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Entrar no IPO e vender as ações na estreia: vale a pena “flipar” em 2021?

Mais de 40 empresas abriram capital no último ano e em alguns casos, os preços dos papéis dispararam no primeiro dia. Conheça os riscos de ser um “flipper”

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Teclado de computador com a tecla IPO
(Shutterstock)

SÃO PAULO – Os juros na mínima histórica e a recuperação da Bolsa nos últimos meses têm levado mais empresas a abrir capital. Em apenas um ano, mais de 40 empresas fizeram sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na B3.

Só nesta quarta-feira (18), foram duas: Eletromídia (ELMD3), maior companhia de painéis de publicidade do país, e Orizon (ORVR3), de tratamento de resíduos ambientais e geração de biogás. Para amanhã, está prevista a chegada das ações da CSN Mineração (CMIN3).

Em alguns casos, os preços das ações dispararam já no primeiro dia de negociação. O mais surpreendente dos últimos dias foi o da Mosaico (MOSI3), dona dos comparadores de preços Buscapé, Bondfaro e Zoom: as ações subiram 97% logo no pregão de estreia, em 5 de fevereiro.

Mas isso também ocorreu com as ações da MPM Corpóreos (ESPA3), dona da EspaçoLaser Depilação, que avançaram 17,2% já na largada, e da loja online de móveis Mobly (MBLY3), que terminaram o primeiro pregão com alta de 25,7%, segundo dados da Economática.

Valorizações expressivas como essas, é claro, não acontecem sempre. Mas, quando são vistas, chamam atenção para uma estratégia conhecida como “flipar”.

“Trata-se de comprar ações previamente, durante o período de reserva da oferta, para vendê-las em seguida, no dia do lançamento dos papéis no mercado”, explica Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos.

“O objetivo é lucrar com a valorização do papel, seguindo a volatilidade do momento e dependendo da demanda pelas ações da empresa”.

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O InfoMoney ouviu especialistas e detalha abaixo três aspectos importantes a considerar caso você esteja pensando em se tornar um “flipper”:

1) Nem sempre dá para flipar em um IPO

É importante considerar que nem sempre é possível vender as ações de um IPO no primeiro dia de negociação – e a questão não são necessariamente as condições do mercado, mas, sim, as características técnicas da operação.

Muitas empresas tentam evitar a ação dos flippers criando alguns mecanismos para desestimular os investidores a se desfazerem dos papéis rapidamente.

Do ponto de vista das companhias, a movimentação dos investidores na estreia dos papéis tem dois lados. Quando é equilibrada, ajuda a dar liquidez às ações, o que considerado bom.

Mas quando é excessiva, acrescenta volatilidade demais aos papéis, afastando outros investidores que poderiam se interessar por comprá-los e mantê-los na carteira.

Por isso, tornou-se comum as empresas criarem um lock-up nas ofertas. É um período – normalmente de algumas semanas – em que os investidores são obrigados manter os papéis. Só depois de encerrado esse prazo eles são autorizados a vender as ações no pregão.

Não significa que todos os investidores ficam sujeitos a essa regra. Uma prática recorrente é as empresas dividirem as pessoas que querem participar do IPO em dois grupos: um formado por quem aceita o lock-up e outro com quem não quer ter essa restrição de negociação.

“Como preferem ter investidores que aceitam o lock-up, elas destinam uma parcela maior das ações para eles”, diz Renato Chanes, analista de ações da Spiti.

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Vários IPOs recentes tiveram esse mecanismo, como o da própria Mosaico ([ativo=MOSA3]). A operação previa destinar até 10% das ações para pequenos investidores. Desse total, 7% ficariam com quem aceitasse mantê-las na carteira até 16 de março (as ações foram lançadas em 5 de fevereiro). E apenas 3% seguiriam para os investidores que não quisessem se submeter ao lock-up.

O mesmo foi previsto na oferta da Bemobi (BMOB3), que estreou na Bolsa no dia 10 de fevereiro, com um lock-up até o dia 26 de março. De partida, 8% das ações foram separados para investidores que topassem a restrição e 2%, para o restante.

“Normalmente, já é a menor parte dos IPOs que fica com os chamados investidores de varejo. E como uma parcela menor ainda é destinada a quem não aceita o lock-up, é de se supor que essas pessoas consigam comprar apenas poucas ações”, afirma Chanes.

As informações sobre a existência, os prazos e o tamanho do lock-up em um IPO estão sempre disponíveis no prospecto, que reúne todos os detalhes de cada operação. O documento pode ser consultado no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

2) Prepare-se para garimpar informações

Ao realizar um IPO, as empresas disponibilizam uma série de informações financeiras ao mercado, contidas no prospecto. Dessa forma, quem investe nas ações com horizonte de longo prazo tem elementos para avaliar se as perspectivas para o futuro da companhia são boas ou não.

Já quem prefere operar no curto prazo, negociando os papéis em intervalos pequenos de tempo, esbarra em uma dificuldade.

A principal ferramenta desses investidores são os gráficos de cotações, que oferecem indicações de qual pode ser o comportamento futuro das ações. Só que uma ação que nunca foi negociada antes não possui um histórico de cotações – e, portanto, é impossível inseri-las em um gráfico para analisar.

Outro elemento importante a considerar, segundo Chanes, é o que os especialistas do mercado chamam de assimetria de informações.

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É difícil para os investidores de varejo avaliar elementos que podem ser decisivos para o desempenho das ações no primeiro dia de negociação, como a demanda pelos papéis durante a oferta.

Por isso, quem compra ações em IPOs já pensando em se desfazer delas na estreia não tem muita clareza do que pode acontecer com os papéis no curtíssimo prazo – e às vezes lucra mais por “acidente” do que por ter feito uma análise aprofundada da operação.

“Escolher uma empresa para entrar em um IPO deve seguir a mesma ideia de escolher qualquer outra ação para investir: é preciso estudar os números e verificar se há potencial de alta dos papéis no futuro”, diz Betina. “Participar de um IPO só para tentar capturar ganhos com a volatilidade do momento, sem entender os fundamentos, é um risco”.

Para quem, mesmo calculando os riscos, ainda quer flipar, vale a pena considerar o seguinte:

  • Operações desse tipo são mais indicadas para quem já tem experiência com renda variável e um nível alto de tolerância a risco.

  • É importante se manter informado. No período que antecede a estreia de uma ação na Bolsa, costumam ser divulgadas informações sobre a procura pelos papéis no mercado. Essas notícias e as avaliações da empresa feitas por casas de análise especializadas, segundo Chanes, podem ajudar a formar uma noção da demanda da oferta, indicativo relevante para o desempenho nos primeiros dias da negociação na Bolsa.

  • Também é necessário avaliar o setor em que a empresa está inserida. “Como foram os IPOs recentes das outras companhias do mesmo segmento? Como as ações estão se comportando na Bolsa desde então? Vale tentar entender se é um segmento em que o mercado está de olho ou não”, afirma Chanes.

3) A ação pode não subir – e você precisará tomar uma decisão

Você entrou em um IPO com a intenção de vender as ações no primeiro dia de negociação, mas suas expectativas acabaram frustradas. Em vez de subir, os papéis caíram. O que fazer?

Existem duas opções. Uma delas é esperar. Pode se tratar de um revés momentâneo que se dissipe no tempo. “Você pode fazer isso se acreditar que existe potencial para o preço da ação ser corrigido no médio ou longo prazo”, afirma Betina.

Foi o que aconteceu com uma das ações badaladas deste ano, da startup Méliuz, de serviços financeiros. Embora tenha terminado o dia da estreia na Bolsa – em novembro de 2020 – com queda de 6,50%, acumulava alta de 183% até dia 12 de fevereiro.

A segunda opção é ser pragmático. “Quem quer flipar tem uma estratégia definida em mente, que é entrar e sair logo do papel. Se você se decepcionou com o desempenho das ações no primeiro dia, venda as ações e assuma o prejuízo”, diz Chanes.

Um início ruim, segundo o analista, pode ser um indicativo de que, no momento, o mercado não tem uma perspectiva tão positiva assim para a empresa. “Se sua intenção não é ser acionista da companhia, por que ficar segurando os papéis?”

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