Cripto amadurece em 2023, mas não acaba com tokens sem sentido – e um sobe 7.500%

Espírito adolescente das criptomoedas segue vivo mesmo após começaram a ser levadas mais a sério por Wall Street – e rendendo altos lucros

Paulo Barros

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Qualquer conversa com especialistas sobre o balanço das criptomoedas em 2023 leva a um mesmo caminho: de que o ano foi de amadurecimento para o mercado. Afinal, foi quando a gigante BlackRock mostrou interesse pelo setor, jogando o Bitcoin (BTC) nos braços dos investidores institucionais.

“O ponto de virada foi quando Larry Fink defendeu o Bitcoin em uma entrevista”, relembra Alexandre Vasharhelyi, CIO da gestora BLP Crypto, que abriu o primeiro fundo de criptomoedas do país, em 2018. Em julho, à Fox Business, o CEO da BlackRock disse que o BTC era um “ativo internacional”. Na época, a declaração fez a criptomoeda atingir seu maior preço em mais de um ano.

Mas, como traços da puberdade que demoram a sumir, os tokens inspirados em memes ainda insistem em marcar presença. O Bitcoin acumula alta de mais de 150% no ano, nem de longe o percentual astronômico atingido por algumas criptomoedas que, apesar de suspeitas, entraram na lista das 100 maiores. A campeã de 2023 é mais uma “meme coin” com temática de cachorro: chamada Bonk (BONK), ela subiu 7.480% desde janeiro.

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Confira as criptomoedas que mais valorizaram em 2023:

CriptomoedaPreçoValorização em 2023
Bonk (BONK)US$ 0,000014957.480%
Injective (INJ)US$ 38,742.950%
Kaspa (KAS)US$ 0,1041.880%
Render (RNDR)US$ 4,991.170%
Solana (SOL)US$ 115981%
Conflux (CFX)US$ 0,192776%
WEMIX (WEMIX)US$ 3,08747%
Fetch.ai (FET)US$ 0,736703%
Stacks (STX)US$ 1,56645%
Immutable (IMX)US$ 2,50551%
Fonte: CoinMarketCap (data de corte: 27/12/2023, às 12h)

O múltiplo de 70 vezes foi fora da curva para os ativos de maior valor de mercado, mas tokens ligados a projetos de maior reputação também tiveram altas expressivas. O Injective Protocol (INJ), que alimenta uma bolsa autônoma, subiu na casa de 3.000% no ano. Já Render (RNDR), focada em redes de processamento para inteligência artificial, e a Solana (SOL), vista como rival mais à altura do Ethereum (ETH), avançaram cerca de 1.000% no período.

Fundos que investem nesses ativos destoaram do todo e entregaram retornos invejáveis em um ano de muita volatilidade na Bolsa e até na renda fixa. No Brasil, o Empiricus Criptomoedas FIM apresentou retorno de 84% (até 8 de dezembro), bem acima dos 12,34% do CDI, índice de referência dos multimercados. Em cinco anos, o BLP Crypto 100 FIM, que investe 99% em ativos digitais, acumula quase 700% de rentabilidade.

Lá fora, o ano foi de virada para o fundo Chainview Capital, que dobrou o patrimônio após cair 18% em 2022. “Parece que mais um frenesi de tokens está chegando”, disse o fundador Dan Slavin à Bloomberg. Para ele, o clima no mercado cripto parece muito com o de três anos atrás. “Em muitos aspectos é um ano dos sonhos”, falou.

Confira o desempenho das 10 principais criptomoedas em 2023:

CriptomoedaPreçoValorização em 2023
Bitcoin (BTC)US$ 42.621156%
Ethereum (ETH)US$ 2.23786%
Solana (SOL)US$ 115981%
BNB (BNB)US$ 28526%
XRP (XRP)US$ 0,62285%
Cardano (ADA)US$ 0,611152%
Avalanche (AVAX)US$ 46,47297%
Dogecoin (DOGE)US$ 0,09232%
Polkadot (DOT)US$ 9,17106%
Polygon (MATIC)US$ 0,88142%
Fonte: CoinMarketCap (data de corte: 27/12/2023, às 12h)

Mas “fenômenos” como o da criptomoeda Bonk voltam a ligar o alerta: e se for um golpe como tantas outras? Não à toa, reguladores preparam artilharia para lidar com esse problema em 2024. No Brasil, o Banco Central abriu consulta para colher subsídios para regulamentar o mercado, e deve criar regras para o processo de listagens desses ativos nas exchanges.

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“Hoje estamos mais maduros e temos mais capacidade para fazer essas análises de risco, e a possibilidade de o BC tornar isso obrigatório passa por uma questão de compliance, porque existem várias boas práticas que podem ser implementadas no seio de uma prestadora de ativos virtuais”, avalia Julieti Brambila, head de governança do Itaú Digital Assets.

Um dos desafios é o trânsito dessas criptos menores em ambientes descentralizados, sem uma figura central identificável. “Não temos uma bala de prata, mas mercado e regulador estão empreendendo os melhores esforços para incluir a supervisão de DeFi na regulação”, pondera Julieti.

Para o ano que vem, a expectativa é de ainda mais valorização do Bitcoin, o que tende a empurrar mais uma vez os ativos de menor porte e maior risco.

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“Comprar Bitcoin abaixo de US$ 30 mil sem a BlackRock é diferente de comprar acima de US$ 30 mil com a BlackRock”, reforça Vasharhelyi. “Os preços estão subindo não porque o dinheiro entrou, mas porque secou a venda. O fluxo ainda nem começou”.

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Paulo Barros

Jornalista, editor de Hard News no InfoMoney. Escreve principalmente sobre economia e investimentos, além de internacional (correspondente baseado em Lisboa)