PETR4: Impacto de demissão de Prates pode ir além de queda das ações da estatal

Para além do impacto direto nas ações, questão é mais uma sinalização política negativa e pode ter interferência no câmbio

Vitor Azevedo

Logotipo da Petrobras em refinaria de Cubatão, em 24/02/2015 (Foto: Paulo Whitaker/Reuters)

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Na última quarta-feira (15), em um dia marcado pela alta dos principais índices acionários mundo afora, com a inflação americana (CPI) de abril aquém do esperado, a Bolsa brasileira recua, com o peso, principalmente, das quedas das ações da Petrobras (PETR4), causadas pela decisão do governo de tirar Jean Paul Prates do cargo de presidente da petroleira. E os possíveis impactos da mudança, para investidores, podem ir além do recuo pontual dos papéis, interferindo, por exemplo, no fluxo de capital estrangeiro para a B3.

Alguns analistas destacaram, ao longo do dia, que a movimentação na Petrobras se soma a várias outras ao sinalizar problemas políticos no Brasil. A companhia, por seu tamanho e relevância, acaba sendo um problema não apenas micro como também macroeconômico. 

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“Uma troca de comando como foi no caso dessa, por pressão política, pega mal na visão do investidor estrangeiro. Eles, quando alocam em bolsa brasileira, têm preferência por ações de empresas que possuem boa liquidez dentro do nosso mercado”, diz Andre Fernandes, head de renda variável e sócio da A7 Capital.

Felipe Pontes, diretor de Gestão de Patrimônio da Avantgarde Asset Management, menciona que o fato da decisão se dar em um momento no qual a Petrobras vem apresentando bons resultados cria o temor de que os números “não importam”. “O que importa é o uso que o governo quer fazer das empresas com controle estatal”, fala.

A perspectiva que ganhou força no mercado é que a nova presidente da estatal, Magda Chambriard, possa ter um mandato mais intervencionista, usando o capital da companhia não necessariamente para buscar o lucro mas para atender certas demandas de partidários do Governo, que cobram mais investimentos.

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Pontes relembra que outras estatais também podem sofrer com a decisão — caso do Banco do Brasil (BBAS3), por exemplo, cujas ações ordinárias caíram 1,28% no pregão de ontem. Fora isso, o especialista menciona que, recentemente, houve também a tentativa de intervenção do Governo Federal na Vale (VALE3). Tudo isso, resulta em “uma série de sinais negativos”.

Há também o risco fiscal contido em grande mudanças na Petrobras. A companhia, nos últimos anos, vem ajudando o Governo Federal a fechar contas com a distribuição de dividendos, já que boa parte desses vão para os cofres públicos, dado que a União é o maior acionista da empresa.

Importância da Petrobras no índice

Fora toda a questão política, o acontecimento também impacta o macro pelo tamanho da Petrobras. Hoje, a estatal com suas ações ordinárias e preferenciais, representa 13,1% do Ibovespa, o principal índice da B3, ficando apenas um pouco atrás da Vale, que tem participação de 13,44% no índice. 

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Seu tamanho também acaba refletindo no número maior de negociações por dia, tendo um dos papéis mais negociados da B3 —  e investidores estrangeiros quando aportam no Brasil montam posições que permitam uma saída fácil do país no caso de problemas. Segundo dados da B3, até o dia 13 de maio, estrangeiros já haviam tirado R$ 31,3 bilhões da Bolsa. E o que acontece com a estatal pode ajudar a aumentar esse número.

“É possível dizer que a decisão tende a trazer efeitos também para o quadro macro, em um momento que já era difícil, com o Copom [Comite de Política Monetária] rachado na decisão sobre a Selic em maio e toda a situação no Rio Grande do Sul”, afirmou o economista André Perfeito.

O sinal do peso da Petrobras no cenário macro ficou evidente ontem no câmbio. O dólar se fortaleceu frente ao real, com alta de 0,12%, sendo que a moeda americana perdeu força em todo o mundo, com o DXY, que mede sua força frente a outras divisas de países desenvolvidos, caindo mais de 0,60%.

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A inflação ao consumidor americana (CPI) abaixo do esperado em abril, publicada ontem mais cedo, enfraquece a perspectiva de que o Federal Reserve, por lá, terá de segurar os juros em níveis mais altos por mais tempo, o que gera fluxo de saída de capital do país. Países emergentes, como o Brasil, tendem a se beneficiar ainda mais do recuo das taxas de juros nos EUA. 

No ano, o real também tem uma das piores performances quando o assunto é moedas emergentes. Entre uma lista com 32 moedas, a divisa brasileira só perde para o peso argentino, a lira turca e o baht tailândes.

Walter Maciel, CEO da AZ QUEST, lembra que no último mês houve ainda uma melhora do fluxo para emergentes, com os dados macro nos EUA dando alguma margem para queda dos juros. “Junto com fatores como a mudança no arcabouço fiscal e o Copom dividido, a questão da Petrobras é mais um assunto que acaba minando a confiança do investidor. Apesar de termos mais latidos do que mordidas, o barulho afugenta”, debate o especialista. 

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Ele menciona que a questão do Prates “é mais uma cena em um filme”. “Não acho que o gringo vá, necessariamente, priorizar a Bolsa brasileira, mesmo com o recuo de juros lá fora. Apesar de os ativos locais estarem muito baratos, tudo depende da expectativa. Acho que o gringo vai olhar para a B3, vendo oportunidades, mas há pesos”. 

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