"De Zero a Um"

Queda da BlockFi mostra que filosofia de Peter Thiel não serve para o mercado financeiro

Empreendedor Peter Thiel defende que as startups devem investir bastante em seu estágio inicial para ganhar da concorrência e criar monopólio

Por  CoinDesk -

*David Z Morris

O provedor de serviços financeiros cripto BlockFi anunciou um acordo com a FTX de Sam Bankman-Fried que pode levar a uma venda na casa dos US$ 240 milhões ou menos. Isso seria uma forte redução dos US$ 1,3 bilhão que foi investido na empresa desde 2019, mas muito melhor do que rumores e relatórios sugeriam.

O destino da BlockFi, embora não seja ótimo, ainda parece melhor do que o de outros credores de criptomoedas centralizados, como Celsius e Babel Finance, que também arrecadaram centenas de milhões de investidores.

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Isso porque os investidores da BlockFi parecem pelo menos que vão receber muito do dinheiro de volta, enquanto Celsius e outros parecem realmente insolventes. Embora não seja óbvio, esse grupo também inclui o protocolo Anchor, que se disfarçou como um protocolo de finanças descentralizadas (DeFi) na blockchain Terra, mas na realidade era gerenciado por um grupo próximo de apoiadores que já sumiu com o dinheiro dos investidores.

Então para onde foi todo esse dinheiro?

Como queimar o dinheiro de VC

Os investimentos em plataformas de empréstimo de criptomoedas caíram em pelo menos dois buracos gigantescos.

Por um lado, todos esses credores parecem ter investido de forma imprudente na busca pelos altos rendimentos prometidos. Isso os levou a fazer grandes apostas em ativos ruins, como LUNA, nativo do Terra, e BadgerDAO, um protocolo baseado em Ethereum (ETH) para emprestar Bitcoin (BTC).

Alguns também apostam no stETH (stETH), um derivado do ETH que paga recompensas de staking (depósito com rendimento em um smart contract), bem como no Grayscale BTC Trust – o maior fundo de Bitcoin do mundo.

Esses dois últimos são ativos respeitáveis, mas atualmente ilíquidos e acabaram deixando buracos temporários, mas grandes, nos balanços dos credores. Segundo o CEO e fundador Zach Prince, um dos motivos pelos quais a BlockFi sobreviveu é que ela evitou a maioria dessas armadilhas.

Mas outra fatia do capital dos investidores não foi para apostas arriscadas, mas diretamente para financiar os rendimentos que estavam sendo pagos aos depositantes. Isso foi explicado pelos próprios investidores como uma estratégia de aquisição de clientes com gastos deficitários que, no futuro, se traduziria em receita.

Essa estratégia foi extraída diretamente do manual do Vale do Silício que deu origem à Amazon (AMZO34) e à Meta (FBOK34). Foi um tema articulado como uma filosofia por Peter Thiel em seu livro “Zero to One” (ou “De Zero a Um”, em tradução livre), que defende que as startups devem investir bastante em seu estágio inicial para ganhar da concorrência, criando seus próprios monopólios.

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O sucesso da Amazon e do Facebook, em específico, transformou a cartilha monopolista em um mantra do Vale do Silício. Mas depois de uma primeira onda de sucessos genuínos, veio uma leva de empresas eternamente não lucrativas como a Uber e mais algumas que queimam dinheiro, como a WeWork.

Por um tempo, isso era visto como um “subsídio ao estilo de vida dos Millennials”, já que os consumidores aproveitavam caronas e aluguéis a preços abaixo do custo real e os fundos de venture capital (VCs) cobriam a diferença com a fé (errônea) de que tudo daria certo no final.

Mas aceitar prejudicar as finanças por conta de um déficit de aquisição de clientes pode ser perigoso. É uma abordagem fundamentalmente absurda para o crescimento de um negócio bancário ou de empréstimos. O “colapso” que estamos vendo agora é muito menos uma condenação às criptos do que a esse manual de crescimento de Thiel desatualizado e mal aplicado.

Retornos falsos

Então como sabemos que os recursos de investidores estavam subsidiando os rendimentos na Celsius e em outras plataformas? Em parte, é uma matemática simples: a demanda por rendimento de depósitos superou totalmente a por caros empréstimos institucionais de criptomoedas, de modo que todos os credores juntos não poderiam estar gerando o rendimento total que estavam pagando aos depositantes.

Além disso, embora não tenhamos uma visibilidade clara dos gastos da Celsius nem da BlockFi, conhecemos os fluxos ofuscados do maior banco falso de cripto: o projeto Anchor.

Alguns podem até defender que o Anchor não pertence a essa categoria, mas enquanto ele rodava em uma blockchain pública, não era de forma alguma um protocolo DeFi “real”. Isso era óbvio bem antes do colapso da Terra.

Enquanto os protocolos DeFi, como o Aave, ajustam os retornos dos investimentos com base na demanda real de empréstimos, as entidades do ecossistema Terra tiveram que reabastecer diversas vezes a “reserva de rendimento” que estava pagando retornos artificialmente altos dos depositantes na Anchor.

Um “backstop” (apólice de seguro) era necessário porque a Anchor não estava gerando rendimento suficiente de empréstimos para cumprir suas obrigações com os depositantes.

Isso foi reconhecido como uma correção temporária, com a promessa de que os rendimentos “reais” chegariam em algum momento – assim como a Uber segue prometendo lucros de verdade para algum dia. Embora não seja a mesma coisa, o prejeto era o equivalente da Uber vendendo corridas por menos do que realmente custam e compensando a diferença com o dinheiro de investidores.

Tanto a Terra (LUNA) quanto a stablecoin TerraUSD (UST) cresceram quase totalmente por conta dos juros da ordem de 20% pagos em depósitos feitos no Anchor usando a stablecoin UST. Esses retornos subsidiados significavam que a Terra era, na prática, um esquema Ponzi tecnologicamente ofuscado.

Criptos x ações “tech”

Independentemente das sutilezas legais, o mesmo argumento pode ser feito sobre a realidade da Celsius e suas semelhantes. Esses casos podem até destacar determinados elementos “ponzinômicos” de investimento de venture capital como um todo, principalmente a capacidade de investidores em estágio inicial de continuar sustentando o valor contábil de suas próprias posições em novas rodadas de financiamento.

Assim como no projeto Anchor, da mesma forma que um VC conseguir subsidiar essa aquisição de clientes que não dá dinheiro, uma empresa pode anunciar o crescimento e prometer lucratividade no futuro.

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Esse, contudo, é um modelo desastroso para as finanças, porque, diferentemente das receitas e dos lucros da tecnologia, os rendimentos dos investimentos não são proporcionais. Na verdade, eles fazem o oposto da escala: quanto maior um fundo de investimento fica, por exemplo, mais difícil é continuar entregando os mesmos retornos percentuais que fazia com menos dinheiro sob gestão.

Seja em criptomoedas ou em ações de tecnologia, investir dessa forma pode virar uma espécie de armadilha. Quando as pessoas continuam colocando dinheiro em você, você precisa procurar cada vez mais por oportunidades de investimento que correspondam ao seu desempenho anterior.

Essas apostas posteriores, quase inevitavelmente, fornecem retornos mais baixos ou apresentam riscos mais altos. Foi isso que aconteceu com a Celsius: BadgerDAO está para o CEO da Celsius, Alex Mashinsky, assim como a Twist Bioscience (uma aposta médica especulativa) está para Cathie Wood, da ARK Invest.

“One to Zero”

Outro motivo pelo qual o modelo de Thiel simplesmente não faz sentido para o investidor de varejo é que é estruturalmente impossível construir o tipo de “fosso” que pode, no mínimo, manter um negócio ruim como a Uber mancando.

Uma grande característica do mercado financeiro, principalmente para o varejo, mas também de forma geral, é que você quer que seus investimentos sejam o mais líquidos possível. Para atrair depósitos, os clientes devem estar convencidos de que será fácil sacar – e possivelmente depositar o dinheiro em outro lugar. Isso torna o setor bancário um negócio fundamentalmente muito, mas muito difícil de ser monopolizado, mesmo em um mercado marginalmente livre.

Já a aquisição de clientes baseada em perdas não faz sentido, simplesmente porque não existe dinheiro grátis. Os rendimentos que são inflados artificialmente para atrair clientes serão inevitavelmente forçados a se alinhar com as macrotendências ao longo do tempo, e os clientes simplesmente sairão da estratégia.

Uma parte do que fez da Celsius e do Anchor fraudes funcionais (quaisquer que sejam as conclusões legais) é que seus retornos descomunais foram baseados na ideia de que a criptomoeda de alguma forma magicamente gerava mais rendimento do que o dinheiro normal.

Isso sempre foi um absurdo, mas as últimas semanas tornaram isso dolorosamente óbvio.

*David Z Morris é colunista-chefe de insights do CoinDesk. Ele é ex-sociólogo acadêmico de tecnologia com doutorado em Estudos de Mídia pela Universidade de Iowa, nos EUA.

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