Análise

Reação positiva a dados de inflação recorde nos EUA? Analistas explicam comportamento curioso do mercado

Apesar da escalada histórico de preços, indicadores só confirmam o que investidores já esperavam e precificavam em suas estratégias

Por  Mitchel Diniz

Em uma semana marcada por dados de inflação em todo o mundo, as Bolsas tiveram reações entre amenas e positivas aos indicadores, mesmo com os índices confirmado uma aceleração de preços como há muito não se via. É o caso da inflação medida pelo CPI (sigla em inglês para índice de preços ao consumidor) dos EUA, que subiu mais 0,5% em dezembro de 2021 e no acumulado de 12 meses bateu os 7%, maior taxa desde 1982.

Na avaliação do Morgan Stanley, o índice mostrou que as pressões inflacionárias permaneceram estáveis ​​entre novembro e dezembro, mostrando provável desaceleração alguns meses à frente.

Nesta quinta-feira (13) foi a vez da inflação ao produtor (PPI), que subiu 0,2% no mês passado e acumulou alta de 2021. A taxa é a maior da série histórica, ou seja, desde que o dado começou a ser calculado, em 2010. Mesmo assim, vieram ligeiramente abaixo do esperado.

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Na análise intitulada “Quando uma notícia ruim anima os investidores”, a equipe da Levante Ideia de Investimentos tenta explicar esse fenômeno vivido pelos mercados nos últimos dois dias. Como os investidores montam estratégias antecipando cenários e tendências, a confirmação do que se esperava tende a diminuir a volatilidade.

“A perspectiva de que a inflação ao consumidor nos Estados Unidos seria a mais alta em décadas já estava dada, antecipada e devidamente precificada nos ativos financeiros. Por isso, sua confirmação reduziu a incerteza dos investidores e aliviou a volatilidade. Foi uma notícia ruim, mas que era plenamente esperada, daí seu efeito foi o inverso do que seria de se esperar”, diz análise da Levante.

Para os analistas, a notícia ruim da inflação elevada confirmou expectativas e deixou claro o caminho que deve ser seguido pelo Federal Reserve, o Banco Central dos Estados Unidos. Como já se sabe, o Fed vai começar a elevar os juros e a reduzir a liquidez da economia ainda neste ano. “Isso deverá ajudar a fazer a inflação nos Estados Unidos retornar ao centro das metas previstas. Certezas têm valor. Por isso, os preços sobem”, dizem os analistas da Levante.

Se por um lado o início de um aperto monetário tende a impactar o fluxo de capital nos mercados, com uma fuga de ativos de maior risco, de outro, tende a amenizar o quadro inflacionário, que também vem sendo um componente negativo de incerteza para quem investe na Bolsa.

Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos, aponta que ao vir em linha com as expectativas e até melhor que o esperado (no caso do PPI), os indicadores de inflação, ainda que elevados, mostram que a política monetária nos Estados Unidos “está dando certo.”

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A equipe de estratégia global da XP também destaca que, apesar do choque inflacionário em curso, segue projetando descompressão importante de preços em 2022 e 2023 – as previsões apontam para inflação geral de 3,4% este ano e 2,9% no ano que vem, enquanto o núcleo de inflação deve subir 3,5% e 3,0%, respectivamente.

Vale lembrar que o Fed deve encerrar no próximo mês de março seus programas de compra de títulos públicos e hipotecas, que foram utilizados para dar liquidez ao mercado ao longo da pandemia. A autoridade monetária também deve subir juros a partir do mesmo mês. O mercado se divide nas apostas: enquanto alguns analistas projetam três altas no ano, outros acreditam em quatro ajustes e até mais.

Enquanto os números vierem dentro do esperado, o cronograma do Fed deve ser mantido, e o cenário seguirá precificado pelo mercado. “Caso haja alguma surpresa negativa, o mercado vai trabalhar com uma desalavancagem mais rápida do Federal Reserve, o que é ruim para as Bolsas, pois tira a liquidez dos mercados”, afirma o sócio da Monte Bravo.

“Se em um dia sai um dado de inflação ao consumidor dentro do esperado e no outro um indicador de preço ao produtor abaixo do que se previa, os números estão em linha com o que Jerome Powell [presidente do Fed] diz que está acontecendo. Logo, a política monetária dos EUA está dando certo não deve haver mudanças bruscas em sua condução”, conclui Rodrigo Franchini.

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