Analistas divididos

Petrobras (PETR4): ainda vale a pena comprar as ações em meio ao turbilhão na estatal?

Analistas se dividem, com Eleven e Morgan com recomendação neutra, enquanto Goldman e XP mantêm recomendação de compra

Por  Lara Rizério

O cenário que se desenhava para a Petrobras (PETR3;PETR4) nas últimas semanas já se apresentava como nebuloso, em meio à defasagem de preços de combustíveis, que se elevou com a alta do petróleo, além das constantes pressões sobre a política de preços da estatal.

Na última sexta-feira, na volta do feriado, o turbilhão contra a estatal voltou com tudo. As ações preferenciais PETR4 fecharam a última sessão da semana em queda de 6,1%, a R$ 27,31, em meio a uma nova rodada de alta de combustíveis anunciada pela estatal, o que causou reações furiosas dos políticos.

Após o anúncio, o presidente Jair Bolsonaro (PL) voltou a criticar o comando da Petrobras, entendendo que a ação do conselho de administração (que aprovou o reajuste) teria viés político e que a companhia poderia “mergulhar o Brasil no caos”. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), também fez coro às declarações de Bolsonaro e afirmou que
o então presidente da estatal, José Mauro Ferreira Coelho, deveria renunciar pois está no cargo de modo ilegítimo.

Bolsonaro defendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobras. Já Lira ameaçou dobrar a taxação dos lucros da empresa e disse que a nova alta era uma retaliação do agora ex-presidente da estatal, enquanto o ministro André Mendonça, do STF, pediu explicações sobre a política de preços.

Nesta segunda, a sessão é de volatilidade, com a renúncia de Coelho sendo efetivada e a escolha de Fernando Borges como presidente interino. O governo já havia indicado Caio Paes de Andrade, alto funcionário do Ministério da Economia, para o principal cargo da companhia.

Os papéis chegaram a se recuperar após a saída de Coelho, operando em leve alta. Para a XP Política, a renúncia de Coelho tende a esfriar os ânimos no debate sobre novas medidas que obriguem uma mudança na política de preços dos combustíveis, enquanto também esfriam os debates sobre a instalação da CPI. Porém, os ânimos seguem exaltados e as incertezas se avolumam sobre a companhia.

Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos, avalia que a Petrobras vai continuar pressionada, ainda mais em um cenário de continuidade de alta do petróleo. “Supondo que petróleo chegue a US$ 150 o barril, o desgaste seria gigantesco”, avalia.

O especialista reforça que, até as eleições, haverá uma forte pressão para não ter reajuste de preços. “O alívio nas ações hoje é mais por conta da diminuição da ameaça de uma CPI da Petrobras, que geraria um desgaste gigantesco com acionistas internos e externos. Isto ficaria mais distante com a troca confirmada”, aponta. Contudo, cabe ressaltar que notícias ao longo do dia apontaram que a instalação de uma comissão parlamentar não está descartada.

Segundo Cruz, a troca de CEOs não é positiva no longo prazo, só reforçando que este vai ser um tema dos debates eleitorais. Provavelmente, avalia, a política de preços iniciada no governo de Michel Temer vai ser flexibilizada, se não for extinta no próximo ano. “Este ano eu já diria que ela não foi tão pura quanto nos últimos anos mas, de qualquer forma, ficará sobre revisão. Só vamos ter uma noção mesmo do que vai acontecer com a Petrobras no pós-eleições”, aponta.

De qualquer forma, o estrategista não acredita que este será um final de processo positivo. “Se pensarmos o que estava sendo nos últimos anos, que a Petrobras saiu de prejuízo para um lucro bilionário, agora adiante imagino que os analistas estejam revisando para baixo as expectativas para a companhia”, aponta.

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Marcelo Boragini, especialista em renda variável da Davos Investimentos, também avalia que os últimos acontecimentos trazem um viés negativo para as ações. “A volatilidade deve perdurar e os papéis tendem a sofrer até as eleições”, aponta.

A Eleven Financial também destaca a continuidade da incerteza sobre as ações da Petrobras; os analistas possuem recomendação neutra para os ativos PETR4, com preço-alvo de R$ 34 (ou potencial de alta de 24,5% frente o fechamento da véspera).

“Acreditamos que isso [a renúncia] possa acelerar a troca de do conselho de administração que está em processo e que ruídos de interferência governamental na estatal continuem prejudicando a performance da ação, juntamente com um cenário de muita incerteza sobre o grau de arrefecimento das principais economias mundiais, que está ocasionando a queda do preço do petróleo”, aponta a casa.

Segundo Felipe Ruppenthal, analista da Eleven, a rápida nomeação de Fernando Borges como interino é positivo, pois tira um pouco da incerteza, mas as ações da estatal continuarão sendo afetadas negativamente no curto prazo pela interferência do governo.

Na sexta-feira, logo após o reajuste, o Morgan Stanley reforçou a preocupação de que o governo possa intensificar suas tentativas de intervir na política da empresa para mostrar à população o compromisso de combater a inflação antes das eleições. Assim, os analistas do banco permanecem com recomendação equalweight (exposição em linha com a média) para os  ADRs (na prática, as ações de empresas de fora dos EUA negociadas em Nova York) PBR (equivalentes aos PETR3),  pois apontam que o risco-recompensa pode ser muito amplo durante o ciclo eleitoral.

Ainda com visão de compra

Por outro lado, há quem ainda esteja otimista com a tese de investimentos na Petrobras, baseada principalmente no pagamento de dividendos.

Este é o caso do Goldman Sachs, que segue com recomendação de compra para os ativos, pois vê a tese de carregamento das ações também como atrativo, embora com menor convicção do que no início do ano, devido ao menor colchão de dividendos até a eleição (entre 5% e 10% de dividend yield, ou valor do dividendo em relação ao preço da ação, versus cerca de 30% no início do ano). “Por fim, notamos que, no curto prazo, vemos espaço limitado para intervenção do governo dentro da empresa”, apontam os analistas do Goldman.

A XP também mantém a recomendação de compra para a Petrobras, com preço-alvo de R$ 47,30 para os papéis PETR4, ou potencial de valorização de 73,20% em relação ao fechamento de sexta.

O analista Andre Vidal reconhece que os riscos aumentaram, tanto internacionalmente (recessão global) quanto internamente (político). Mas análises de sensibilidade indicam que a Petrobras continua sendo uma aposta assimétrica.

“Outra maneira de vermos isso é comparando a Petrobras com outras grandes empresas de petróleo e gás. A Petrobras se destaca como a major [grande companhia] de óleo e gás mais barata do mundo, negociando a 1,7 vez o EV/ Ebitda [valor da firma sobre o Ebitda, ou lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações] esperado para 2022. Por esses motivos, mantemos nossa recomendação de compra no nome”, aponta Vidal.

Ele ainda aponta que a Petrobras está “não apenas” protegida contra interferências pelo seu estatuto e pela “lei das estatais” (13.303/2016), mas também de limites físicos (a escassez de combustíveis é ainda mais impopular do que os altos preços dos combustíveis). “Sem falar nas responsabilidades pessoais a que estão sujeitos o conselho e a diretoria caso decidam deliberadamente utilizar a Petrobras como instrumento político”, destaca.

A análise aponta que é possível que o governo poderia alterar a lei 13.303/2016 e o estatuto da Petrobras para voltar a usar a estatal para subsidiar combustíveis. Porém, isso não seria rápido – e faltam poucos meses para as eleições. “Sentimos que tal movimento poderia desencadear uma forte reação do mercado (câmbio, taxas de juros) que poderia ao final ser ruim para a popularidade do governo, o que explica por que esse movimento ainda não foi colocado em ação”, destaca Vidal.

O cenário-base para as ações da companhia, com preço-alvo de R$ 47,30, inclui um risco de prêmio político de 2% que leva em conta a incerteza de ser uma empresa estatal. A preços de mercado atuais, o analista vê uma Taxa Interna de Retorno (TIR) nominal (em dólares) de 29% implícita com base nos fluxos de dividendos futuros.

Alternativamente, também faz uma projeção caso a Petrobras seja privatizada. “Vemos uma probabilidade de privatização nos próximos quatro anos ainda como baixa, mas essa hipótese não é nula, especialmente diante do que aconteceu com a Eletrobras (ELET3;ELET6). Se cortarmos o risco de prêmio político de 2% do custo de capital próprio do nosso modelo, isso elevaria o preço alvo para R$ 54,50 por PETR3/PETR4 e US$ 21,80 por PBR/PBR.A (mais de 100% de retorno potencial)”, destaca.

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