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Os fundos de investimento no agronegócio (Fiagros) acompanharam a euforia dos mercados após o primeiro turno da eleição presidencial e registraram ganhos de até 11% na semana passada. Levantamento do InfoMoney com a ferramenta de fundos da Economatica mostra dez Fiagros com alta superior a 5% entre o fechamento de 2 de outubro, último pregão antes da votação, e 9 de outubro, depois que as urnas mostraram o candidato Flávio Bolsonaro à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois disputam o segundo turno em 25 de outubro.
Boa parte do ganho veio do ajuste à queda dos juros futuros e à valorização dos ativos de renda variável. O movimento refletiu a aposta do mercado na vitória de um candidato visto como mais pró-mercado, com uma política fiscal mais restritiva que abriria espaço para uma queda maior da taxa básica de juros.
Os dados mostram, porém, que o salto recente não foi suficiente para compensar as perdas de algumas carteiras, que seguem negativas no ano por conta de casos de inadimplência no setor. É um lembrete de que esses fundos carregam riscos além das oportunidades de ganho – além da possível valorização das cotas, o retorno em dividendos permanece elevado, com dividend yield de até 19% ao ano.
| Ticker | Gestor | Semana pós-1º turno* | 2026 | Dividend Yield** | P/VP*** |
|---|---|---|---|---|---|
| AAZQ11 | Az Quest | 11,09 | -22,72 | 19,22 | 0,7 |
| CPTR11 | Capitania Capital | 9,05 | 12,92 | 16,54 | 0,8 |
| FTCA11 | Fyto Capital | 7,91 | -10,32 | 18,67 | 0,7 |
| IAAG11 | Inter Asset | 6,87 | 0,35 | 17,87 | 0,8 |
| KNCA11 | Kinea | 6,4 | 4,58 | 13,74 | 0,9 |
| JGPX11 | JGP Gestão | 6,17 | -14,16 | 19,15 | 0,6 |
| BTAL11 | BTG Pactual | 5,92 | 15,73 | 13,43 | 0,8 |
| VHFA11 | Valora Imob. Infra | 5,89 | 24,72 | 14,74 | 1,3 |
| GCRA11 | Galapagos Capital | 5,86 | 12,07 | 15,69 | 0,6 |
| CRAA11 | Sparta | 5,12 | 11,98 | 14,85 | 0,9 |
Cotas baratas e dividendos acima da Selic
A grande maioria dos Fiagros listados ainda negocia com desconto sobre o valor patrimonial, afirma Jônatas Couri, diretor de Agro da Suno Asset. “Pode-se dizer que o desconto médio está entre 10% e 15% sobre o valor estimado pelo gestor dos ativos do fundo, o chamado Preço/Valor Patrimonial (P/VP)”, explica. Entre os fundos do levantamento, os descontos são ainda maiores, com P/VP entre 0,6 e 0,9 em nove dos dez casos.
Segundo Couri, os fundos entregam hoje um rendimento médio equivalente ao CDI mais 2% ao ano. “Se as cotas subirem para o valor patrimonial, o retorno total desses fundos, incluindo o ganho de capital, iria para uma média de CDI mais 3% ao ano isentos de imposto”, estima.
Amanda Coura, sócia-fundadora da Zera.AG, especializada em crédito para o agronegócio, também vê o desconto como atrativo. “Se pegarmos o preço de tela e o compararmos com o valor patrimonial, existe um desconto intrínseco, tem muitas oportunidades de compra”, diz.
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Ela compara o retorno médio dos Fiagros com uma aplicação atrelada à Selic, hoje em 13,75%. Os fundos pagam entre 1% e 1,5% ao mês, isentos de Imposto de Renda, o que equivale a pelo menos 12% ao ano. Na Selic, o retorno líquido seria de cerca de 10,7% com a alíquota de 22,5%, cobrada em aplicações de até seis meses, e de 11,7% com a alíquota mínima de 15%, para prazos acima de dois anos. “E além desse rendimento, tem a possibilidade de ganho com o desconto na cota”, ressalta.
R$ 20 bilhões em ofertas e varejo em alta
Somando fundos listados e não listados, o patrimônio dos Fiagros chegou a R$ 65,8 bilhões em julho, segundo levantamento da Oliveira Trust com dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Os fundos negociados em Bolsa respondem por cerca de um terço desse total. Coura projeta que o patrimônio atinja até R$ 100 bilhões ainda este ano, impulsionado por ofertas de grandes instituições. “Temos o Itaú Unibanco, o BTG Pactual e a XP com ofertas que somam mais de R$ 20 bilhões”, conta.
De acordo com a executiva, os bancos estão ampliando a oferta de Fiagros e reduzindo a de Letras de Crédito do Agronegócio (LCA). As LCAs exigem maior patrimônio e provisões e destinam parte dos recursos a aplicações compulsórias.
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Há também o crescimento do interesse das pessoas físicas, que, segundo Coura, já somam mais de 600 mil investidores e respondem por um terço do total aplicado. “São pessoas que encontram cotas baratas para investir, a partir de R$ 10”, aponta.
Esse investidor, porém, é mais sensível às oscilações de mercado, o que aumenta a volatilidade das cotas. “O investidor de varejo morre com o som da bala, qualquer coisa se desespera, vende a qualquer preço, mas também se anima com o barulho do rojão, sai comprando por impulso, então tem ainda uma assimetria de informação que acaba mexendo com a cotação dos Fiagros”, diz. Para ela, isso faz com que ainda seja possível encontrar boas oportunidades de compra, especialmente na comparação com o CDI.
Dividendo alto não basta, diz gestor
Na Suno, o agronegócio responde hoje por R$ 2,2 bilhões dos R$ 6 bilhões sob gestão. A carteira do setor inclui dois Fiagros listados em Bolsa, um não listado e dois fundos de recebíveis (FIDCs), e a estimativa é encerrar o ano com R$ 2,5 bilhões. “O momento é superpositivo para os Fiagros, de descoberta dos investidores um pouco mais qualificados e que veem a oportunidade de comprar cotas por um preço abaixo do patrimônio, o que pode proporcionar ganhos de capital, além dos dividendos isentos”, diz Couri.
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Para ele, os Fiagros se tornaram uma plataforma para financiar o agronegócio de diferentes maneiras, o que também oferece diferentes estratégias ao investidor. “No mesmo veículo cabe o investimento em recebíveis de crédito para o produtor ou empresa do setor ou em terras, como fazendas, ou no financiamento de infraestrutura, como irrigação ou armazenagem”, explica. “Por isso também o investidor precisa entender qual risco ele está comprando ao investir e não olhar apenas o rendimento ou o desconto das cotas”, alerta, acrescentando que cada estratégia traz um risco, um prazo, um perfil de garantias e um retorno.
Couri recomenda avaliar a consistência do fundo, a regularidade do pagamento de dividendos e a liquidez das cotas, além da diversificação de riscos. “Os Fiagros podem investir em diferentes culturas, regiões, perfis de produtores, assim eles reduzem os riscos de eventos, como no caso do El Niño esperado para este ano, que pode causar seca em uma região, mas beneficiar outra com mais chuvas”, aponta. Condições de El Niño já foram confirmadas em junho, segundo boletins oficiais, e o fenômeno deve influenciar a safra 2026/27.
“O investidor pode abrir mão de um ganho de 1% ou 2% por ano, mas em troca ter liquidez, mais garantias e menor risco”, afirma. Ele lembra que o risco do investimento no agro não desaparece, mas é diluído por garantias e por estratégias como a diversificação.
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Diante dessa variedade de instrumentos e perfis, Couri acredita que o mercado de Fiagros caminha para uma consolidação nos próximos anos. “Devemos ter uma próxima fase, com fundos e gestoras com especialização real no agronegócio e que devem fazer a diferença, dando maior estabilidade de dividendos e comprando papéis adequados ao perfil do devedor e do investidor”, diz.
Insegurança jurídica é calcanhar de Aquiles
O gestor também aponta a segurança jurídica como tema central para os Fiagros e para o setor no próximo ano. Segundo ele, várias decisões judiciais, especialmente de primeira instância, mostram desconhecimento da regulamentação desses fundos. Essas decisões tratam ativos dados como garantia como bem essencial e não fazem distinção entre posse e propriedade. “O grande nome do jogo para 2027 seria o governo, seja qual for, trazer uma pacificação jurídica nas questões do agronegócio, que traria mais apetite dos investidores e uma precificação mais justa dos créditos”, avalia.
Couri cita como exemplo o Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI). Esse custo precisa ser considerado em algumas operações para o caso de execução da garantia, o que encarece o crédito para o tomador. “E esse custo maior vem em uma fase em que as margens estão mais apertadas no agronegócio, que reduz o resultado positivo na última linha para repagar os empréstimos”, diz.
Ainda assim, a expectativa do gestor é de expansão dos Fiagros no ano que vem, por diferentes frentes. Do lado dos tomadores, ele vê maior maturidade e sofisticação, com investimentos em processos e governança e o aprendizado no uso do mercado de capitais. Do lado dos investidores, fundos de renda variável e de renda fixa passaram a olhar mais para o agronegócio, e a perspectiva de maior estabilidade macroeconômica deve trazer mais segurança. Já os bancos precisam remover dos balanços o que foi arrestado nas recuperações judiciais e mostram menor disposição para financiar o setor via crédito tradicional.
“Existem diferentes ângulos para apostar no crescimento nos Fiagros, mas trazendo diferentes soluções”, conclui.
