Perdeu atratividade?

Gringos deixam a Bolsa em abril: qual a tendência do fluxo de capital estrangeiro daqui em diante?

Mesmo com retirada de recursos no mês passado, saldo acumulado no ano ainda é positivo; analistas explicam se ativos brasileiros continuam atrativos

Por  Mitchel Diniz -

Abril quebrou uma sequência de três meses prósperos para a Bolsa brasileira, com o índice caindo 10,1% no período, e também registrou o primeiro saldo negativo de fluxo estrangeiro do ano. Os “gringos” retiraram R$ 7,68 bilhões no período, fazendo com que o mercado acionário do Brasil perdesse tração. Será que já é possível falar em uma inversão de tendência ou ainda é muito cedo? Teriam os ativos brasileiros perdido sua atividade de um mês para o outro?

Antes, é preciso entender o motivo pelo qual o estrangeiro vendeu mais do que comprou no mês passado e os analistas dão pelo menos duas explicações. A primeira é o aperto monetário nos Estados Unidos, que deve acelerar seu ritmo a partir de hoje, caso o Federal Reserve eleve os juros do país em 0,5 ponto percentual, como prevê o mercado. Em março, a autoridade monetária fez um primeiro ajuste, de 0,25 ponto, pela primeira vez desde 2018, abandonando uma longa política de juros zero.

O problema é que daqui para frente, o Fed tende a manter o ritmo de alta em 0,5 ponto nas próximas reuniões – ou até mais. “Essa alta de juros sendo mais agressiva é o que preocupa o mercado e os investidores passam a precificar uma desaceleração econômica”, explica Luiz Adriano Martinez, gestor de portfólio da Kilima Asset.

Além disso, uma boa parte do capital de fora que chegou ao Brasil nos três primeiros meses do ano veio atraído pela diferença de juros. O Comitê de Política Monetária (Copom) antecipou o aperto monetário no ano passado quando os outros países ainda não falavam em retirada de estímulos e ainda hoje segue elevando a Selic, para tentar frear a inflação. No desfecho da reunião desta quarta-feira, a autoridade monetária deve aumentar os juros em 1 ponto percentual para 12,75% ao ano.

“Tudo indica que o aumento de juros nos Estados Unidos vai acontecer em um ritmo maior do que o esperado e é natural que, com isso, os investidores façam movimentos mais bruscos de entrada e saída”, diz Bernardo Queima, CEO da Gama Investimentos. Contudo, ele não acredita que a tendência de fluxo positivo tenha se invertido, pois, segundo eles, os ativos brasileiros continuam atraentes.

Ações continuam descontadas

O interesse por empresas de valor, que não dependem de lucros futuros para justificar seu valor presente, aumentou depois do início da guerra na Ucrânia, sobretudo porque as companhias produtoras e exportadoras de commodities fazem parte desse grupo. E aí vem a segunda razão que explicaria a fuga do estrangeiro da Bolsa brasileira em abril: a China.

A segunda maior economia do mundo enfrenta seu pior surto de infecções pelo coronavírus desde o início da pandemia e, por adotar uma política de “Covid zero” impôs novos lockdowns pelo país. As restrições já estão impactando os índices de atividade do país e as autoridades acenam com medidas de estímulo para garantir que a economia cresça os 5.5% “prometidos” para este ano.

“A gente viu os preços das commodities dispararem por conta da guerra da Ucrânia. Mas ainda que eles sigam em patamares bastante altos, a disparada não continuou ao longo do último mês, por haver incerteza quanto ao consumo”, explica Jennie Li, estrategista de ações da XP. Ela acredita que a reversão do fluxo de investimento estrangeiro em abril foi algo “conjuntural, de curto prazo” e não vê o movimento como algo estrutural.

“Os ativos brasileiros continuam negociando a múltiplos muito baixos, com preço por lucro [medida de valuation] ao redor de 7 vezes, quando a média histórica é de 12 vezes”, complementa Jennie. A XP afirma continuar “confortável” em sua tese de commodities, ainda que o mercado a venha questionando ultimamente.

João Luiz Braga, sócio fundador da Encore Asset Management, também acredita que os ativos seguem atraentes e o dinheiro estrangeiro deve continuar entrando no mercado de ações brasileiro. “A Bolsa segue em patamares muito baratos em reais. Os múltiplos estão em níveis de períodos de grandes crises, com um valuation muito raro de se ver”, afirma.

E ainda que o Federal Reserve acelere o ciclo de aperto monetário, Braga acredita que o atrativo de diferencial de juros também vai continuar. “O Brasil paga juro real muito grande, de 5%, a depender do prazo. Nos Estados Unidos, o juro real, de 10 anos, virou zero e até pouco tempo atrás era negativo. Se não houver recessão ou um aumento muito grande dos juros lá fora e ficar como está, o cenário está precificado e é positivo para gente”, diz ele.

Na véspera, o Bank of America reiterou em relatório a sua visão positiva para o mercado de renda variável nacional, mantendo a sua recomendação overweight (exposição acima da média do mercado) dentro da estratégia de América Latina.

Os estrategistas David Beker, Paula Andrea Soto e Carlos Peyrelongue destacam ainda ver o Brasil como um “vencedor relativo”. Para eles, mesmo com o fluxo estrangeiro negativo em abril, as commodities brasileiras devem continuar se beneficiando da dinâmica global, enquanto o real mais fraco apoia os exportadores. Eles ainda apontam que os dados de atividade no Brasil estão melhorando e as taxas de juros podem atingir o pico em breve.

Martinez, da Kilima Asset, é mais cauteloso e diz que se a desaceleração da economia chinesa se mostrar mais permanente, “não vai ter volta de commodities e esse setor vai ser comprometido”. Somado a isso, os próximos indicadores econômicos e dados de inflação da economia americana vão determinar o quão agressivo o Federal Reserve será em suas próximas reuniões. “A depender, o fluxo pode voltar em menor intensidade. Vai ser mais complicado depender da demanda interna [de investidores], que não é o que está segurando a Bolsa”, afirma Martinez.

Fluxo no ano continua positivo

Ainda que os estrangeiros tenham tirado dinheiro da Bolsa brasileira em abril, o saldo do acumulado do ano continua positivo, com uma entrada líquida de R$ 60,68 bilhões. “O resgate em abril não chega nem perto dos níveis de entrada de capital”, observa Bruno Madruga, Head de Renda Variável e sócio da Monte Bravo Investimentos. Por isso, ele e outros analistas, acreditam que o fluxo negativo depois de três meses seguidos de entrada é até natural. Porém acreditam que, se a volatilidade persistir, é possível que o ocorrido em abril se repita.

“Se o fluxo estrangeiro continuar negativo, a Bolsa brasileira vai continuar perdendo um suporte. Quando se olha para o fluxo de varejo [de investidores locais], com a Selic para subir ainda mais nesta quarta-feira, ele está cada vez mais atraído pela renda fixa”, afirma Jennie Li, da XP.

Há um bordão de mercado que diz “venda em maio e vá embora”, traduzindo literalmente do inglês. Historicamente, os seis meses entre novembro e abril são os melhores para as Bolsas americanas. Maio seria o mês para realizar lucros com os ganhos do semestre anterior e vender os papéis, para não segurar ações durante o verão americano, retomando o fluxo de compras após o Halloween.

Na parte dos ganhos, a tradição definitivamente não foi cumprida. O Dow Jones e o S&P 500 tiveram o pior mês de abril em 42 anos, recuando, respectivamente, 4,9% e 8,8% no período. O Nasdaq fechou o mês acumulando queda de 13,3%. Se as vendas de maio acontecerem seriam por outros motivos – sendo a subida de juros nos Estados Unidos em ritmo mais acelerado, o principal deles – e tenderia a piorar o cenário já bastante complicado pelo qual as Bolsas passam atualmente.

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