Moda

Varejo de moda recupera vendas pré-pandemia, mas com rentabilidade pressionada

Apesar da pressão de custos e de despesas operacionais, sobretudo no avanço ao digital, há boas expectativas para as empresas em 2022

Por  Carla Carvalho -

Passados os piores momentos da pandemia, as vendas no varejo de moda retomaram crescimento, sendo que algumas companhias conseguiram superar o faturamento pré-pandemia. Melhores perspectivas foram relatadas por Lojas Renner (LREN3), C&A (CEAB3), Riachuelo (GUAR3), Marisa (AMAR3), Soma (SOMA3) e Arezzo (ARZZ3).

Para Bruno Damiani, analista de varejo da Western, a expectativa é de que o crescimento das vendas, sobretudo nas mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês), continue em 2022. “O SSS saudável vale para todas, mas em especial para a Renner”, pontuou.

Se por um lado, há de se comemorar o aumento das vendas, por outro há elevação de pressão dos custos de produção e de despesas operacionais (vendas, gerais e administrativas). Quanto aos custos, a alta do preço do algodão e dos fretes foram as principais causas da queda das margens no 4º trimestre.

Já o aumento das despesas operacionais está bastante ligado aos investimentos em transformação digital e omnicanalidade, dois conceitos que fazem parte da estratégia de todas as varejistas brasileiras de moda.

Varejo de moda se digitaliza

Para Rafael Ragazi, analista da Nord Research, todas as varejistas estão passando por uma dinâmica semelhante. Isso se refere tanto à retomada de receitas quanto ao aumento de custos de produção e gastos para deixá-las mais digitais.

“Com a pandemia, todas aceleraram esses investimentos, pois nenhuma estava tão digitalizada. Quem já tinha planos, intensificou-os. E, quem ainda não tinha, teve que correr para acelerar a transformação digital”, observa.

O analista ainda destaca que a digitalização das vendas traz outros gastos além do investimento em si. “Vender mais no digital pressiona as margens, pois há mais gasto com frete e marketing. Porém, isso traz um crescimento que diferencia as grandes varejistas das pequenas”, avalia.

Outro ponto importante diz respeito à operação multicanal no varejo. Segundo Ragazi, a omnicanalidade já não é mais uma opção, e sim uma condição fundamental para ampliar ou mesmo manter a participação de mercado.

Em meio a todas essas transformações, as varejistas ainda precisarão lidar com um cenário macro turbulento. Nesse sentido, incertezas sobre o arrefecimento dos custos, juros altos e novos entrantes (como a Shen, que abriu loja física no Rio recentemente) são alguns dos desafios que esperam pelo varejo de moda em 2022.

A seguir, confira a síntese dos últimos resultados e as perspectivas para as seis principais varejistas brasileiras de moda.

1. Lojas Renner (LREN3)

Em 2021, a receita líquida consolidada da Renner foi de R$ 10,5 bilhões, 40% acima do registrado em 2020. Por outro lado, o lucro líquido do exercício ficou 42% abaixo do exercício anterior, totalizando R$ 633 milhões.

Na teleconferência de resultados, o CFO, Daniel Santos, destacou outros pontos que contribuíram para a queda das margens, além da alta dos custos de produção e do aumento das despesas. Segundo o executivo, a produtividade das lojas ainda está abaixo do usual por conta da pandemia. Além disso, gastos com um novo centro de distribuição também impactaram negativamente o resultado.

Apesar do resultado abaixo das expectativas do mercado, a companhia está otimista. Nesse sentido, Santos afirmou que a maturação do novo CD deve gerar até 3 pontos percentuais em eficiência, e os canais digitais também devem se tornar mais eficientes. De acordo com o CFO, isso levará a Renner a chegar mais próximo dos níveis de eficiência de 2019.

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Controle de custos

Mesmo com performance aquém das expectativas no 4º trimestre, a companhia é a preferida dos analistas no varejo classes B e C. Para Ragazi, um dos grandes diferenciais da Renner é a gestão da operação.

De acordo com o analista da Nord, historicamente a Renner é quem tem o melhor controle e gestão de estoques. “Às vezes, podemos achar que, pelo fato de o core business do varejo ser a gestão de estoques, todos saberão fazer bem. Mas isso não é a realidade”, observa.

Segundo o analista, a Renner tem a operação na mão. Além disso, suas margens não somente são maiores, como mais estáveis ao longo dos anos, comparadas às das outras varejistas de moda.

Ragazi também destaca o posicionamento de marca da empresa, muito mais claro e estável do que o das concorrentes. Na sua opinião, isso fideliza e aumenta a recorrência de compras em todos os canais de venda.

Outro importante diferencial da Renner apontado por especialistas é a utilização da inteligência artificial (IA) na operação. Atualmente, quase 100% das vendas da empresa são projetadas com IA, o que não é uma realidade para todas as empresas do setor, ao menos não na mesma proporção.

Em relação à penetração digital, Ragazi observa que as vendas da Renner neste canal estão na faixa de 12%. Por sua vez, o percentual das concorrentes atinge 10% ou menos.

A criação de um ecossistema, que amplia a quantidade de marcas e oferece serviços diferentes (como a aquisição do brechó online Repassa) é outro ponto positivo destacado por analistas. Para o analista da Nord, o planejamento estratégico e a capacidade de execução da Renner são importantes diferenciais frente à concorrência.

Capitalizada

Por fim, a solidez financeira e a folga de caixa também colaboram para a preferência pelos papéis da Renner entre as varejistas.

Em abril do ano passado, a empresa fez follow-on no qual captou R$ 3,9 bilhões. Logo que captou os recursos, o mercado imaginou que havia alguma aquisição em vista por parte da Renner.

Porém, até agora, a empresa dá a entender que o objetivo foi mesmo a execução do plano de investimentos que já tinham para os próximos três anos – abertura de lojas, construção do novo CD e investimentos em tecnologia.

“No follow-on, a Renner praticamente pegou um cheque em branco. Pouquíssimas empresas conseguiriam fazer isso, pois é preciso muita confiança por parte dos investidores sem que haja um projeto muito específico, como comprar uma empresa ou algo do gênero”, avalia o analista da Nord.

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2. Riachuelo (GUAR3)

A Guararapes, dona da Riachuelo, encerrou 2021 com vendas líquidas consolidadas de R$ 7,2 bilhões, um crescimento de 15,6% em relação ao ano anterior. Quanto ao resultado, conseguiu reverter o prejuízo de R$ 27 milhões de 2020, encerrando o ano passado com lucro líquido de R$ 453 milhões.

Assim como as outras varejistas, a companhia sofreu impacto da alta do algodão, custos de fretes e despesas com a transformação digital. Por outro lado, em documento publicado na sua divulgação de resultados, a Guararapes ressalta o crescimento de 72% em volume bruto de mercadoria nas suas vendas digitais. Outro destaque foi a oferta de serviços financeiros na Midway (braço financeiro do grupo), que já tem 1,5 milhão de contas abertas.

Ainda na divulgação dos resultados, a companhia informou que 2021 foi um ano de transição. Nesse sentido, um dos grandes desafios foi manter a rentabilidade com uma carteira mais reduzida, e conseguiram isso melhorando a qualidade de crédito.

Para Damiani, da Western, Guararapes e C&A têm dinâmicas muito parecidas. Na sua opinião, além de serem direcionadas ao mesmo público (Renner está um pouco acima quanto à faixa de renda), ambas estão investindo no ecossistema com produtos e marcas complementares e fazendo um bom trabalho na digitalização.

“A diferença da Riachuelo em relação a C&A é que ela tem a produção mais na mão, por causa da verticalização na Guararapes. Isso acaba dando mais agilidade à troca de coleções, o que é muito importante para o varejo de moda”, explica.

De forma geral, não se espera grandes surpresas para a Guararapes. Ou seja, a expectativa é de que, assim como as outras grandes varejistas, continue investindo no ecossistema e na transformação digital e crescendo vendas. No entanto, com margens também espremidas durante o ano, pelos motivos já vistos.

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3. Grupo Soma (SOMA3)

Dono das marcas Farm, Animale e, mais recentemente, da Hering, o grupo Soma encerrou 2021 com receita líquida de R$ 2,8 bilhões. A cifra contempla o primeiro ano consolidado com a Hering, que responde por cerca de 40% das vendas do grupo.

Segundo Crespi, a Soma é a preferida pela Guide entre as grandes varejistas, considerando inclusive as quatro dos segmentos de média e baixa renda. Pelo fato de atuar no segmento de alta renda, consegue ter mais resiliência em momentos de turbulência no mercado.

Além disso, o omnicanal da rede é muito forte, e o grupo está focado na internacionalização. Isso sem falar no digital, que é o mais avançado entre todas as varejistas brasileiras, pois o grupo já tinha marcas nativas digitais, como a ByNV, adquirida após o IPO.

“Quanto mais baixo o poder aquisitivo, mais sensível a empresa fica à inflação e variações de juros. No caso da Soma, estamos falando em um ticket médio de R$ 400. Esse publico não deixa de comprar por causa de algum aumento de preços”, avalia Crespi. Ou seja, comparadas às outras varejistas, Soma tem mais facilidade para repassar custos.

Crespi destaca também a expansão de lojas físicas do grupo. Nesse sentido, com as recentes aberturas de unidades em São Paulo e Brasília, a Farm já conta com 82 lojas.

“Mesmo com a retomada da presença física nas lojas, a participação das vendas no digital se manteve. Além disso, a base de clientes também vem crescendo. De forma geral, achamos que Soma foi o melhor resultado do varejo de moda”, conclui o analista da Guide.

Sinergias com Hering

Sobre o processo de sinergia com a Hering, Damiani destaca alguns pontos. Segundo o analista da Western, ainda há uma pressão de custos por causa da produção dentro da Hering, que deverá começar a se diluir somente a partir do segundo semestre. Além disso, há também um trabalho de reposicionamento de marca a ser feito. Isso porque, diferentemente das outras marcas do grupo, o perfil de clientes da Hering é mais popular.

“O trabalho de reconstrução da marca Hering ainda levará algum tempo, pois não depende só do digital. Porém, a Soma deverá ter sucesso, pois tem um excelente know how nisso”, pondera Damiani.

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Custos de produção afetam rentabilidade das varejistas de moda

4. Arezzo (ARZZ3)

A Arezzo encerrou 2021 com receita líquida consolidada de R$ 2,9 bilhões, praticamente o dobro de 2020. Por sua vez, o lucro líquido foi de R$ 345,2 milhões no ano passado, também um expressivo crescimento em relação aos R$ 48,5 milhões do exercício anterior.

Analistas atribuem parte do crescimento e resultado às fusões e aquisições. No entanto, o negócio subjacente tem igual importância na boa performance da empresa, beneficiada pela resiliência de seu nicho de alta renda, a exemplo da Soma.

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Outro ponto favorável foi a aceleração do digital nas vendas da companhia. A exemplo da Soma, mesmo com a reabertura da economia, a Arezzo conseguiu manter a penetração do digital em níveis elevados, muito parecido do que tinha na pré-pandemia. “Esperávamos uma desaceleração, mas isso não aconteceu , e a Arezzo tem feito um bom trabalho em todas as marcas”, observa Damiani.

Outro diferencial destacado pelo analista é o investimento no vestuário feminino. Em dezembro de 2021, a Arezzo comprou a marca de roupas femininas Carol Bassi, de design sofisticado.

Para Damiani, o vestuário feminino é hoje uma importante via de crescimento para a empresa. “Com todas as aquisições, a Arezzo começa a se consolidar de fato como uma house of brands. Além disso, deve investir bastante no desenvolvimento das marcas que já estão no portfólio”, observa.

Outra mudança da Arezzo é a internalização de parte da produção. Para o analista da Western, essa estratégia faz sentido à medida que as empresas vão alcançando mais complexidade. “Para ter mais controle sobre a produção, a Arezzo está absorvendo processos antes terceirizados. Estão em um bom caminho, mas é preciso continuar monitorando a pressão de custos durante o ano”.

5. C&A (CEAB3)

A receita líquida da companhia em 2021 alcançou R$ 5,1 bilhões, alta de 26% em relação a 2020 e em patamar quase igual a 2019. A C&A também apresentou melhora no resultado, revertendo o prejuízo de 2020 com lucro líquido de R$ 453 milhões no ano passado.

De acordo com o analista da Western, a companhia continua evoluindo bem na transformação digital, tendo acelerado esses investimentos durante a pandemia. Para Damiani, outro ponto positivo foi a recompra da operação da financeira, que estava com o Bradesco. Com isso, a expectativa é de que a empresa consiga conceder mais crédito e, dessa forma, recuperar um pouco do share perdido nos últimos anos.

“A C&A ficou muito tempo sem abrir lojas, e um dos principais motivos foi a falta de incentivo às vendas financiadas. Isso porque o Bradesco sempre teve perfil mais conservador, o que segurou muito as vendas”, observa o analista.

Com a financeira novamente na mão, a C&A volta a abrir lojas de forma mais acelerada. E, segundo Damiani, com modelo mais atualizado – o push-pull – que a Renner já tem e faz bem feito.

Nesse sentido, a estratégia push visa promover os produtos apostando em expositores. Como o próprio nome diz, “empurrando-os” para os clientes. Já o pull faz o contrário: aqui, a ideia é atrair esses consumidores tanto no ambiente online quanto off-line, por meio de marketing de conteúdo ou redes sociais, por exemplo.

Para o analista da Western, a C&A ainda está alguns passos atrás da Renner e da Riachuelo quanto às transformações digital e de modelo de negócios. “Porém, a empresa está em fase de rollout desse modelo (formato das lojas), e toda essa dinâmica deve surtir bons resultados ali na frente”, diz.

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Quanto a pontos menos favoráveis, os analistas ouvidos pelo InfoMoney, destacaram a linha fashiontronics da empresa. Para Rodrigo Crespi, da Guide Investimentos, pode não ser uma boa ideia a empresa querer explorar outras fontes de receita com celulares.

“Não vejo essa estratégia com bons olhos, pois o poder de negociação com fornecedores é mais difícil. Além disso, a C&A acaba concorrendo com empresas de maior poder de fogo, como Magalu, por exemplo, que tem caixa muito robusto”, avalia o analista.

Damiani, da Western, também acrescenta que essa categoria de produtos tem vendas muito cíclicas. “Estamos vivendo uma ressaca de vendas de fashiontronics pós-pandemia. Não creio que vejamos uma recuperação tão cedo na demanda por esses produtos.”

6. Marisa (AMAR3)

A receita líquida da Marisa totalizou R$ 2,5 bilhões em 2021, 18% acima do registrado em 2020. Além disso, a empresa conseguiu reduzir o prejuízo líquido, de R$ 432 milhões em 2020 para R$ 71,7 milhões no ano passado.

Segundo o Bradesco BBI, os resultados reportados pela empresa ficaram em linha com as expectativas do mercado. Além disso, a empresa informou que, no inicio de 2022, teve vendas superiores à pré-pandemia, e que espera recuperar resultados nesse ano, avançando na digitalização e expandindo o parque de lojas.

Para alguns analistas, apesar de o resultado ter ficado acima das expectativas, as margens ainda são muito baixas. Nesse sentido, Ragazi relembra alguns erros de estratégia da companhia, pelos quais ela ainda está pagando caro.

Inicialmente, a proposta de valor da Marisa era vender moda a preço mais baixo. Ou seja, as roupas tinham design, mas não necessariamente eram feitas com os melhores materiais. E não há nada de errado nisso, desde que toda a estratégia caminhe junto, como marketing, localização e decoração das lojas, por exemplo.

“O erro da Marisa foi melhorar o produto e começar a cobrar mais caro sem trabalhar o público-alvo que desejava alcançar. Dessa forma, a cliente que estava acostumada a encontrar moda a preço baixo simplesmente deixou de comprar na loja”, observa Ragazi.

Além de ter perdido a cliente fiel, a Marisa não conseguiu conquistar a consumidora do varejo classe B, que comprava na Renner. “Como não investiram no layout e na localização das lojas, a cliente da Renner não se sentiu à vontade na Marisa”.

Ao perder as duas clientes, a Marisa percebeu o erro e ainda está tentando corrigir. Segundo Ragazi, esse é um dos motivos que faz com que a performance geral da empresa esteja atrás da Renner, Riachuelo e C&A.

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Pontos de atenção para o varejo de moda em 2022

Do lado positivo, as empresas já têm conseguido repassar boa parte desses custos. Como bem observou a Renner na divulgação de seus últimos resultados, hoje as pessoas já percebem que a inflação é generalizada.

No início da pandemia, a alta dos preços era concentrada em um ou outro segmento, mas hoje ela já está em todo lugar. Por isso, para analistas, a pressão das receitas tende a ser menor em 2022 do que foi nos dois últimos anos.

Por outro lado, será muito importante monitorar os custos em 2022, pois ainda não há nenhum sinal de arrefecimento dos preços das matérias primas. Além disso, os investimentos no digital pesam no SG&A de todas as varejistas, o que poderá comprometer as margens se mantido o cenário inflacionário.

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Outro ponto é a importância de investimentos em omnicanalidade, pois, como vimos, isso já não é mais uma opção para as varejistas, e sim uma necessidade.

Nesse sentido, a transformação digital e os investimentos em lojas físicas andam juntos, e são complementares. Isso porque, ao abrir uma nova loja física, as vendas digitais também são impulsionadas, principalmente em praças onde a companhia ainda não atuava.

“Quando a Renner abre uma nova loja onde não estava, as vendas do digital aumentam em 20% na região. Isso justifica por que as varejistas não desistem de abrir lojas, mesmo em um cenário adverso. Ao contrário, estão acelerando os investimentos”, observa Ragazi.

Sobre isso, Damiani complementa que a loja não funciona somente como ponto de venda. “O espaço físico acaba funcionando também como um hub logístico. Além disso, as lojas que têm financeira conseguem atrair clientes que precisam de crediário, o que também é um facilitador para as vendas”.

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