Em meio à pressão

Petrobras (PETR4) comunica renúncia de CEO e Fernando Borges como interino; após dia volátil, ações fecham em alta

A nomeação de um presidente interino será examinada pelo Conselho de Administração da Petrobras a partir de agora.

Por  Equipe InfoMoney -

A Petrobras (PETR3;PETR4)  comunicou na manhã desta segunda-feira (20) que José Mauro Coelho pediu demissão do cargo de presidente da estatal.

A B3 suspendeu as negociações das ações em razão do comunicado sobre a demissão, em uma sessão marcada por interrupção das negociações. Os papéis voltaram a negociar por volta das 10h52 (horário de Brasília): na abertura, os ativos PETR3 caíam 1,14%, a R$ 29,59, enquanto PETR4 tinha baixa de 1,61%, a R$ 26,87. Já por volta das 11h, a baixa era ainda mais expressiva, de 2,14%, a R$ 29,29, e de 2,31%, a R$ 26,68, para PETR4.

As ações voltaram a ter a negociação suspensa às 11h03. Posteriormente, às 11h12, a Petrobras anunciou a nomeação de Fernando Borges — Diretor Executivo de Exploração e Produção — como presidente interino da companhia. Às 11h37, os ativos voltaram a negociar, ainda em queda, mas menos expressiva: os ativos PETR3 tinham baixa de 1,44%, a R$ 29,50, enquanto PETR4 caía 1,65%, a R$ 26,86. Porém, pouco antes do meio-dia, os ativos viraram para alta: às 11h58 os papéis ON subiam 0,70%, a R$ 30,15, enquanto PN tinham ganhos de 0,81%, a R$ 27,53. Depois de algumas reviravoltas, as ações PETR3 fecharam em alta de 0,87%, a R$ 30,19, enquanto PETR4 teve alta de 1,14%, a R$ 27,62.

A pressão sobre a companhia e sobre Coelho aumentou após a Petrobras anunciar um novo reajuste nos preços dos combustíveis na sexta-feira, o que levou governo, Congresso e o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), a criticarem a empresa.

A elevação nos valores dos combustíveis é vista como um dos principais obstáculos ao projeto de reeleição do chefe do Executivo.

No final da semana passada,  Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados, voltou a exigir a demissão imediata de Coelho, que já teve sua saída anunciada três semanas atrás, mas ocupava o posto até que o conselho deliberasse sua substituição pelo executivo Caio Mario Paes de Andrade.

Lira anunciou também reunião, nesta segunda-feira (20), do colégio de líderes para discutir a política de preços da Petrobras e tentar reverter o lucro da empresa para a população.

No domingo, o parlamentar cobrou respeito da estatal ao povo brasileiro. Nas redes sociais, Lira afirmou que se “a Petrobras decidir enfrentar o Brasil, ela que se prepare: o Brasil vai enfrentar a Petrobras”.

“Não queremos confronto, não queremos intervenção. Queremos apenas respeito da Petrobras ao povo brasileiro. Se a Petrobras decidir enfrentar o Brasil, ela que se prepare: o Brasil vai enfrentar a Petrobras. E não é uma ameaça. É um encontro com a verdade”, postou no Twitter.

Em artigo publicado no fim de semana na Folha de S.Paulo, de autoria do próprio presidente da Câmara e intitulado “Chegou a hora de tirar a máscara da Petrobras”, Lira escreveu que “ficou escancarada a dupla face da estatal”.

“Quando quer ganhar tratamento privilegiado do Estado brasileiro, a empresa se apresenta como uma costela estatal. Mas, na hora em que lucra bilhões e bilhões em meio à maior crise da história do último século, ela grita o coro da governança e se declara uma capitalista selvagem”, diz trecho do texto.

O presidente Jair Bolsonaro defendeu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a Petrobras. Já Lira ameaçou dobrar a taxação dos lucros da empresa e disse que a nova alta era uma retaliação do agora ex-presidente da estatal, enquanto o ministro André Mendonça, do STF, pediu explicações sobre a política de preços.

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Vitória política

Desta forma, a saída de Coelho representa uma vitória política do governo Jair Bolsonaro (PL) e de seus aliados do “centrão” – sobretudo de Lira, uma vez que ele se empenhou pessoalmente pela destituição do comandante da estatal.

“O movimento faz parte da estratégia [do governo] de transferir responsabilidade para a Petrobras. Mas o que a troca de presidente vai produzir em termos de alteração na política de preços? Com a Lei das Estatais, qual conselheiro colocaria seu CPF para bancar uma mudança dessas? Por isso, parece mais uma forma de criar narrativa”, observa Carlos Eduardo Borenstein, analista político da consultoria Arko Advice.

O assédio da classe política tornou a situação de Coelho ainda mais delicada. Governistas alegam que o novo anúncio de reajuste nos preços teria sido a “gota d’água”. Para eles, o executivo não teria mais legitimidade para comandar um movimento desta magnitude. E, na prática, o reajuste ofuscaria qualquer benefício provocado pela redução de ICMS aprovada com o PLP 18/2022.

No mercado, há preocupação de uma interferência direta na política de preços da companhia – conhecida como Preço de Paridade Internacional (PPI). Embora haja vontade política de parlamentares em fazer o movimento, há um receio com as possíveis consequências.

Nos bastidores, porém, outra avaliação que circulava é que Lira subia o tom justamente para forçar a queda da atual presidência da empresa e acelerar o processo de renovação do conselho e que não havia real intenção em subir de forma tão significativa o nível de interferência.

A leitura era de que os novos indicados, pelo perfil mais político, poderiam ser mais sensíveis à pressão de Brasília e colaborarem por meio da chamada “função social” da companhia. Neste caso, uma opção seria a Petrobras destinar à área parte de seus lucros repassados à União. Se tal avaliação estiver correta, a tendência seria de um esfriamento nos ânimos e uma reunião menos bélica entre os líderes da Câmara dos Deputados nesta segunda-feira.

Também para a XP, a renúncia de Coelho tende a esfriar os ânimos no debate sobre novas medidas que obriguem uma mudança na política de preços dos combustíveis.

“Agora, ganha-se tempo para uma discussão mais racional sobre os caminhos possíveis para essa questão, perdendo força ameaças de CPIs, imposto sobre exportação ou taxações extras para pressionar. A tendência é que a nova diretoria, escolhida a dedo pelo governo, tenha um voto de confiança para ao menos tentar implementar dois aspectos fundamentais: endereçar a função social da Petrobras e segurar futuros reajustes que impactem diretamente a popularidade de Bolsonaro”, aponta a equipe da XP Política.

Por outro lado, a forma e as possibilidades legais desse uso social da empresa ainda não estão claras. “Os primeiros esboços vão no sentido de, por decisão do próprio conselho, direcionar parte dos dividendos da União que excederem o mínimo de 25% ao financiamento de auxílios a caminhoneiros, taxistas, entre outros. Diante da lei eleitoral, esta seria uma forma de driblar as limitações do governo a respeito da criação de benefícios sociais esse ano. E também de evitar restrições do teto de gastos, que limitam despesas diretas da União”, avalia a XP.

Apesar de sinalizações favoráveis do time que vai assumir os postos — além de concordância do Ministério da Economia — há dúvidas sobre a legalidade dessas medidas, pondera. Assim, caso não seja possível implementá-las e a Petrobras faça novo reajuste antes das eleições, a expectativa é de mais uma escalada de tensão na cruzada de Lira e Bolsonaro contra o aumento de preços.

“No curto prazo, porém, pode-se dizer que a companhia escapou de intervenções mais ousadas que começavam a ganhar força no Congresso”, aponta a XP.

Para o Credit Suisse, a renúncia de José Mauro Coelho é “neutra” para Petrobras, uma vez que “o governo já havia solicitado a substituição do CEO e indicado Caio Paes Andrade (atualmente em análise do comitê). A Diretoria da Petrobras agora escolherá um CEO interino” e, por isso, a análise entende que é uma notícia “neutra” para a companhia.

A Eleven Financial, por sua vez, destaca a continuidade da incerteza sobre as ações da Petrobras; os analistas possuem recomendação neutra para os ativos PETR4, com preço-alvo de R$ 34.

“Acreditamos que isso [a renúncia] possa acelerar a troca de do conselho de administração que está em processo e que ruídos de interferência governamental na Estatal continuem prejudicando a performance da ação, juntamente com um cenário de muita incerteza sobre o grau de arrefecimento das principais economias mundiais, que está ocasionando a queda do preço do petróleo”, aponta a equipe de análise.

(com Estadão Conteúdo)

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