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A tokenização já entrou no radar estratégico dos bancos brasileiros, mas a implementação ainda engatinha. Segundo um levantamento da IBM, 23% dos executivos do setor consideram a tecnologia central para seus planos de negócios, enquanto apenas 8% dizem ter iniciativas prontas para lançamento em 2026 – em meio ao avanço de stablecoins, moedas digitais e inteligência artificial, que prometem criar novas receitas, mas também ameaçam fontes tradicionais de ganhos do sistema financeiro.
Os dados fazem parte do estudo 2026 Global Outlook for Banking and Financial Markets, realizado pelo IBM Institute for Business Value em parceria com a Oxford Economics, que ouviu 500 executivos dos setores bancário e de pagamentos em mais de 25 países, incluindo 26 executivos brasileiros.
A tokenização consiste na representação digital de dinheiro, ativos financeiros e ativos do mundo real, como imóveis e recebíveis, em redes baseadas em tecnologia blockchain. Segundo a IBM, o movimento deve ganhar força nos próximos anos impulsionado pela evolução das stablecoins, das moedas digitais emitidas por bancos centrais (CBDCs, na sigla em inglês) e da inteligência artificial (IA) agêntica.
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“O dado reflete exatamente o momento de transição em que o mercado se encontra. A urgência existe, mas a infraestrutura tradicional dos bancos não foi projetada para interagir nativamente com blockchains”, disse Rodrigo Benin, diretor executivo para a indústria financeira da IBM, em entrevista ao InfoMoney.
Interoperabilidade é principal desafio
O estudo mostra que a principal barreira para o avanço dos ativos digitais no Brasil é a interoperabilidade. O problema foi apontado por 65% dos executivos brasileiros, percentual superior à média global de 59%.
Segundo Benin, o desafio passa por três frentes: a integração dos sistemas bancários legados com tecnologias de registros distribuídos (DLTs), as exigências de privacidade e sigilo bancário em iniciativas como o Drex e a falta de padrões universais que permitam a comunicação entre diferentes redes de tokenização.
“Não acho que o gargalo seja falta de interesse do mercado, mas sim a complexidade natural de plugar uma infraestrutura on-chain em sistemas que operam há décadas de forma centralizada”, diz o executivo.
O tema aparece em um contexto mais amplo de modernização tecnológica. A própria IBM destaca que os sistemas centrais legados são hoje a principal limitação para iniciativas de tokenização e lembra que 94% dos projetos de modernização de core banking ultrapassam os cronogramas originalmente previstos.
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O avanço das stablecoins
A pesquisa também indica que os executivos brasileiros estão mais atentos ao avanço das stablecoins do que seus pares globais. Segundo o levantamento, 58% dos entrevistados no Brasil esperam uma adoção forte ou transformacional dessas moedas digitais por grandes empresas até 2030. No mundo, esse percentual é de 42%.
Para Benin, a diferença pode ser explicada pelo grau de digitalização do sistema financeiro brasileiro e pelo potencial de uso das stablecoins em operações internacionais.
“O uso de stablecoins no comércio exterior e em liquidações transfronteiriças pode tornar essas operações mais rápidas e baratas, contornando parte do modelo tradicional de câmbio e correspondência bancária”, afirma.
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O executivo avalia que o movimento não representa necessariamente uma ameaça existencial aos bancos, mas pode provocar uma desintermediação parcial em determinados segmentos.
“Se grandes corporações passarem a reter liquidez em stablecoins para pagamentos B2B, parte desses recursos que hoje ficam em depósitos bancários pode migrar para liquidações programáveis”, diz.
Drex é visto como acelerador
Os executivos brasileiros também demonstram maior confiança no potencial das moedas digitais emitidas por bancos centrais. De acordo com o estudo, 38% acreditam que as CBDCs poderão substituir os arranjos tradicionais de cartões, ante 35% na média global.
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Na avaliação da IBM, o Drex tende a funcionar como uma vantagem competitiva para o Brasil nesse processo. “Vejo o Drex fundamentalmente como um acelerador. O Brasil está criando um trilho público, regulado e interoperável, o que traz segurança jurídica para a liquidação de ativos tokenizados”, afirma.
Porém, ressalta que as instituições financeiras não deveriam esperar a conclusão do projeto para iniciar suas próprias jornadas de transformação tecnológica. “Enquanto o Banco Central resolve as questões de privacidade e evolução da plataforma, os bancos precisam estruturar internamente a tokenização de ativos e modernizar suas infraestruturas”, afirma.
IA e tokenização avançam juntas
O levantamento indica ainda uma forte associação entre inteligência artificial e tokenização. Entre os executivos brasileiros, 58% acreditam que a tokenização terá impacto relevante na interoperabilidade entre diferentes plataformas de IA. Outros 46% esperam efeitos significativos da IA agêntica sobre canais programáveis de liquidação financeira.
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Segundo Benin, uma das aplicações mais prováveis para os próximos anos envolve agentes de IA capazes de monitorar liquidez, movimentar garantias tokenizadas e executar operações financeiras de forma autônoma.
“É possível imaginar agentes acompanhando a tesouraria de um banco em tempo real, identificando déficits de margem ou oportunidades de rendimento e movimentando ativos tokenizados automaticamente”, afirma.
Para o executivo, esse cenário está mais próximo da realidade do que parece. “Não é algo futurístico. São arquiteturas técnicas que já existem e que estão evoluindo para incorporar agentes de IA em processos de liquidez, garantias e pagamentos programáveis”.
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Quem ganha e quem perde na economia tokenizada
A principal transformação apontada pela IBM não é tecnológica, mas econômica. Embora a tokenização prometa reduzir custos, acelerar liquidações e simplificar processos, ela também ameaça algumas das principais fontes de receita do setor financeiro atual.
Executivos ouvidos pela pesquisa apontam como riscos prioritários a canibalização de receitas tradicionais, a compressão de margens e tarifas, a migração de depósitos para stablecoins e a perda de relevância nos meios de pagamento.
O avanço das stablecoins aparece como uma das maiores preocupações. Globalmente, 42% dos executivos consideram provável que grandes empresas emitam suas próprias moedas digitais nos próximos anos. No Brasil, a percepção é ainda mais forte: 58% esperam uma adoção forte ou transformacional desses ativos por grandes corporações até 2030.
Na avaliação Benin, a mudança pode alterar o fluxo de recursos dentro do sistema financeiro, sobretudo em operações corporativas e internacionais. “Se grandes corporações passarem a reter liquidez em stablecoins para pagamentos B2B, parte desse saldo que antes ficava em depósitos bancários pode migrar para liquidações programáveis”, afirma.
Na avaliação do executivo, áreas como câmbio, pagamentos internacionais e serviços tradicionais de intermediação tendem a sofrer maior pressão, uma vez que a tokenização reduz etapas intermediárias e automatiza parte dos processos atualmente remunerados por tarifas e spreads. Ele também destaca que a liquidação quase instantânea das transações diminui oportunidades de ganhos associados ao capital em trânsito dentro do sistema financeiro.
Receita não desaparece, mas muda de lugar
Por outro lado, a IBM avalia que a receita não desaparece necessariamente, mas muda de lugar. O estudo aponta a custódia digital como uma das principais oportunidades da nova economia. Globalmente, 61% dos executivos planejam investir em soluções de custódia, enquanto 74% dos gestores de patrimônio enxergam essa atividade como seu principal papel no futuro da tokenização. Entre os bancos de varejo, 65% apontam a custódia como estratégia prioritária para atender os clientes em um ambiente de ativos digitais.
A lógica é semelhante à da disputa pela adquirência na década passada ou pelo Pix e Open Finance nos últimos anos: quem controlar a guarda dos ativos digitais tende a ocupar uma posição central no relacionamento com o cliente. Além da custódia, a IBM identifica potencial de crescimento em serviços de tokenização, orquestração de ecossistemas, gestão de ativos digitais e infraestrutura para liquidações programáveis.
“Eu acredito que a receita migra de lugar, e não necessariamente se dilui. Muda-se onde está a margem para os bancos”, diz Benin. “Aqueles que liderarem essa agenda podem criar novos modelos de negócio ligados à custódia de tokens, à gestão de ativos digitais e à orquestração dessas redes”.