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“Não é fazendo mais do mesmo que atenderemos a expectativa do consumidor”: como a compra da Uello se encaixa na estratégia da Renner (LREN3)

Companhia dá mais um passo para construir ecossistema de moda e lifestyle; analistas veem compra como presságio para os objetivos estratégicos

Por  Lara Rizério

Com mais uma aquisição considerada “modesta” pelo mercado após a oferta de ações de cerca de R$ 4 bilhões, realizada quase um ano atrás, a Lojas Renner (LREN3) procura fortalecer a sua estratégia de desenvolvimento da plataforma logística, de forma a melhorar a experiência ao consumidor e também reduzir os custos em um momento de inflação alta e forte competição.

A varejista anunciou ontem (4) a compra de 100% da Uello, startup fundada em 2017 que é focada na prestação de serviços logísticos e na melhoria da entrega aos clientes finais de médias e grandes empresas, principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Ao InfoMoney, Guilherme Reichmann, diretor de estratégia e de novos negócios, e Pedro Pereira, diretor de supply chain da Renner, destacaram que a aquisição vai em linha com o plano estratégico da Renner de construção de um ecossistema de moda e lifestyle, ao mesmo tempo em que endereça um dos grandes pilares de satisfação de clientes em compras de vestuário online (a experiência), além de buscar tornar a companhia uma referência em moda sustentável.

Pereira aponta que o movimento de aquisição da Uello faz parte do desenvolvimento da plataforma logística da Renner por meio da formação de: 1) estoques próximos aos consumidores; 2) operação fulfillment (que preparam os pedidos) eficiente; e 3) referência em transporte last mile (entrega final do produto ao consumidor).

“Nós estamos de fato olhando para diversos pilares para tornar a experiência do consumidor cada vez mais fluida, rápida e eficiente. O consumidor quer cada vez mais ter uma experiência encantadora, ter conveniência, receber rápido, com custo baixo. São desafios importantes e não é fazendo mais do mesmo que atenderemos toda essa expectativa do consumidor”, avalia Pereira, ressaltando que depende de inovação e de pensar em uma estratégia de plataforma logística que seja mais disruptiva – e que crie valor ao consumidor.

Neste sentido, destaca outras iniciativas, como o investimento de um Centro de Distribuição (CD) em Cabreúva, com início no segundo trimestre: “vai ser um ativo muito importante, traz tecnologias muito inovadoras em termos de moda e de e-commerce, que ajudarão a tornar este um centro de distribuição totalmente omnicanal [ou multicanalidade]. Todo o estoque deste CD, desde recebimento quanto expedição, fica disponível tanto para abastecer loja física quanto pedidos de e-commerce”, aponta Pereira.

Já a compra da Uello entra no pilar da experiência para o consumidor, com uma infraestrutura tecnológica que permite utilizar a logística para receber pedidos, otimizar e monitorar as rotas, interagindo e dando visibilidade à entrega, de forma a capturar tipos de pedido e solicitações específicas do consumidor.

A empresa adquirida é responsável pelo planejamento da rota do motorista, monitoramento da entrega dos pedidos e otimização da logística reversa para o cliente final. Segundo a Renner, a Uello deve seguir operando de forma independente, alavancada pela expertise e capital da Renner e acelerando seu crescimento em regiões fora de SP, RJ e MG, além de buscar captar novos clientes corporativos, podendo também atender lojas físicas e pontos de vendas.

A varejista não dá guidance (projeção) de quanto a aquisição da Uello pode gerar em economia de custos, mas destaca as suas projeções de melhora das entregas. Hoje, cerca de 45% das entregas da Renner são feitas em até dois dias, e a companhia planeja atingir 80% até 2024 e 2025. “Nosso objetivo é melhorar a experiência e ser mais rápido, com mais eficiência de custos”, apontou a empresa.

Compra bem recebida pelos analistas

A aquisição foi bem recebida pelos analistas de mercado, ainda que não vissem o anúncio como um catalisador para as ações.

“Vemos a aquisição como positiva, uma vez que a empresa deve servir de alavanca tecnológica para a operação logística da Renner, operando o last mile  e se aproveitando da estrutura de lojas físicas para efetuar entregas, podendo combinar a logística de entregas do e-commerce com o abastecimento de lojas da Renner, gerando sinergias de custo de frete importantes para o ecossistema”, apontou a equipe de análise da XP, que mantém recomendação de compra para o ativo LREN3, com preço-alvo de R$ 42 por ação (ou potencial de alta de 43% em relação ao último fechamento).

O Itaú BBA também avalia como ligeiramente positiva a compra da startup pela Renner, ressaltando que, consistentemente, a companhia tem afirmado que sua malha logística é um pilar fundamental para o fortalecimento de seu ecossistema.

Para o banco, a aquisição da Uello reforça o pilar da estratégia logística da Renner de fornecer soluções de referência para entrega ao consumidor. Portanto, enxerga a transação como altamente complementar, com sinergias claras para melhorar a qualidade do serviço e reduzir as despesas logísticas. No entanto, dado o tamanho da aquisição, não destacou esperar que o anúncio seja um catalisador para o papel.

Os analistas do BBA estão com a ação em revisão desde o resultado do quarto trimestre de 2021, que foram destaque pelas margens fracas da companhia, apesar da receita forte. Contudo, vale destacar que a sessão pós-balanço, em 18 de março de 2022, foi de reviravolta para os ativos, que passaram de queda de quase 8% para alta de 5,4%, com a companhia ressaltando as possibilidades de ganhos de eficiência durante a sua teleconferência de balanço.

Já na sessão desta terça-feira (5), pós-anúncio da aquisição, as ações registram queda de cerca de 3% durante a tarde, ainda que mais impactadas por questões macroeconômicas, em dia de alta dos principais contratos de juros futuros em meio à preocupação com a inflação persistente, o que impacta os ativos de varejistas, tema recorrente nos últimos meses para o setor.

Outro tema que ganhou destaque foi a possibilidade de consolidação no setor, com rumores até de que a Renner poderia fazer uma grande compra após o follow-on um ano atrás, o que não aconteceu.

Reichmann destacou que a companhia não descarta novas aquisições, mas que tem compromisso com a sua estratégia e não em fazer pequenas ou grandes compras no mercado. Além disso, apontou que a varejista tem feito investimentos significativos em infraestrutura, para modernização de centros de distribuição, além de expansão de lojas físicas e de plataformas digitais.

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