Vela

Em águas inconstantes, Martine Grael e Kahena Kunze buscam no Japão segundo ouro olímpico

Dupla campeã olímpica na Rio-2016 busca aumentar o grupo de atletas brasileiros com dois ouros seguidos nos Jogos

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Primeiro dia de treinos oficiais em Enoshima, Japão, de Martine Grael e Kahena Kunze (Daniel Vasco/COB)
Primeiro dia de treinos oficiais em Enoshima, Japão, de Martine Grael e Kahena Kunze (Daniel Vasco/COB)

No esporte, existem algumas formas de se competir. Individualmente, em dupla ou em um time são as mais comuns e que acontecem nos Jogos Olímpicos. Segundo o dicionário, a palavra dupla é “qualquer associação de duas pessoas orientadas para o mesmo propósito” e a definição não poderia encaixar melhor do que em Martine Grael e Kahena Kunze.

A dupla brasileira conquistou a medalha de ouro na classe 49erFX da vela nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e busca um feito quase histórico para o Brasil em uma Olimpíada. Apesar de contar com 13 atletas bicampeões olímpicos, apenas Adhemar Ferreira da Silva do salto triplo, em 1952 e 1956, e Fabi, Fabiana, Sheilla, Paula Pequeno, Jaqueline e Thaísa, da seleção brasileira feminina de vôlei, em 2008 e 2012, conquistaram o topo do pódio olímpico de maneira consecutiva.

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Para isso, Martine Grael e Kahena Kunze precisam superar o difícil mar japonês. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio, as competições de vela acontecerão em Enoshima, localizada na baía de Sagami, e a inconstância da água será um fator.

“Aqui é um pouco uma caixinha de surpresa. É uma raia que a gente tem que estar preparada para tudo. Já pegamos vento muito fraco e vento muito forte. Nos últimos anos já pegamos de tudo e vamos seguir nos preparando”, disse Martine Grael.

“Nossa primeira regata é só dia 27 de julho. Para ver a meteorologia para ela é complicado agora por conta dessa inconstância do mar. Foi bom ter chegado antes para se adaptar para o evento”, comentou Kahena Kunze.

Tomando risco

A dupla formada por Martine Grael e Kahena Kunze não é “feita” para o esporte. Com diferença de apenas um mês entre o nascimento de cada uma das atletas, as duas, que se conhecem e são amigas desde pequenas, chegam no Japão aos 30 anos de idade e com uma bagagem dentro da modalidade.

Amigas desde antes do esporte, Martine e Kahena não são “apenas” as atuais campeãs olímpicas da classe 49erFX. Em 2016, as brasileiras chegaram para a Olimpíada como uma das candidatas ao pódio em sua classe e uma decisão na última regata foi primordial para a conquista.

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Na última regata da 49erFX na Olimpíada do Rio de Janeiro, Martine e Kahena decidiram fazer um caminho diferente, em relação as outras competidoras, e dessa forma conseguiram cortar a diferença para as líderes da disputa na ocasião.

“Foi difícil, mas foi o pontapé inicial para ganhar a medalha. Se a gente tivesse montado a boia que as outras montaram, a gente ia ter mais dificuldade porque elas iam marcar a gente. Foi excelente para [o barco] poder se aproximar mais”, contou Kahena na época.

Após a confirmação da medalha de ouro, Martine e Kahena fizeram com que um feito pouco comum na vela acontecesse. Com a saída da água lotada de brasileiros, amigos e familiares, as atletas foram ovacionadas e carregadas pela torcida presente na Baía de Guanabara.

“O que a gente viveu no Rio de Janeiro vai ficar na memória, eternizado e eu fico feliz de ter vivenciado algo como aquilo. De repente aqui a gente vai ter um fã no máximo que está como voluntário”, disse Kahena, comparando a situação de 2016 ao fato de os Jogos Olímpicos de Tóquio não terem presença de público.

Primeiro dia de treinos oficiais em Enoshima, Japão, de Martine Grael e Kahena Kunze (Daniel Vasco/COB)
Primeiro dia de treinos oficiais em Enoshima, Japão, de Martine Grael e Kahena Kunze (Daniel Vasco/COB)

Lembrar de casa e olhar para equipe

O desafio de se manter no topo não acontece uma vez a cada quatro ou, no caso da Olimpíada de Tóquio, cinco anos. As dificuldades e batalhas enfrentadas por Martine e Kahena foram diárias e a dupla brasileira conseguiu se manter quase sempre entre as melhores do mundo.

Tirando o período em que o mundo “parou” por conta da pandemia do coronavírus, as brasileiras mantiveram o nível apresentado na última edição dos Jogos Olímpicos. No Mundial de 2019, último realizado na classe 49erFX, Martine e Kahena ficaram com a medalha de prata. Mais recentemente, na Regata Internacional de Lanzarote, na Espanha, que reuniu os principais nomes da modalidade em um último teste para a Olimpíada, as representantes do Brasil saíram com o título.

Ser bicampeão olímpico para o Brasil é um feito incomum. Entretanto, no caso da vela, isso não é tão raro. Na equipe brasileira em Tóquio estão Torben Grael e Robert Scheidt, os maiores medalhistas olímpicos do país, com cinco pódios cada um.

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Dono de dois ouros, duas pratas e um bronze, Scheidt é o primeiro no “ranking” de maiores medalhistas do Brasil em Jogos Olímpicos. Indo para a sua sétima participação, o atleta é direto ao comentar sobre as chances de pódio do time brasileiro na capital japonesa. “Martine e Kahena são as atuais campeãs olímpicas e fizeram um ciclo muito bom. Temos chances e uma equipe muito boa para chegar no pódio”.

Além de ser o segundo no ranking olímpico brasileiro, com dois ouros, uma prata e dois bronzes, Torben Grael tem a questão familiar envolvida. O ex-atleta, e hoje chefe de equipe da vela em Tóquio, é pai de Martine e sabe que a modalidade tem o desafio de manter a tradição. “A nossa expectativa é manter a tradição. De 1968 até hoje só em dois Jogos Olímpicos nós passamos em branco e estamos trabalhando isso”.

Nos primeiros dias no Japão, Torben Grael, Martine Grael, Kahena Kunze e toda a equipe de vela do Brasil passaram muitas horas aprontando os barcos de competição fora da água e passarão para a parte de treinos na água nos próximos dias.

A guerreira e o juízo

Segundo a filosofia asiática e mais precisamente a chinesa, o equilíbrio é encontrado com a igualdade entre os opostos e a dupla brasileira tem um pouco disso também. O nome Martine tem como significado “aquela que é guerreira” e o Kahena vem de “juízo divino”. Compondo uma guerreira com juízo, as brasileiras chegam em busca do bicampeonato olímpico na edição histórica que serão os Jogos Olímpicos de Tóquio.

Não bastasse ser a primeira vez que aconteceu um adiamento e não bastasse tudo que envolve uma Olimpíada em um período pandêmico, a edição na capital japonesa tem outro fator importante. Em 2021, os Jogos Olímpicos terão mais de 48% de atletas mulheres, a maior presença feminina na história.

Martine e Kahena fazem parte desse percentual, que cresce cada vez mais, e nunca esconderam o que pensam sobre esse equilíbrio maior e mais presente entre homens e mulheres. “Me deixa muito feliz ver as mulheres competindo em alto nível. Me deixa feliz e bastante orgulhosa. È seguir para que na próxima seja com mais mulheres e mais igualdade em tudo”, finalizou Martine.

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