Em mercados

Bolsonaro em Davos: uma grande oportunidade de conquistar os estrangeiros - mas o que importa virá depois

Investidores internacionais ainda estão céticos com a capacidade do governo de entregar reformas; isso pode mudar, mas só depois de Davos

Jair Bolsonaro
(José Cruz/Agência Brasil)

SÃO PAULO - “Nós queremos mostrar (...) que o Brasil tomou medidas para que o mundo restabeleça confiança, que os negócios voltem a florescer entre o Brasil e o mundo, sem viés ideológico, que nós podemos ser um país bom para investimentos (...) Por isso estamos aqui, para mostrar que o Brasil mudou”.

As primeiras declarações de Jair Bolsonaro ao chegar em Davos, na Suíça, já foram uma boa indicação do que esperar do discurso do presidente brasileiro no Fórum Econômico Mundial.

O evento trará a primeira grande oportunidade de Bolsonaro e de sua equipe entrarem em um contato mais estreito com os investidores estrangeiros, que ainda mostram uma dose de ceticismo para embarcarem de vez no Brasil.

O Ibovespa vem atingindo patamares recordes e chegar aos 100 mil pontos é considerado apenas uma questão de tempo, mas as apostas vêm sendo principalmente dos investidores locais, o que mostra um certo "pé atrás" dos que estão olhando o mercado de fora. 

Apesar de seguirem otimistas com a agenda liberal do novo governante, os investidores "gringos" ainda estão "esperando para ver" e mostram alguma preocupação com a capacidade do governo de entregar o que vem prometendo.

Neste sentido, o fórum de Davos é visto como uma oportunidade única para que o novo líder brasileiro os convença sobre a capacidade de entregar o que tem prometido ao mercado, como uma agenda robusta de reformas que tem como grande destaque a previdência. 

Bolsonaro terá um lugar de destaque em Davos. Ele será o primeiro presidente latino-americano a falar na sessão inaugural do Fórum Econômico Mundial, às 12h30 (horário de Brasília) desta terça-feira, e seu discurso será uma espécie de apresentação do presidente à elite das finanças internacionais e à imprensa global. A sessão de abertura costuma ser acompanhada com atenção especial, já que dá o tom do evento. Além do novo presidente, os estrangeiros também ficarão de olho no ministro da Economia, Paulo Guedes, que terá uma concorrida agenda com nove reuniões. 

Evento importante, mas não decisivo
Em entrevista ao InfoMoney, o economista-chefe para a América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, destacou que o evento em si não é decisivo, mas é um passo importante para mostrar ao mundo e para a comunidade internacional de investidores qual é a estratégia de política-econômica do novo governo.

Neste sentido, a equipe deve reiterar a intenção do governo de adotar uma política econômica liberal, pró-crescimento e pró-investimento, aprofundar as indicações de ajuste fiscal, além de uma política de abertura e integração do Brasil nas cadeias industriais globais. "Basicamente, mostrar que há uma vontade de dar um choque de investimentos e competitividade na economia e no governo em geral", avalia Ramos. 

Contudo, o ponto-chave - e que pode sinalizar as limitações do governo brasileiro em Davos - é a governabilidade.

"O estrangeiro não está preocupado com a direção da política macroeconômica, mas está ciente da dificuldade de o governo entregar essa agenda por conta do Congresso fragmentado. Há determinados tipos de impedimentos de caráter político-institucional que não são novos, mas que ainda não permitiram que governantes de cunho liberal tivessem muito sucesso", avalia Ramos.

Por isso, a grande questão passa a ser: até que ponto o governo terá capacidade de fazer a articulação política em meio a essa agenda tão dependente do Congresso?

Assim, o evento de Davos é importante uma vez que os estrangeiros poderão encontrar os policy makers e fazer perguntas diretas a importantes membros da equipe de Bolsonaro. Além disso, o governo poderá dar indicações também sobre a agenda microeconômica, trazendo mais detalhes sobre os planos de concessões que, a princípio, poderão trazer mais investimentos ao País.

Porém, a questão principal seguirá no radar. "É importante que o Brasil tenha esse canal de comunicação com o investidor estrangeiro e, se houver uma visão mais confortável, pode até atrair um pouco mais de investimento para o País. Contudo, Davos não resolve os problemas do Brasil", afirma o economista. 

Assim, o investidor - principalmente o externo - ficará de olho mesmo no pós-Davos.

Depois do Fórum, será analisado o real poder de articulação do governo para a reforma de destaque do governo, a da Previdência, que deve ser apresentada ao Congresso em fevereiro. 

A ideia é que Bolsonaro use a própria viagem a Davos para analisar as opções que estão em construção pelas equipes técnicas e, na sua volta, será analisado o real "poder de fogo" do governo, ainda mais em meio às denúncias envolvendo o filho de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, no caso Queiroz (veja mais clicando aqui), e que ameaçam afetar a base de apoio do governo.

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