mesmo período do ano passado, quando vendemos R$ 24,886 bilhões, o setor acumula perdas de R$ 5,492 bilhões. Perdemos, neste ano, basicamente o faturamento de marcas como: Mitsubishi, Toyota, Honda e Hyundai.

E quando as coisas não estão boas, até os “veteranos” sofrem! O antigo número 1 em vendas, agora está na oitava posição. O ranking de modelos mais vendidos exemplifica melhor:

 

RANK. FABRICANTE MODELO VENDAS PART. %   RANK. FABRICANTE MODELO VENDAS PART. %
FIAT PALIO 23.598 5,58%   27º GM SPIN 5.073 1,20%
GM ONIX 20.327 4,81%   28º RENAULT LOGAN 5.033 1,19%
FIAT STRADA 19.911 4,71%   29º FORD KA SEDAN 4.980 1,18%
HYUNDAI HB20 15.448 3,66%   30º GM COBALT 4.929 1,17%
VW FOX 14.822 3,51%   31º HONDA CIVIC 4.761 1,13%
FORD KA 14.641 3,46%   32º TOYOTA ETIOS HB 4.366 1,03%
FIAT UNO 14.580 3,45%   33º NISSAN MARCH 4.245 1,00%
VW GOL 13.699 3,24%   34º PEUGEOT 208 3.378 0,80%
GM PRISMA 12.499 2,96%   35º FORD RANGER 3.315 0,78%
10º VW UP 12.264 2,90%   36º RENAULT CLIO 3.247 0,77%
11º FIAT SIENA 12.193 2,89%   37º CITROEN C3 3.132 0,74%
12º VW SAVEIRO 10.524 2,49%   38º FIAT PUNTO 3.041 0,72%
13º RENAULT SANDERO 10.086 2,39%   39º TOYOTA ETIOS SEDAN 2.956 0,70%
14º HONDA FIT 9.649 2,28%   40º FIAT FIORINO 2.950 0,70%
15º FORD FIESTA 8.715 2,06%   41º MITSUBISHI L200 2.866 0,68%
16º TOYOTA COROLLA 8.416 1,99%   42º HYUNDAI TUCSON 2.718 0,64%
17º VW VOYAGE 8.369 1,98%   43º FORD FOCUS 2.481 0,59%
18º GM CELTA 7.502 1,78%   44º NISSAN SENTRA 2.461 0,58%
19º HYUNDAI HB20S 7.455 1,76%   45º HYUNDAI IX35 2.089 0,49%
20º GM CLASSIC 7.337 1,74%   46º VW AMAROK 2.073 0,49%
21º FORD ECOSPORT 6.197 1,47%   47º FIAT WEEKEND 2.060 0,49%
22º GM S10 5.899 1,40%   48º FIAT DOBLO 1.893 0,45%
23º TOYOTA HILUX 5.733 1,36%   49º GM CRUZE HB 1.857 0,44%
24º GM MONTANA 5.326 1,26%   50º MITSUBISHI ASX 1.778 0,42%
25º HONDA CITY 5.313 1,26%   OUTROS 59.132 13,99%
26º RENAULT DUSTER 5.223 1,24%   TOTAL 422.540 100,00%

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perfil do autor

Raphael Galante

É economista, trabalha no setor automotivo há 14 anos e atua como consultor na Oikonomia Consultoria Automotiva.

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