E agora, Ana?

Gestor da Moat defende fundos que apostam na queda dos ativos e critica movimento que inflou ações do IRB

Figura conhecida como 'short seller' pode evitar problemas graves de mercado, especialmente em casos de fraudes, afirma Cássio Bruno

SÃO PAULO – Investidores críticos às posições vendidas (que apostam na baixa dos preços dos ativos) de grandes fundos de investimento causaram grandes transtornos no mercado financeiro americano na última semana.

Organizadas em fóruns do Reddit, essas pessoas fizeram compras em massa de ações de empresas como GameStop, BlackBerry e Nokia na tentativa de gerar um efeito conhecido como “short squeeze”.

Para esses investidores, é injusto que os fundos lucrem com a derrocada dessas empresas e, portanto, com a perda de dinheiro dos acionistas delas. No Brasil, investidores organizados pelo Telegram tentaram produzir o mesmo efeito nas ações do IRB (IRBR3), papéis que tiveram a maior queda do Ibovespa em 2020 (-76,88%).

Cássio Bruno, gestor e sócio da Moat Capital, vê a situação de maneira diferente: “Todo mundo fala que o ‘short’ [posição vendida] é malvado. Mas, na verdade, o ‘short’ evita condições muito piores”. A gestora conta com fundos de hedge e long bias, que utilizam posições vendidas para gerar retorno aos cotistas.

Em live no Instagram no InfoMoney, ele usou o caso do IRB como exemplo. “O caso do ‘short’ em IRB no ano passado fez com que as ações caíssem, mas evitou um problema estrutural de mercado”, afirma. “Se não tivesse o short seller no meio do caminho, teríamos um problema muito maior.”

O caso IRB

Para quem não acompanhou o caso: em fevereiro de 2020, a gestora Squadra questionou, em relatório de quase 200 páginas, os números da resseguradora IRB, e declarou que estava com posição vendida nas ações IRBR3.

Até então, a empresa era uma das “queridinhas” dos investidores. Esse foi o começo da derrocada dos papéis no ano, com uma queda que se ampliou conforme novos problemas apareceram para a resseguradora.

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Em junho do ano passado, sob nova direção, o IRB divulgou seu balanço do primeiro trimestre com uma revisão dos números de 2018 e 2019. O CEO Antonio Cassio dos Santos admitiu: “Uma ou outra coisa do relatório da Squadra está mais à direita ou à esquerda, mas a base do trabalho que o analista da Squadra fez foi fantástico”.

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Bruno, da Moat, é ainda mais crítico. “Com o que o IRB estava fazendo, faltaria capital para ele pagar o resseguro. O mercado de resseguros ficaria completamente disfuncional. O governo teria de colocar capital no IRB”, projetou na live comandada pela especialista em investimentos Ana Laura Magalhães (a Explica Ana).

Assim, o short seller pode evitar problemas graves de mercado, especialmente em casos de fraudes, conclui o gestor. Ele contou que também estava short em IRB à época da carta da Squadra e, portanto, se beneficiou da queda nas ações da empresa.

Como se monta uma posição vendida

O analista CNPI-T Gilberto Pereira Coelho Junior, o Giba, que também participou da live, explicou que, para operar “short”, é preciso fazer um aluguel de ações por meio do home broker.

O investidor precisa provar que consegue devolver os ativos para o doador, ou seja, cobrir a liquidação da ação na data do vencimento do contrato. Essa garantia pode ser dada por ativos como CDBs, títulos públicos, LCIs e LCAs, entre outros.

Após esses processos, a corretora liga as duas partes do acordo e transfere as ações do doador para o comprador até o prazo acordado. Nesse período, o investidor que alugou as ações as vende, na aposta de que elas irão se desvalorizar, para depois recomprá-las por um preço mais baixo e, assim, devolver ao verdadeiro dono e obter lucro.

Mas, no meio do caminho, pode ser que a ação se valorize e, na hora de recomprar os papéis, o short seller acabe com prejuízo.

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No caso em questão nos EUA, os investidores que apostaram na queda da ação da Gamestop e, para isso, fizeram o aluguel dos papéis, foram obrigados a comprar os ativos a um valor muito mais alto para desmontar suas posições, tendo assim que embolsar prejuízos em meio à disparada dos ativos.

Vale destacar que, se o valor das perdas superar ou ficar próximo do exigido como margem de garantia, a operação pode ser interrompida compulsoriamente. Assim, o investidor que opera vendido terá que comprar as ações, o que vai pressionar ainda mais a cotação dos papéis para cima. Esse é o chamado short squeeze que, numa tradução literal, seria o “esmagamento” dos vendidos, ou das posições vendidas.

No caso da empresa GameStop nos Estados Unidos, Giba classifica o short squeeze como “forçado”: um grupo de investidores se junta para manipular o mercado — o que é considerado crime.

O fenômeno também pode ocorrer de forma mais “natural”, nas palavras do analista. Ele exemplifica com as ações da Usiminas (USIM5) em 2015: “Existia uma guerra chamada take over hostil, que é você querer o controle de uma ação sem querer negociar com a pessoa dona da ação ou com a empresa. É você entrar no mercado e comprar todas as ações no free float até somar 50% mais uma ação”.

Com a alta demanda, as ações USIM5 subiram 118% em um mês. “O vendido teve que zerar sua posição”, lembra.

E Agora, Ana?

O programa “E Agora, Ana?” vai ao ar às quartas-feiras, às 12h, no Instagram do InfoMoney. A série de lives, apresentadas pela especialista em investimentos Ana Laura Magalhães, traz assuntos relevantes para os investidores se posicionarem em investimentos no Brasil, levando em conta os cenários dos mercados nacional e internacional.

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